Obama e Castro dominam a Cúpula das Américas; Por Sérgio Abranches

12/04/2015 11h53m. Atualizado em 16/04/2015 11h57m

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A cúpula das Américas que se encerrou neste sábado (11), no Panamá, com a histórica reunião entre Back Obama e Raul Castro, marcando a aproximação entre EUA e Cuba, tem várias razões para entrar para a história. Foi a primeira reunião de dirigentes americanos, em que todos os países da América estiveram reunidos, com a participação de Cuba. Hospedou a primeira bilateral entre os dirigentes do EUA e Cuba, desde a revolução de 1959. Obama refaz sua diplomacia, com uma inclinação mais progressista. O acordo correntemente em negociação com o Irã é outro grande marco dessa guinada diplomática, que afasta a política externa de seu país do curso hegemônico que retomou com vigor renovado desde o 11 de setembro. Desde o início ele deu claros sinais de que se afastava de forma inédita do “excepcionalismo do EUA”, o mais severo dogma da cultura política de seu país, ao qual todo político é obrigado a aderir, como teste decisivo de patriotismo.

Nascido da comparação de De Tocqueville entre o EUA e a França, que mostrava o país americano com uma cultura cívica singular, firmou-se como a ideia de que o EUA é uma nação virtuosa, melhor que as outras, a única “fundada em um credo”, como disse G. K. Chesterton. Este foi um dos alicerces morais da justificativa ideológica para o confronto polarizado com os comunistas, na Guerra Fria; a guerra do Vietnam; a invasão do Iraque e do Afeganistão. Foi ele que deu a Bush a faculdade de definir os países do “eixo do mal”. O prolongado e obsoleto bloqueio de Cuba é cria sua. Pois Obama foi ao Panamá para dizer que os dias em que “nossa agenda neste hemisfério frequentemente presumia que os Estados Unidos poderiam intervir impunemente, estes dias são passado.” E disse mais: “ao avançarmos no processo de normalizacão, teremos nossas diferenças governo-a-governo em vários temas. Não há nada de errado nisso, houve ocasiões em que divergimos de outras nações das Américas, mas estou aqui para dizer que quando nos manifestamos, nós os fazemos porque os Estados Unidos da América acredita, e sempre apoiará, um certo conjunto de valores universais.”

Desde o início, os republicanos, se mostraram incomodados por seu “multilateralismo” e puseram em dúvida a adesão de Obama ao dogma excpecionalista. Eles sempre preferiram as ações unilaterais baseadas na crença de que são melhores e sabem mais o que é bom para o mundo. Foi esse unilateralismo derivado que sustentou o bloqueio a Cuba, como uma ameaça vinda de tão pequena distância de sua costa que se pode dizer, mesmo, estar no seu quintal. Obama aumentou a polêmica ao afirmar em discurso na Academia Militar, que acreditava “no excpecionalismo americano com todas as fibras” do corpo. Mas, qualificou “o que nos faz excepcionais não é nossa habilidade de elidir normas internacionais e o império da lei; é nossa vontade de afirmá-las por nossas ações.” Essa fé dogmática já havia sido qualificada por ele, ao falar de sua preferência por soluções multilaterais, dizendo que acreditava “no excepcionalismo americano”, do mesmo modo que “suspeito que os britânicos acreditam no excepctionalismo britânico e os gregos acreditam no excpecionalismo grego”. É claro que, educado na escola de direito de Harvard, ele sabe que o multilateralismo é incompatível com a imposição unilateral de valores. Da mesma forma, o excepcionalismo não subsiste em um contexto relativista. Se todos são excepcionais a seu modo, nenhum é excepcional.

Obama retoma, sob vários aspectos, com mais sucesso e em outro contexto histórico, a doutrina de Jimmy Carter, que via a política externa de seu país como uma deturpação do “espirito fundador”, pelo o EUA se distinguiria das outras nações. Para ele, a missão da diplomacia era promover a cooperação internacional e os direitos humanos, como legítima expressão do excepcionalismo de uma Nação que nasceu com a obrigação moral de defender a liberdade. Nem Carter, nem Obama, negaram explicitamente o excepcionalismo, mas ambos adotaram posições que, na prática, o desmentem. Obama também tenta redimir a diplomacia de erros passados, vários deles repetidos em seu primeiro mandato, em parceria com Hillary Clinton. Ainda recentemente, ao listar a Venezuela como ameaça à segurança do EUA, foi além da conta ao levar a sério demais a farsa ideológica que Maduro encena para sustentar-se no poder, para cujo exercício não tem talento ou estatura.

EUA e Cuba dominaram a cena. O Brasil teve uma participação periférica e desimportante. A presidente Dilma Rousseff ganhou suas chamadas na imprensa local, por ter se reunido com Obama e acertado uma visita de trabalho a Washington. Muito pouco, para o único país com porte para ter liderança regional e fazer o contraponto efetivo ao EUA na América Latina. O México está sempre próximo demais do EUA e distante demais dos latinos. O Canadá, embora gostasse de se diferenciar do EUA, tem almas saxônica e gaulesa demais para se aproximar do lado latino da América. Mas o Brasil preferiu ser caudatário da Venezuela e subordinar seus interesses a um alinhamento sem fundamento ao bolivarianismo, do qual não é parte e cuja autenticidade se perdeu no arbítrio personalista e agora mergulha nas águas lamacentas da ditadura.

Lula, na presidência, com a popularidade internacional que conquistou, conseguia contrapor à mediocridade instalada no Itamaraty e ao antiamericanismo fora de época e lugar, o instinto político da diplomacia presidencial, que manteve o Brasil na mesa principal do multilateralismo, desde a Rio ’92. Sem a liderança instintiva e carismática de Lula, a diplomacia brasileira atolou na pura mediocridade, tornando-se caudatária de um países e teses desimportantes. No denso e eloquente silêncio brasileiro sobre as prisões arbitrárias e o número intolerável de presos políticos na Venezuela, só se ouviu a fraca voz da presidente Dilma Rousseff em uma perfunctória e óbvia declaração que “nós não cremos que a relação melhor com a oposição seja encarcerar quem quer que seja, a não ser que cometa algum crime. Se não cometeu crime, não pode ser presa.” Seria lógico que dessa afirmação beirando o lugar comum decorresse a condenação específica da Venezuela, instando-a a soltar imediatamente presos políticos como Antonio Ledezma. Mas não se pode pedir coerência ao governo brasileiro, embora ele se sinta livre para cobrar coerência dos outros a torta e à direita.

Enquanto o ditador venezuelano fazia sua pantomima bufa antiamericana, o cubano mostrava-se moderado, pragmático e amigável a Obama. A cópia venezuelana sem talento da Cuba enjeitada pelo excepcionalismo do EUA é uma farsa tão evidente, que devia envergonhar a diplomacia brasileira por levá-la a sério nos principais fóruns multilaterais. Maduro parece personagem de um pastiche, imitando mal os caudilhos da boa literatura latino-americana de Asturias a Garcia Márquez. Seria apenas uma piada, não estivessem suas vítimas sofrendo nas ruas e nas prisões venezuelanas.

Por isso tudo, EUA e Cuba faturaram a Cúpula do Panamá. Ambos sabem que Obama chegou aos limites das possibilidades como presidente. No máximo conseguirá retirar Cuba da lista de países patrocinadores do terrorismo, para que o fim do bloqueio tenha viabilidade legal. Pode até instalar uma embaixada em Havana e autorizar a representação de Cuba em Washington. Mas só o Congresso, dominado pelos republicanos, pode pôr fim ao bloqueio econômico. Há republicanos dispostos a apoiar o fim do bloqueio. Isso, porém, só deve ocorrer na nova legislatura, após as eleições. As primárias republicanas provavelmente levarão o partido à oposição às atitudes diplomáticas de Obama. Os republicanos continuam muito distantes do centro, amontoados da direita à ultradireita. O provável rival de Hillary Clinton, Jeb Bush, ex-governador da Flórida, terá problemas em opor-se à iniciativa de Obama. Mais de 67% dos cubano-americanos apóiam a retomada das relação diplomáticas e o fim do bloqueio comercial. Mais de 90% dos jovens é favorável a essa distensão. Em suma, a grande maioria do poovo do estado mais próximo de Cuba, geográfica e culturalmente.Hillary Clinton, que pode anunciar sua candidatura, pelas redes sociais, neste domingo (12) está mais ao centro que Obama e terá certa dificuldade para defender todas as posições adotadas por ele em seu segundo mandato. Obama cuida de seu legado e pretende deixar problemas candentes, como de Cuba, como fatos quase consumados, para seu sucessor na Presidência — Hillary é, no momento, a favorita, com mais de 60% de apoio, mas é muito cedo — e o novo Congresso terminarem. Um retrocesso vai se tornando pouco provável. Quando Obama deixar a Casa Branca, o contexto será outro e a chance de seu legado vingar deve aumentar.

Sérgio Abranches

Sérgio Abranches é cientista político, comentarista da CBN e colaborador do blog.

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