Macedônia, onde a terra sempre treme; Por Clara Favilla

03/03/2015 07h56m. Atualizado em 07/03/2015 10h50m

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Logo quando acordamos, quase sempre nossa primeira tarefa é a de recolher cacos do que fomos ontem. Montamos, então, a partir deles, nossa nova fachada. Bastante parecida com a dos dias anteriores, cada vez mais fragilizadas pelas sucessivas colagens. Feito esse exercício vital, trabalhamos, amamos, odiamos, seguimos atentando contra os Dez Mandamentos, os Sete Pecados Capitais. Cuidamos do nosso jardim, mesmo que ele se resuma a um vaso de uma planta que teima em não ir pra frente. Seguimos, assim,até a parada final inexorável, certos de que mundo continuará sem nós. Nem pior, nem melhor. Sem nós.

Para contar aqui a viagem de dois meses que fiz pela Europa, em 1985, incluindo alguns países chamados, naquela época de socialistas, nem sempre recorro aos meus álbuns de fotos. Por isso o relato não é linear. A memória destaca um mosaico de pedrinhas reluzentes sobre fundo escuro. O fundo é a grande viagem. As pedrinhas, as lembranças mais nítidas. E, de repente, surgem outras que nem estavam ali no começo dessa arqueologia mental.

Atravessamos a então Iugoslávia de carro. Entramos pela fronteira italiana em direção à Grécia. Uma das últimas paradas até Atenas foi Skopje, devastada por um terremoto em 1963. Duas décadas depois, a capital da República de Macedônia estava de pé, mas sem a opulência dos antigos edifícios dos séculos 18 e 19. Minha primeira constatação foi de que se parecia, em muitos pontos, com minha Brasília de edifício despojados, baixos e horizontais. Havia também alguns bastante altos, construídos a partir novas técnicas anti-sísmicas.

Skopje_1963

Em 1963, em plena guerra fria, ano da instalação dos mísseis russos em Cuba, soldados americanos prestam ajuda às vítimas em Skopje.

Skopje fica na rota principal norte-sul, no centro dos Bálcãs, entre Belgrado e Atenas. Parada obrigatória de um fluxo intenso de pessoas e mercadorias desde a antiguidade pré-romana. A Macedônia, com o esfacelamento da Iugoslávia é um país independente de apenas dois milhões de habitantes, sem litoral, com montanhas e bacias hidrográficas relevantes. Seus rios atravessam fronteiras pra desaguarem em três mares diferentes: Egeu, Adriático e Negro. É um caldeirão étnico: 67% da população são eslovacos macedônios, 23% albaneses e a restantes turcos, sérvios e ciganos. Como se não bastassem população e território assim diminutos, os albaneses reivindicam enclave próprio. A religião dominante é a cristã ortodoxa e 30% da população professam o islamismo sunita. Possui dezenas de lagos e também muitas montanhas com mais de dois mil metros de altura. O Lago Ohrid, que partilha com a Albânia, é um dos mais antigos do mundo. Tem milhões de anos, assim como o Titicaca, na fronteira entre o Peru e a Bolívia, e o Baikal, na Sibéria.

Chegando de Belgrado, não nos foi difícil encontrar hotel em Skopje, do tipo casarão com área de estacionamento. Mesmo pequeno, era um empreendimento estatal. Havia toda uma burocracia no funcionamento. Viajávamos com vistos de turistas Estávamos por nossa conta e risco. Em certas ocasiões chegamos a nos sentir quase indesejáveis. E o pior, os preços dos hotéis para nós, que não estávamos ali a convite, a estudo ou a trabalho, eram bem mais caros. A sensação era de estarmos num limbo. Até nos arrependemos de não termos viajado como jornalistas devidamente autorizados pelas embaixadas desses países no Brasil.
À noite saímos a passear pelo centro de Scopje (o j é pronunciado como i) e pudemos ver a forte influência muçulmana nos trajes femininos, sempre tendo como complemento o véu. Entramos em um bar restaurante onde se fumava muito, mas não se consumia bebida alcoólica, apenas chá e café turco, aquele que não é coado. A predominância da clientela era masculina. Apenas algumas mulheres jovens, sempre acompanhadas. Um casal de namorados nos chamou a atenção. Ela, extremamente tímida e recatada, com os olhos mirando fixos a xícara de café.

“Não há família que não tenha sido afetada pelo terremoto”, contou-nos um dos funcionários do hotel. “A cidade foi reconstruída sobre os escombros. Estamos aqui desde sempre e aqui permaneceremos. O rio Vardar nos define”. A ponte de pedra dos tempos romanos, restaurada no século 15, vem sobreviveu aos desastres naturais, políticos e econômicos que sacudiram a cidade e a região que, antes dos romanos, viveu o sonho grandioso de Alexandre que fez seu império chegar até à Índia. Na Idade Média fez parte do Império Sérvio. Depois esteve sob dominação turca, búlgara,, austríaca, húngara. Na primeira metade do século passada, estava anexada ao reino da Sérvia. Foi invadida pela Alemanha. Finda a Segunda Guerra Mundial, integrou-se à República Socialista da Iugoslávia.

Foi com dor no coração que deixei a cidade. Sabia quão difícil seria retornar. Queria mais passeios, mais aromas e sabores do bairro turco. Queria atravessar a pé a ponte de pedra sobre o Vardar. Queria mais tempo para suas igrejas de cristos, marias e santos bizantinos. Mais tempo para os monastérios das redondezas. Fazia muito frio e havia neblina, apesar de ainda ser outono. Depois de algum tempo de estrada em direção à Grécia, já hora do almoço, vimos uma indicação de restaurante à beira da estrada. Paramos e vimos que o refeitório funcionava na sala de uma casa bem simples, ocupada pela família da senhora de etnia albanesa que cozinhava e também servia as refeições.

Na parede do restaurante improvisado, um Tito emoldurado. Quando viu que comentávamos a respeito, a senhora fez um discurso apontando amorosamente a foto. Não entendemos uma palavra. Mas ela sorria toda vez que fazíamos algum sinal de aprovação com a cabeça. Tinha o marechal em suas orações porque juntava as mãos e olhava para o céu, enquanto falava. Em certo momento, os olhos da senhora debulharam-se em lágrimas premonitórias de dias ainda mais difíceis. Depois da morte de Tito, os partidos nacionalistas com base étnico-religiosa ganharam força, um dos fatores de esboroamento geopolítico da Iugoslávia pós queda do Muro de Berlim. Vieram também à tona, muitas denúncias de atrocidades cometidas com ou sem o conhecimento dele.

Ficamos ali por um bom tempo conversando sobre o destino da Iugoslávia sem Tito e quando nossos pratos chegaram, vimos a enorme confusão que resultou dos nossos pedidos. Havíamos escolhidos alguns tipos de apresentação de carne de porco, a única disponível – bife, bolo de carne moída e espetinho – que repartiríamos entre nós. A senhora entendeu que era o conjunto das amostras que havia nos trazido vezes o número de pessoas que estavam à mesa. Ficamos com uma montanha de carne na nossa frente e tivemos que pagar uma conta além do previsto. Nem é preciso dizer que sobrou mais da metade. A senhora nos improvisou um embrulho para levarmos de lanche. Mas quem suportaria comer carne de porco por duas vezes no mesmo dia? E ainda mais embrulhada de qualquer jeito, numa péssima apresentação? Aguardem o próximo post. Ainda escreverei sobre a Macedônia.

Clara Favilla

Clara Favilla é jornalista. "Mais do que conhecer novos lugares, amo retornar. Reportariar é meu ofício. Vivo viajando, até pela quadra onde moro, em Brasília. Escreverei sobre viagens aqui. Serão impressões pessoais,mais do que guias. Espero que gostem, deem retorno e sugestões."

1 Comentário para "Macedônia, onde a terra sempre treme; Por Clara Favilla"

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