O cessar fogo na Ucrânia: não mais que uma faísca de esperança; Por Sérgio Abranches

15/02/2015 12h14m. Atualizado em 21/02/2015 09h44m

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Quando Angela Merkel, François Hollande, Vladimir Putin e Petro Poroshenko assinaram o segundo cessar fogo de Minsk, nesta capital de Belarus, que entrou em vigor à zero hora deste domingo (15), a Europa apareceu como protagonista ativa em um explosivo conflito internacional, com o objetivo de bloquear o curso de ação favorecido pelos Estados Unidos. A Alemanha fortaleceu seu papel hegemônico. Mas esse acordo não era o que Merkel queria. Preferia manter e, talvez aprofundar, as sanções econômicas contra Moscou. Uma posição que se mostrou pouco realista. Havia se tornado um claro perde-perde. A Rússia sofria, mas o bloqueio econômico não punha fim ao conflito. Além disso, seu apoio às sanções não era maior que sua oposição à opção do EUA de armar a Ucrânia. Por isso assumiu a liderança das negociações. Putin aceitou negociar, porque via como inevitável e intolerável o envio de armas ao país vizinho, se as hostilidades continuassem. Hollande acompanhou Merkel, porque o cessar fogo era sua segunda melhor alternativa. A primeira era perdedora: acabar as sanções e voltar a negociar normalmente com a Rússia. Quem se beneficiou mais do acordo foi Putin, que perde pouco e ganha muito. Poroshenko entregou os dedos para não perder uma parte da Ucrânia e, consequentemente, ser defenestrado do poder.

Putin é uma liderança autoritária. O regime que construiu após 2000 é uma versão atualizada que mistura elementos típicos do cesarismo e outros oriundos da tradição csarista. Sua prioridade é a integridade nacional da Rússia e a influência exclusiva sobre as vizinhanças nas quais irradia-se ainda o brilho cadente do poder russo. As condições estabelecidas por Minsk II são mais aceitáveis para ele do que para Poroshenko. O acordo é quase uma repetição do anterior, que acabou violado. As diferenças são poucas, mas relevantes. A zona de neutralidade foi ampliada no papel e na marra. Desde a assinatura do cessar fogo, os separatistas armados por Putin lançaram uma ofensiva sangrenta para assumir controle de áreas que ainda não dominavam. O alvo principal era Debaltseve, um elo ferroviário crítico entre as regiões de Donetsk e Luhansk por eles controladas. O acordo congela o quadro encontrado no momento de vigência da trégua. Ainda não está claro se conseguiram incluir Debaltseve na zona de neutralidade.

Para Putin, no momento, a manutenção de uma extensa área de fronteira desarmada, sob seu controle ideológico, porém permanecendo sob a responsabilidade econômica e social da Ucrânia é a melhor solução. Ele estava interessado na anexação da Crimeia, mas não das regiões devastadas pela guerra sob controle separatista. O ônus da reconstrução e da ajuda humanitária para essas regiões sob influência russa recairá sobre os cofres do governo de Kiev e seus aliados ocidentais. A economia russa está anêmica e piorou com as sanções econômicas que lhe foram impostas pelo “Ocidente”, desde que o conflito começou, e pela queda dos preços do petróleo. Essa cláusula do Misk II era, de longe, a mais atrativa para o líder russo e a armadilha da qual Poroshenko não podia escapar. A Ucrânia está quebrada, mas o acordo era indispensável para que recebesse nova ajuda do FMI de, no mínimo, US$ 17,5 bilhões e, mais importante, ajuda adicional dos países que apostam no improvável acordo para a reconstrução e recuperação econômica das áreas atingidas. Putin consegue, desta forma, um cordão de governos fracos em suas fronteiras, com países instáveis, enfrentando movimentos de rebeldia e separatismo, simpáticos à Rússia, mas sustentados pela Europa e Estados Unidos. É a mesma situação da Transnistria, a zona de conflito congelada na fronteira entre a Moldova e a Rússia. A região ucraniana congelada pelo cesar fogo era, porém, dez vezes maior que a Transnistria antes da última ofensiva dos separatistas na véspera do acordo. Pode ter crescido nos dois últimos dias. Outro elo desse cordão são os territórios de Abkhasia e Odessa do Sul, na Georgia.

A permanência de uma ampla faixa de tensão, sob influência de Moscou, mas mantida por Kiev e seus aliados, não apenas livra a Rússia do peso econômico da reconstrução, como lhe dá munição para sua campanha incessante contra o “Ocidente” na imprensa e na mídia social, que controla com mão de ferro e astuciosa estratégia de manipulação, dissimulação e difamação. O autocrata russo assumiu o controle das redes de TV, dos jornais e de todas as estações de rádio relevantes pelo estado ou por meio de seus parceiros oriundos da parcela da cleptocracia que cooptou (a outra ele anulou). Hoje a imprensa russa só publica matérias que lhe são favoráveis, críticas aos “valores ocidentais” e sobre a conspiração liderada pelo EUA para desestabilizar a pátria russa. Uma milícia de blogueiros mercenários ataca, difama e sufoca qualquer manifestação crítica ou de oposição a Putin e exalta sua personalidade forte e patriótica. Essa milícia paga é reforçada por uma outra milícia especializada em redes sociais, que mistura voluntários, mercenários e “bots” para disseminar as mensagens dos blogs e lançar ataques violentos contra os adversários. Putin forçou as principais redes a manterem seus servidores em território russo, o que lhe permite censurar e policiar o ciberespaço. Putin assumiu o controle das redes sociais por meio dessa batalha de informação e propaganda disfarçada, quando viu a oposição a seu governo autoritário crescer no território virtual, no que chamou de “confronto informacional”. A manipulação astuciosa da informação e da opinião pública, associada à ameaça que retira da permanente tensão nas fronteiras e da diplomacia de combate, mantêm seu apoio social em alta. Ninguém mais acredita em seus índices de popularidade, que são tão manipulados quanto a opinião que circula nas mídias.

Um dos alvos permanentes dos ataques diretos por Putin e por suas milícias virtuais são as reformas democratizantes na sua região de influência, que atribui, com bastante razão, a Washington. Ele e seus milicianos acusam o EUA de hipócrita adesão a valores democráticos que, na verdade, esconderiam manobras para ampliar sua hegemonia política e econômica. Nenhum observador independente acredita nos propósitos democráticos da política externa de Washington. Basta ver sua lista de aliados principais. A visita de estado do casal Obama ao novo rei da Arábia Saudita, Salman bin Abdulaziz Al Saud Al Sudairi, é eloquente a esse respeito. O regime saudita é o mais próximo do absolutista que se tem hoje. Quem critica Putin por seu autoritarismo e expansionismo, com base em convicções democráticas, com certeza faria o mesmo em relação ao despotismo nada esclarecido dos Saud. A política internacional é um jogo duro de interesses, onde raramente há propósitos nobres. A elite tecnoburocrático-militar que controla a política de segurança nacional no EUA acredita mais nas teses oriundas da Guerra Fria, do que Putin, que as manipula de acordo com sua conveniência. Esse grupo enquistado no poder em Washington e nos partidos Republicano e Democrata pressionava Obama para armar a Ucrânia. Esteve, também, por trás da tentativa de absorver a Ucrânia na OTAN, o movimento que mais feria os interesses geopolíticos de Putin e que foi tirado de pauta pelo acordo.

Ninguém aposta sequer um punhado de dólares na possibilidade de paz, nem mesmo que a trégua será inteiramente respeitada. Os países europeus, muitos deles favoráveis à posição de Merkel, foram unânimes em apoiar e celebrar publicamente o acordo. Mas todos dizem, em off, não acreditar no seu sucesso. Washington não está nada satisfeita com o acordo, sabe que lhe vai custar caro e não atende à ultrapassada visão geopolítica de sua elite de segurança nacional. Mas o apoiará publicamente. Para Poroshenko é uma saída amarga, porém necessária. As responsabilidades econômicas que contrai com o acordo, serão compartilhadas pela Europa e pelo EUA, temerosos de que uma crise social e econômica “pós-guerra” gere um levante e ponha toda a Ucrânia sob controle da oposição ligada à Rússia. A reforma constitucional planejada para 2015 para promover a descentralização, terá que conter provisões permanentes para a região separatista e o pleno restabelecimento das fronteiras da Ucrânia ficou condicionado à sua aprovação não só pelo parlamento, como pelos separatistas. Angela Merkel parece concordar com seus parceiros europeus, por isso descreveu o cessar fogo como “não mais que uma faísca de esperança”.

Sérgio Abranches

Sérgio Abranches é cientista político, comentarista da CBN e colaborador do blog.

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