Espaçonave europeia inova no monitoramento de terremotos

15/02/2015 09h36m. Atualizado em 21/02/2015 09h44m

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No dia 24 de agosto de 2014, a área de San Francisco Bay, na Califónia, balançou com um terremoto que registrou 6 pontos na escala Richter, o maior da região nos últimos 25 anos. Os tremores mataram uma pessoa e deixaram 200 feridos. No sul do Napa Valley, também no Estado, um edifício localizado perto do epicentro do terremoto foi danificado. O fenômeno desencadeou um esforço científico para medir a força desses terremotos e marcou o inicio de uma nova fase de monitoramento para a nave espacial Sentinel-1A, lançada pela Agência Espacial Européia.

Por mais de duas décadas, os satélites fazem a medição dos terremotos por meio do movimento do chão após os tremores. A comparação das elevações relativas tiradas nos mesmos lugares ao longo do tempo ajuda os cientistas a compreenderem a dinâmica de vários fenômenos geofísicos, incluindo terremotos, vulcões e deslizamentos de terra. No entanto, em locais da Terra que sofrem alterações superficiais muito rápidas, essa medição é imprecisa e mal orientada. O lançamento do satélite Sentinel-1A, em abril de 2014, promete mudar essa realidade, marcando um aumento radical da capacidade de acompanhar a dinâmica do planeta.

O Sentinel-1A é o primeiro a adquirir dados de forma sistemática e frequente sobre todas as áreas tectônicas e vulcânicas na Terra. O potencial preciso do satélite foi comprovado após o terremoto ocorrido em 24 de agosto. A nave espacial foi capaz de acompanhar a continuação do movimento tectônico que ocorreu desde então na área.

A eficiência do Sentinel-1A é explicada pela presença de um radar interferométrico de abertura sintética, chamado de InSAR. Ele funciona enviando micro-ondas que atingem a superfície da Terra e refletem de volta para o satélite. A força dessas micro-ondas permite aos cientistas criar uma imagem do terreno analisado.

Além disso, o InSAR constrói a imagem não apenas com a força do feixe de radar refletido, mas com as micro-ondas recuperadas pelo satélite. Com uma precisão de centímetros, é possível comparar imagens tiradas antes e depois de um terremoto e descobrir a mudança causada pelos movimentos no terreno. Ao contrário dos outros radares de satélite, o Sentinel-1A foi projetado especialmente para monitorar a deformação do solo. A nave voa em um tubo orbital muito menor no espaço e pode ver mais longe, melhorando a qualidade dos dados coletados.

Geralmente, os movimentos de terra na Califórnia seguem um padrão específico, em que as diferentes regiões deslizam umas sobre as outras ao longo da falha. No entanto, o terremoto de agosto teve um comportamento diferente e, por meio do Sentinel-1A, foi possível descobrir em detalhes os pequenos deslocamentos da superfície. Segundo a Agência Espacial Européia, o equipamento do satélite revelou outras partes do sistema que se moviam ligeiramente durante o terremoto. As informações coletadas podem ajudar nas futuras investigações dos cientistas sobre a atividade e evolução desses fenômenos naturais.

Imagens captadas pelo Sentinel-1A varreram a região atingida pelo terremoto e geraram uma longa imagem de 80 quilômetros de largura. Chamada de Terrain, a digitalização permite uma imagem de 250 quilômetros de extensão em alta resolução espacial. Por causa dessa inovação, o Sentinel é o primeiro satélite de radar capaz de visitar qualquer ponto da superfície da Terra a cada 12 dias.

O próximo passo dos cientistas é processar todos os dados recolhidos pelo Sentinel até a metade de 2015. No ano que vem, o satélite será acompanhado por um outro idêntico, o Sentinel-1B. A nave adicionada terá capacidade para armazenar o dobro de dados e reduzir pela metade o tempo de revisita para 6 dias, melhorando a qualidade das informações e capturando com mais facilidade a mudança dos eventos. A missão terá uma longa duração para garantir a consistência e continuidade do dados. O objetivo da equipe que estuda a atividade desses satélites é estender as análises por pelo menos 20 anos. Até 2034, o arquivo de dados armazenado pretende mudar profundamente a maneira como vemos o nosso planeta e ajudar os pesquisadores a entender os fenômenos naturais ao longo do tempo.

Matheus Leitão

Matheus Leitão é jornalista há 15 anos. Em sua carreira, passou pelas redações do Correio Braziliense, revista Época, portal iG e Folha de S.Paulo. Matheus recebeu o Prêmio Esso por duas vezes, o Troféu Barbosa Lima Sobrinho -- além de menção honrosa no Vladimir Herzog. Entre 2011 e 2012, esteve na Universidade de Berkeley, na California, como Visiting Scholar.

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