Miriam Leitão: A melancolia lúcida no carnaval

14/02/2015 09h06m. Atualizado em 17/02/2015 08h17m

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Ela chegou de manhã e vinha triste. O primeiro som que ouvi veio de longe, lá do começo da rua deserta. Fui espiar da janela. Ela cantava: “Bandeira branca amor, não posso mais”. O carnaval não era para nós; uma família presbiteriana. Tinha passado a infância vendo a festa de longe, no máximo da janela. Naquela altura poderia ir, se quisesse, mas estava mais interessada nos livros que na folia.
O som bonito veio subindo a rua. Uma beleza aquela colombina, minha vizinha, moça mais velha que eu, na idade em que alguns poucos anos fazem muita diferença. Depois de vários namoros interrompidos, ainda não se casara. Eu nada sabia dela, exceto os rumores da rua mas, naquela manhã, fui informada de sua melancolia.
Entendi um lado do carnaval. Aquele em que, quando o dia se infiltra, desfazendo a noite, o folião, lúcido e triste, se lembra de ter pulado e dançado, inventando a alegria que não sentiu. A euforia parece real num breve instante. Serve para esconder que certas feridas ficam.
Minha vizinha cantava, cantava, andando bem devagar e arrastando um véu colorido já rasgado. Seu rosto, com a maquiagem meio desfeita, contornado por um cabelo desalinhado, era belo naquele amanhecer. “Pela saudade que me invade, eu peço paz”. Amei imediatamente a marchinha de Max Nunes e Laércio Alves. Eu e o Brasil. Para sempre. A minha paixão nasceu naquela manhã, ao ouvir a colombina cantando a tristeza, que na verdade sentia e que, pela noite inteira, provavelmente, escondera em algum salão, algum baile.
“Saudade mal de amor, de amor”. A voz bonita e afinada ecoava pela rua deserta. Teria a minha vizinha, tão bonita, algum mistério? Um amor perdido? Inconfessado? Eu não a via namorando mais. Desistira? Que tristeza era aquela? Tão real, convincente. Quis consolá-la, mas o que diria? Talvez algo assim.
– Não fique triste. Você é tão bonita, mais ainda neste começo dourado do dia.
É. Talvez algo assim. Nada disse, porém, nem me deixei ver. Olhei de longe, meio escondida, com medo de que se ela me visse parasse de cantar.
“Saudade, dor que dói demais”, lamenta a colombina. Tinha um ar de princesa em começo de república: ainda nobre, mas já sem a realeza. Destituída. Colombina que reinara em algum momento e fora deposta. Quem desprezou moça tão bonita e a deixou voltar para casa sozinha? Dos vários namorados que tivera, quando perdeu aquele a quem ela agitava a bandeira branca? Seria aquele último? Ou seria um amor perdido desde o início, como sãos os amores que permanecem. Irrealizados e encantados.
Ela levantou mais a voz e abriu os braços, foliã no seu último suspiro, na manhã da cidade que ainda dormia. “Vem meu amor, bandeira branca eu peço paz”. Encostou no muro da casa em que morava. Abaixou a cabeça e cantou baixinho voltando, de rodeio, ao começo. “Bandeira branca amor, não posso mais. Pela saudade que me invade eu peço paz”.
Hoje ainda me desentendo com o carnaval. Mas já conhecia o sentimento de quem canta, ao fim da euforia inventada, a tristeza da rendição. “Não posso mais. Pela saudade que me invade, eu peço paz.” É igual ao de todos, foliões ou não, que chegam em casa exaustos de exibir a alegria que não sentiram. E querem apenas hastear a bandeira branca, encerrar todas as batalhas e pedir paz.
Ela entrou em casa, a rua ficou em silêncio, eu fechei a janela. A beleza do amanhecer de um dia de carnaval no interior, uma colombina triste, a marchinha lindamente gravada na voz de Dalva de Oliveira, me prepararam para entender o sentimento que está numa poesia, que li depois.
“Marinheiro triste
que voltas para bordo.
Que pensamentos são
esses que te ocupam?”.
Eu amei essa poesia tão logo a li. Do velho Manuel Bandeira.
“Passaste por mim,
tão alheio a tudo (…)
Ias triste e lúcido”.
Como a colombina, vizinha minha, que nunca esqueci. Nunca consolei.

Miriam Leitão

Miriam Leitão, jornalista e escritora, escreve crônicas como colaboradora do blog.

4 Comentários para "Miriam Leitão: A melancolia lúcida no carnaval"

  • Marlene 14-02-2015 (9:51 am)

    Sou da época da sua mãe e hj ainda , depois de ler e ver fotos de foliões fazendo selfie na cabine do amor, fiquei com o olhar parado, tentando entender os novos tempo e as novas gerações e sinto melancolia, tristeza e pena dos que pensam que se divertem. Eu, sua mãe, nós sim nos divertiamos e cantavamos as marchinhas e obeservavamos , debruçadas na janela, a banda passar e atras dela, os foliões, muitos mascarados, desses eu tinha muito medo e até hj não sei lidar com mascaras. Em tempos bicudos, ” pela saudade que me invade eu também peço paz!”

  • Mac 14-02-2015 (12:32 pm)

    Miriam, belo texto. Me transporta ao tempo da minha primeira chegada ao Brasil, há muitos carnavais, e ao meu encontro com a cultura que inventa alegria por alquimia, pelo menos por um tempinho! Boa folia e doce melancolia para você.

  • miriam Leitao 15-02-2015 (12:23 pm)

    Marlene, pois é: também sinto assim. Às vezes eu olho e não compreendo certos fatos.
    Mac, querido, que bom que voce tem visitado esse blog no qual me escondo das tensões da economia e da política, uma vez por semana.

  • ovidio garcia 15-02-2015 (5:43 pm)

    Miriam Leitão, você escreveu sobre um carnaval puro, sem luxúrias e apelos ao sexo. Isso acabou, é como o futebol virou comercio

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