Miriam Leitão: Saudades do cotidiano

07/02/2015 08h44m. Atualizado em 09/02/2015 20h19m

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Outro dia, uma amiga me escreveu uma carta. Chegou pelo Correio, entregue pelo carteiro, o envelope era colorido e ela escreveu com letra redonda e escolheu palavras muito bonitas. Ninguém mais escreve cartas. Deixei todos os e-mails me esperando e fui ler, sentada num sofá, em canto iluminado por luz natural. Depois procurei o melhor papel pelas gavetas do escritório, respondi e enviei pelo Correio. Nós duas nos falamos sempre por e-mail, mas aquela conversa precisava da delicadeza de uma carta.

Outra amiga, de 82 anos, mandou me entregar um livro de poesia e avisou que era emprestado. Ninguém mais empresta livros, hoje em dia. Ela queria que eu lesse um poema sobre a coragem e o medo. E que provava que não eram antônimos. “Hoje sei que teve medo, mas sei que não foi covarde”. É Vinícius de Moraes na poesia “Morte de madrugada” sobre Garcia Lorca. Recentemente ela me falou desse poema, quando lembramos o tempo em que ela, como advogada, e eu, como sua cliente, tivemos que esquecer o medo.

Eu sei que é empréstimo e vou devolver. Só que escorreguei meus olhos sobre outros poemas. E fiquei lá, no meio do dia mais tumultuado da semana, como se fosse um refúgio, onde me abriguei com Vinícius: “Minha mãe, manda comprar um quilo de papel almaço na venda. Quero fazer uma poesia.”

Não existe mais papel almaço, as vendas se chamam lojas, estão nos shoppings e a poesia se faz na tela do computador. “Quando meu pai chegar, tragam-me logo os jornais da tarde”.

Os vespertinos acabaram há muito. Agora os jornais são de todas as horas. Ainda chegam teimosamente de manhã, mas estão dia e noite online, mudando as manchetes, o dia inteiro, a qualquer hora. Em Minas, na janela da casa junto com o meu pai, na minha adolescência, eu esperava o jornal da manhã que só chegava à tarde.

Um amigo me mandou um retrato, recentemente. Era eu em preto e branco na redação do JB, cercada de máquinas de escrever. Em um cartão ele escreveu que eu atravessei bem os tempos das muitas mudanças tecnológicas.

“Se eu dormir, pelo amor de Deus, me acordem. Não quero perder nada na vida.”
É de novo Vinícius em mais um verso do poema “O Falso Mendigo” do livro “Saudade do Cotidiano”, na mais completa coletânea, aquela que devolverei à minha amiga porque sou do tempo em que livro se emprestava e se devolvia. Hoje a gente faz download.

Durmo pouco a vida inteira. Vai ver é porque não quero perder nada na vida. Mas meu “wearable” me avisou hoje que dormi seis horas e seis minutos. Foi a primeira coisa que vi logo que acordei. Gostei, pela coincidência dos números de horas e minutos e porque isso é muito para os meus hábitos insones. Os jornalistas de tecnologia já traduzem para “vestíveis”, mas eu acho muito estranho o nome em que língua for. É só uma pulseira, que monitora o sono e a atividade física.

A pulseira me avisa coisas que me fazem lembrar as distopias em que ninguém tem mais privacidade ou as máquinas viram seres mais inteligentes do que nós e nos controlam. Reclama muito do meu pouco tempo de sono. Outro dia o recado era sobre “misplaced memories”. Avisou que quando a gente dorme o cérebro arquiva as informações e quem dorme pouco perde os arquivos da memória. Minha pulseira fala comigo em inglês através do meu iPad.

Eu contei, no início deste texto, que minha amiga me escreveu uma carta, porque hoje ela me mandou outra. Falou que a nossa amizade atravessou décadas intacta, desde o dia que cheguei na república onde ela morava e eu passaria a morar, em Vitória. Ela é capixaba, mas com cinco anos foi morar um tempo em Minas.

E lá, ao chegar, foi logo sendo informada que devia temer seres do outro mundo. Na cidade mineira, desligava-se o motor da barragem a certa hora da noite para dar uma trégua às máquinas. Ficavam todos sem luz. “Eu tinha medo do escuro. Mas quando saía para ver estrelas no céu esquecia tudo”. Ora direis… estrelas? Quem mais as olha ou as ouve? Já sobre a falta de energia, anda bem atual, o tema.

Depois ela escreveu: ‘É um mistério como a gente constrói a nossa vida. Um monte de coisa a gente esquece e outras não”. Ela disse que decidiu não esquecer nossa amizade, porque ela é verdadeira. Diria isso à minha pulseira, “wearable”, se ela fosse capaz de ouvir: que é normal esquecer umas coisas e guardar outras na memória.

Foi uma semana pesada, muito pesada. Têm sido assim desde o começo deste 2015. Notícias de escândalos, déficits, dívidas, rombos, riscos de racionamentos e tremores na Petrobras. Esta foi um pouco pior. Mas quando eu li a carta da minha amiga de Vitória e fui me despedir do livro que devolveria à amiga do Rio, bati meus olhos sobre outro verso do mesmo poema de Vinícius. “Não corram, não falem, fechem todas as portas a chave. Quero fazer uma poesia”.

Eu quis dar essas mesmas ordens.

Mas o telefone tocou e era de uma pessoa muito importante que iria me contar algo sobre a notícia do dia. Fechei o livro do Vinícius, não sem antes olhar outro verso solto do mesmo poema. “Se me telefonarem, só estou para Maria. Se for o ministro, só recebo amanhã”.

Então eu senti saudade do cotidiano.

Miriam Leitão

Miriam Leitão, jornalista e escritora, escreve crônicas como colaboradora do blog.

8 Comentários para "Miriam Leitão: Saudades do cotidiano"

  • Gilberto 07-02-2015 (9:24 am)

    Perfeito para iniciar meu fim de semana. Precisa ouvir tudo que estava escrito…

  • virvaldo 07-02-2015 (10:06 am)

    Sim., uma das melhores crônicas que li. É para se ter na cabeceira da cama, para lê-la após ver as estrelas antes de apagar a bibiana.

  • Waldir Leite 07-02-2015 (11:21 am)

    Texto singelo. A Miriam Leitão, faz tempo, escreve muito além do texto jornalistico. A literatura se apoderou dela. Agora, mesmo quando escreve artigos sobre economia e política, seu texto tem um toque literário, como forma de confortar o leitor. Uma maneira de ofertar algo nobre, diante de noticias tristes. Que ela tenha tempo e disposição para escrever mais crônicas e romances. Vai fazer um bem danado a literatura brasileira.

  • Dóris Antunes dos Santos 07-02-2015 (2:04 pm)

    Não é por acaso que sou fã desta grande mulher! Culta, inteligente, sempre a par dos últimos acontecimentos do Brasil e do mundo, mas, ao mesmo tempo, delicada e sutil… Lindo texto! Parabéns! Obs. Também acredito que dormir é perda de tempo…

  • marco antonio duarte 07-02-2015 (10:44 pm)

    Lindo… Miriam viajei no tempo por alguns minutos.Não uso relógio para ganhar a corrida do tempo. Passei pela Faculdade, cientifico,ginásio e até cair no colo de minha mãe que com toda a sua paciência pegava na minha mão e me ensinava caligrafia e a difícil tabuada para decorá-la. Momentos mágicos, que, de tão tênues, venho acreditar que eles não estão em nossas memórias. Mas em nossos sentimentos guardados dentro dos nossos corações.

  • Sônia Ignarra 08-02-2015 (1:13 am)

    Belo texto,é para ser lido.
    sempre

  • miriam leitao 08-02-2015 (4:17 am)

    Gilberto, Virvaldo, Waldir, Doris e Marco Antonio, que deliciosos comentários. Me animam a continuar me aventurando por aqui. Um bom domingo a todos

  • Cláudia Quiroga 08-02-2015 (9:40 am)

    Miriam Leitão, mulher admirável, inteligente e saindo do campo da economia uma excelente e sensível escritora (com o livro Tempos Extremos).
    Uma crônica suave, leve.
    Perfeita, não só por nos trazer essa nostalgia de um tempo que não volta mais (carta, livro…e não um livro qualquer, mas de poesia, jornal, foto preto e branco, amizade de décadas, ver estrelas no céu….), mas por nos trazer a memória dois poetas maravilhosos: Federico Garcia Lorca (cresci ouvindo a minha mãe recitar e nos ensinar as poesias dele) e Vinicius de Moraes, sempre uma boa opção de leitura.
    Parabéns!!

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