Itália – Vicenza, placidez entre vales, colinas e montanhas que anunciam os Alpes; Por Clara Favilla

05/02/2015 14h27m. Atualizado em 06/02/2015 15h36m

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Estamos predispostos a amar a cidade que escolhemos um dia chegar. E se a cidade é Vicenza e fica na região do Vêneto, a predisposição amorosa está inscrita no meu DNA. Perto de Vicenza fica o vilarejo de Begosso, de onde saíram meus bisavós Ferdinando Marcilio e Marietta Ceccon, na última década do século 18, para uma viagem sem volta ao Brasil. Chegaram pelo porto de Santos, como imigrantes, e tiveram como primeiro endereço uma fazenda de café perto de Ouro Fino, sul de Minas Gerais. Com eles vieram as cores, os sabores e os perfumes que envolveram minha infância e fizeram de mim quem sou hoje.

Muitas décadas depois, estive em Vicenza, pela primeira vez, a cidade que cultua o arquiteto renascentista Andrea Palladio, também do Veneto. Nasceu em Padova. As obras de Paládio trouxeram Goethe a Vicenza, na viagem à Itália em 1786. Banhada pelos rios Bacchiglione e Retrone que se confluem dentro da cidade, Vicenza assenta-se, plácida, consciente de seu valor e beleza, entre colinas vizinhas e montanhas mais ao longe, que já anunciam os Alpes. Os dois rios marcam o centro histórico da cidade e a deixam mais bela. No verão seco de 2013, disfarçavam muito bem entre murmúrios e preguiçosa correnteza, o poder de causarem devastadoras inundações. A última aconteceu em novembro de 2011.

Veneza é a capital do Veneto. Verona, Padova e Vicenza são outras três das jóias preciosas da região. Brilham juntas, mas também se invejam e alimentam rixas ancestrais. Cada qual com encantos bem próprios, seus belos edifícios, vales e colinas contam histórias de amor e sangue derramados através dos séculos. Todas terão espaço aqui no blog. Mas, comecemos por Vicenza. A cidade que vemos é o invólucro vibrante de outras mais antigas. Há a Vicenza romana soterrada. Escavações recentes descobriram grandes átrios e pórticos, abertos à visitação. Há a Vicenza medieval, visível em becos e ruazinhas estreitas. E há a Vicenza renascentista. Clara e grandiosa é a que atrai a maioria de seus visitantes.

palazzo

Pallazzo Chiericati

 

O Chiericati é um dos seus palazzos inseridos na lista do Patrimônio da Humanidade da Unesco. Obra de Palladio, atualmente abriga a Pinacoteca Civica, onde podem ser vistas coleções de gravuras, desenhos, numismática, além de esculturas medievais e modernas. O Palazzo, encomendado a Palladio pelo Conde Girolamo Chiericati, em 1550, só foi concluído mais de um século depois, por volta de 1680. Para isso, seguiu-se os desenhos do projetista presentes em sua obra máxima ‘Quattro Libri dell’Architettura’, estudados até hoje nas faculdades de Arquitetura do mundo todo. Palladio utilizou neste edifício uma tipologia inédita, na época, para residências urbanas. O edifício recorda em parte as grandes residências senhoriais (villas), por ele projetadas em área rural. O palazzo apresenta um corpo central com duas alas simétricas ligeiramente recuadas. A harmoniosa fachada está estruturada de forma a lhe conferir harmonia, unidade e proporção segundo os padrões clássicos de beleza, reinterpretados na Renascença.

Outro grande edifício marca o centro histórico de Vicenza: a Basílica com sua cúpula esverdeada, reconstruído por Andrea Palladio, em 1549. Não se trata e nunca se tratou de espaço sagrado.Em arquitetura, basílica é um grande espaço coberto, destinado a atividades diversas, inclusive comerciais. A origem do termo remete à antiga Grécia e designava o lugar destinado às assembleias. Só muito mais tarde foi adaptado pelos cristãos como modelo para seus templos. Com vista para a Piazza dei Signori, a Basílica de Vicenza, já na Idade Média era centro político e econômico. Hoje abriga o Bar Borsa, muito apreciado por turistas e locais, lojas, além de um grande espaço para cerimônias oficiais e exposições artísticas.O edifício original foi construído em estilo gótico. Palladio acrescentou-lhe galerias de pedra branca clássica A cobertura em placas de cobre, sustentadas por grandes arcos, foi danificado durante um bombardeio na Segunda Guerra Mundial e logo reconstruída. Mas outro restauro, concluído em 2012, tornou-se necessário, a partir de 2007, para corrigir erros estruturais das obras do pós-guerra. Ao lado da Basílica fica a Torre Bissara (medieval) com 82 metros de altura, construída no século 12 e que ainda é um dos edifícios mais altos da cidade. Este post encerra-se aqui, mas o blog, podem ter certeza, continuará trazendo as belezas de Vicenza para seus leitores.

Clara Favilla

Clara Favilla é jornalista. "Mais do que conhecer novos lugares, amo retornar. Reportariar é meu ofício. Vivo viajando, até pela quadra onde moro, em Brasília. Escreverei sobre viagens aqui. Serão impressões pessoais,mais do que guias. Espero que gostem, deem retorno e sugestões."

1 Comentário para "Itália - Vicenza, placidez entre vales, colinas e montanhas que anunciam os Alpes; Por Clara Favilla"

  • Isabela Amaral 05-02-2015 (4:39 pm)

    Clara, você estava inspiradíssima quando escreveu esta crônica…Que coisa linda, já começa graciosa: “Estamos predispostos a amar a cidade que escolhemos um dia chegar. E se a cidade é Vicenza e fica na região do Vêneto, a predisposição amorosa está inscrita no meu DNA”.

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