Pisa – para além da torre, um mundo de aromas, cores e sabores; Por Clara Favilla

03/02/2015 07h52m. Atualizado em 05/02/2015 11h13m

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Parafraseando Pessoa, o Fernando, qualquer viagem vale a pena, se a a alma não é pequena. Tem aquelas, as chamadas panorâmicas: você desce do trem, passa o dia na cidade escolhida e já no fim da tarde está em outro trem a caminho de outra cidade. Claro que compensou, não é? O melhor nhoque da minha vida foi em Positano, na Costa Amalfitana, Itália. E o tempo que passamos lá foi o de almoçar. E quem resiste a ficar apenas zumbizando pelo aeroporto se a conexão em Paris é de muitas horas? Um passeio a pé pela cidade é emoção que dura a vida inteira. Mas se quisermos conhecê-la de verdade, aí são outros quinhentos.

Conhecer uma cidade, grande ou pequena, nada tem a ver com ir aquele museu, ou visitar todos seus pontos turísticos, mas com vivenciar seus aromas e sabores, suas cores. Por isso, recomendo ao viajante amigo que passe alguns dias em Pisa, que não se contente em conhecer apenas o Campo ou Praça dos Milagres. Pisa é sim a Catedral dedicada a Nossa Senhora da Assunçao (Santa Maria Assunta), o Batistério e a Torre torta dos sinos. Mas, se o coração da cidade bate ali, naquele conjunto arquitetônico de harmonia sublime, ele não existe sozinho. Bate para alimentar um corpo que, como o de Florença, tem o Rio Arno como sua principal artéria.

A última vez que estive em Pisa, na primavera de 2006, ficamos, eu e minha filha, em um pequeno hotel bem barato. A diária era de incríveis 30 euros, sem café da manhã, óbvio. Um opção apenas para quem não se importa de lidar com um gerente idoso mal humorado de cigarro sempre acesso, pai do proprietário. Mesmo muito limpo e com uma janela de vista agradável, não vou citá-lo aqui. Em Pisa há ampla variedade de bons hotéis, inclusive na vizinhança da estação ferroviária. Muitos de bandeiras bastante conhecidas. Há também uma vasta rede de pequenos hotéis, a maioria sob administração familiar.

A Catedral toda em mármore branco merece pelo menos parte de uma manhã ou de uma tarde de atenção e com um bom guia em mão para saber direitinho o que está vendo porque o que está ali é único, de um período que esbarra na Renascença com um pé ainda na arte gótica. Depois dessa dedicação toda, podemos nos deliciar com as várias vistas do conjunto Catedral/Batistério/Torre. Cada portão do Campo dos Milagres oferece uma cena imperdível e certamente não é aquela que nas fotografias nos dá a ilusão de estar arcando com o peso da Torre que tomba. Aliás, a vista a partir de alguns dos andares da Torre ou de seu “mirante” é uma das mais bonitas porque incorpora a parte da cidade de seu entorno, ornado por ciprestes sempre verdes.

Bem, depois de tudo isso é hora de almoçar. Não tema. Difícil comer mal na cidade. Mas prefira restaurantes na faixa de 30 euros por pessoa. Não vai se arrepender. Se preferir coma um panini e deixe para jantar com mais calma. Recomendo que tendo almoçado ou lanchado, vá pro hotel descansar e só saia depois das cinco da tarde quando sobre as pontes do Arno começa o vai-e-vem de pessoas. Cidades toscanas como Pisa e Luca despertam à tarde.

Um passeio ao longo do Arno, pelas ruas comerciais exclusivas para pedestres, quando os turistas não são a maioria, é tudo de bom! Um bom jantar, inclusive com entrada e sobremesa, acompanhado de vinho, nos faz sentir que a felicidade existe e mora bem ali onde estamos. Passar o fim de semana então, na cidade, é o céu. Andar pelas bancas da feira de antiguidades (Mercatino dell’Antiquariato), na belíssima Piazza dei Cavalieri com seus imponentes palazzos. Namorar aquela fruteira rosa opaco de cem euros e saber que não vai comprá-la porque será um transtorno arrumar qualquer espaço na bagagem. Tenha certeza, passear pela cidade à noite, também será inesquecível. Durma pelo menos uma noite em Pisa. Não caia nessa de fazer aquele passeio de apenas uma manhã ou tarde, a partir de Florença. Não vai se arrepender.

amedeo

Autorretrato de Modigliani

 

Outra recomendação. Sempre veja a programação do momento no Pallazzo Blu. Nos últimos anos, sempre no final do outono e meses de inverno, de outubro a fevereiro, passaram por lá Chagall, Miró e Picasso. Até 15 deste mês, quem tiver a sorte de estar na cidade será brindado pela Mostra Amedeo Modigliani et ses amis, que abrange a vida desse pintor e escultor de origem judia, de Livorno, sua cidade natal, a Paris, onde morreu, em 1920, aos 35 anos, na mais extrema pobreza.

Clara Favilla

Clara Favilla é jornalista. "Mais do que conhecer novos lugares, amo retornar. Reportariar é meu ofício. Vivo viajando, até pela quadra onde moro, em Brasília. Escreverei sobre viagens aqui. Serão impressões pessoais,mais do que guias. Espero que gostem, deem retorno e sugestões."

2 Comentários para "Pisa - para além da torre, um mundo de aromas, cores e sabores; Por Clara Favilla"

  • Isabela Amaral 03-02-2015 (5:07 pm)

    Que delícia de ler sua crônica de viagem, Clara Favilla , amei!

  • Raquel Ramos 04-02-2015 (12:31 am)

    Eu cometi este erro. Nunca ninguém me disse o tanto que perdi. Abraços Raquel

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