Turismo em Brasília, uma ilha feérica – impressões do francês Pierre Pichoff

27/12/2014 12h02m. Atualizado em 28/12/2014 11h45m

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Apenas alguns minutos separava o céu do chão nesse vôo e eu já estava de olho na cidade que tem a forma de um avião no meio do cerrado brasileiro. A minha primeira impressão sobre a capital do Brasil é que vou pousar numa ilha urbana, irreal, um tipo de sonho, mas que chegou para mim com uma boa dose de apreensão.
Antes de realizar a viagem, eu não li nada sobre Brasília, mal sabia que a capital do Brasil era uma cidade cinquentona, construída para resolver os problemas administrativos do país.
Conhecia Niemeyer e o seu modernismo transcendente, principalmente pelo seu período de exílio na França e sua inspiração no arquiteto francês Le Corbusier. Também tinha ouvido falar sobre as formas do Congresso Nacional e o Palácio da Alvorada, mas resolvi apenas aprofundar no tema com o entendimento da cidade, ao estar nela.

Jamilly Pichoff

Jamilly Pichoff

“Tive a impressão de pousar num outro planeta” – esse comentário poderia ter sido, mas não é meu. É do astronauta Yuri Gagarin, primeiro homem a viajar pelo espaço, ao chegar em Brasília.
Brasília é mesmo uma cidade fora do comum. Sou um francês de classe média, dedicado a uma educação sólida (mérito de meu pais) e com especialização em turismo. Como piloto comercial de avião, posso dizer que já viajei um pouco pelo mundo e que tive a oportunidade de visitar diversas cidades. Brasília não se compara a nenhuma outra que eu conheci. Vou tentar explicar porquê.
Não fui um transeunte procurando os mistérios da cidade. Tenho que revelar que, durante a viagem, tive a chance de ter uma guia moradora de Brasília. Uma amiga que me levou nos principais pontos da capital, turísticos ou não, por isso, que eu posso afirmar que eu tive o privilégio de conhecer a cidade em pormenores. Fiz um trajeto a outro, de carro, e de carro, e de carro. Para um europeu, usar o carro para fazer turismo é algo quase proibitivo.
Mas logo entendi o motivo. Não tem metrô, não tem trem e não tem ônibus, ah, sim, tem metrô, mas não descobri onde; tem ônibus, mas precisa de bastante paciência para entender como ele funciona (estou ainda procurando um mapa das linhas de ônibus) e também para esperar que ele possa te levar a algum ponto turístico. Uma vez que você desce do ônibus, tive a surpresa de ver que não existe calçada, tampouco indicações para os pedestres. Não sei se foi de propósito, mas me pareceu um recado claro: “atenção, não ande a pé nessa cidade, você se sentirá melhor dentro de um carro”.
Obedeci, e com a ajuda de minha guia, fui andando pela cidade e pelos monumentos históricos. Tudo é muito bonito. Tudo é muito perfeito. Amei conhecer a arte de Niemeyer, é mesmo importante conhecer o movimento do modernismo, muito diferente de outros movimentos como o Barroco ou Renascimento, com os quais já tenho certa intimidade.

Jamilly Picchoff

Jamilly Picchoff

A catedral de Brasília é fascinante. Assim que você penetra nesse templo, você tem a sensação de estar em lugar mágico, grandioso, menos dentro de uma entidade religiosa. Blocos de concretos de misturados com vidros maravilhosos injetados no teto. O fato de possuir uma entrada pelo subterrâneo é algo particular. Juntando isso as curvas de concreto no entorno da catedral, o resultado é uma obra de arte que você pode adentrar nela. Tudo o que você pode ver por fora dela é o teto. A partir daí consegui entender muito do conceito de Niemeyer e seus tetos, não muito funcionais para quem tem que, por motivo de trabalho, ou estudo, passar muitas horas dentro de suas invenções. Mas para um turista como eu, parecia perfeito. Mais que uma obra de arte, uma obra prima.
Jamilly Pichoff

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Minha segunda experiência mágica foi com o Congresso Nacional. Provavelmente o prédio que, junto com o Palácio do Planalto, e o Supremo Tribunal Federal, resume a razão de ser de Brasília.
Embora geralmente preterida entre os estrangeiros que pretendem conhecer o Brasil, eu diria que Brasília é um destino tão importante como o Rio, para quem quer se deslumbrar com as belezas naturais e a cultura, e como São Paulo, o ícone econômico do país.
Voltando ao Congresso, as torres gêmeas brasilienses, a cúpula do Senado e a tigela da Câmara dos deputados tem uma significação particular quando você as vê, assim, de pertinho. Nenhuma resenha, nenhum cartão postal vai saber retratar a sensação de estar naquele prédio, envolto à mobília dos tempos do Império, quando o Legislativo brasileiro surgiu. São inúmeras obras de arte, que deixam até um freqüentador assíduo do Louvre e do D’Orsay, como eu, de queixo caído. São pinturas e painéis de Djanira, Di Cavalcanti, Antônio Poteiro, Carlos Scliar, Oscar Niemeyer, Rubem Zevallos, Burle Marx, Tomie Ohtake, todos harmonicamente localizados.
As cúpulas do desenho de Niemeyer são os tetos dos plenários. A voltada para baixo é o teto do Senado e o plenário é bem menor do que o da Câmara cuja cúpula é voltada para cima. O prédio inteiro é atravessado por um belo painel de azulejos com figuras geométricas de um artista local chamado Athos Bulcão. O carpete do Senado é azul e o da Câmara é verde e a passagem de um para o outro é assim, abruptamente. No dia que visitei, havia uma discussão acalorada na Casa, muitos gritos, principalmente, entre os deputados. Parecia que a oposição estava bastante nervosa, os motivos só fui entender depois. É que o governo federal havia estipulado uma meta de economia de R$ 116 bilhões para 2014, mas não havia conseguido cumprir e precisava que os deputados e senadores aliviassem o cumprimento dessa meta. Dias depois, soube, que o governo havia vencido e que não haveria mais nenhuma meta estabelecida e que, se o Brasil acabasse 2014 em déficit, tudo bem. Para um estrangeiro não faz muito sentido, mas sublimei a informação, afinal, estava de férias.
Jamilly Pichoff

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Brasília é um cidade racional, para entendê-la é preciso pensar muito mais que sentir. Qualquer instituição ou pessoa na cidade tem um objetivo e uma função. Se fosse resumir Brasília em apenas um adjetivo diria padronização. Existe um padrão de edifício que vale tanto para os edifícios antigos da Asa Sul e Asa Nortel quanto para os novo edifícios dos novos bairro Sudoeste e Noroeste. Torres de 4 a 6 andares com apartamento mais ou menos do mesmo tamanho, é assim que as pessoas moram. O comércio em cada tipo de quadra tem um propósito: a quadra das farmácias, a quadra dos lustres, a quadra de restaurantes, e assim vai.
Imagino que a intenção foi a de simplificar tudo, pois, você não precisa procurar nenhuma coisa, você apenas precisa saber em qual quadra está. E para saber em qual quadra está basta conhecer princípios básicos de coordenadas cartesianas.
Visitei ainda o memorial JK, o palácio Itamaraty e linda ponte Juscelino Kubitschek, sustentada pelos seus arcos. Esses lindos cenários quase me fizeram esquecer de perguntar sobre um leve incômodo que tudo de inusitado que havia presenciado me suscitou: onde estão as classes sociais menos abastadas? Onde vivem essas pessoas que certamente também existem em Brasília?
Jamilly Pichoff

Jamilly Pichoff

A resposta encontrei no Google em palavras de Niemeyer para o jornal Francês “l’humanité”, publicado em 2006: “Pensávamos que ia ser uma cidade feliz, mas uma vez terminada eu tive um choque: como qualquer cidade brasileira, é uma cidade onda há discriminação, injustiça e separação entre ricos e pobres.
É ai que você começa enxergar o outro lado da cidade planejada. Brasília é uma ilha feérica. Não me leve a mal, amei a cidade, mas tudo foi criado para que o funcionário do governo não precise pensar em qualquer coisa além de servir ao estado. O plano é o seguinte: o funcionário vai receber um bom salário, possuir carro, apartamento, plano de saúde e segurança. Para uma boa parte do mundo, realmente, não há nada mais que pode ser desejado…
Na minha saída de Brasília, eu levo a imagem dos números que substituem os nomes para os endereços, os palácios do governo ordenados numa linha reta, no Eixo Monumental, como qualquer soldado dentro do seu batalhão. Mas senti falta de ruas abarrotadas e um pouco de caos, pessoas caminhando e discutindo de assuntos além de política. Andar de bairro em bairro e encontrar parques e crianças rindo, se maravilhar com uma desordem encantada. Surpresas, de vez em quando, podem substituir, de forma saudável, o planejamento.
Brasília: amei você, mas senti falta de te descobrir a pé, como bom francês gosta de fazer.

Pierre Pichoff

Formado como piloto comercial de avião, Pierre Pichoff mora em Caen, na Normandia, França. Ele é o diretor de uma empresa de turismo, a "Descobrindo a Normandia", que oferece passeios personalizados sobre a história da Segunda Guerra Mundial na Normandia, além de Paris e outros roteiros na França.

3 Comentários para "Turismo em Brasília, uma ilha feérica - impressões do francês Pierre Pichoff"

  • Brasília se defende 29-12-2014 (12:29 am)

    Há um ditado em Brasília: aqui é bom ter cabeça, tronco e rodas..Você está certíssimo em sua análise, pelo menos, sob este aspecto da cidade…poderíamos ter mais acesso aos transportes públicos….isso ainda é promessa não cumprida. ..quem sabe nos próximos cinquenta anos? Afinal, tenos 54 anos , dos quais vinte foram imobilidade total de governo militar. ..de fato, não pensaram em pessoas caminhando pela área central do governo. Mas, convenhamos, hoje as pessoas caminham. …fazem os caminhos. De fato, você não conhece a cidade direito, como nós, moradores! Há muitas calçadas nas quadras eventrequadras; as pessoas caminham nos parques e as bicicletas tem circulado mais a cada ano e ciclovias inauguradas. Mas, as pessoas sofrem. ..o tempo seca em Brasília durante vários meses. ..a caminhada é dura e demora porque as retas são planas e as distâncias longas… olha. .eu vivo aqui há mais de cinquenta e três anos…o que eu posso lhe dizer? Você precisa vir outras vezes. ..conhecer outras coisas…conhecer as pessoas…passar um tempo caminhando a pé. .. Apesar de não ter sido planejado, a vida pulsa aqui, mesmo que a estrangeiros possamos parecer meros autômatos para os serviços governamentais. As pessoas com ou sem posses costumam tomar conta da Esplanada dos Ministérios para pousar de asa delta, fazer passeatas, participar de eventos culturais, comemorações religiosas e quase todo tipo de movimento social! Nossa arquitetura é moderna. Há aparente padronização, mas a escuta, a convivência e a essência humanas que existem em Brasília dão conta da diversidade que nos constitui. Aliás, sobre a diversidade. ..Tive uma experiência em Paris, hospedada no IBIS La Villette. Cada um dos quarteirões era de uma etnia diferente. Indiana, árabe, chinesa e outras asiáticas , africanas de países muçulmanos…Se eu nao os tivesse visto naquela região, continuaria a ver Paris como a capital das artes e da cultura, em torno do Sena, onde turistas são levados a percorrer as diversas postagens de cartão. .. Champs Elysees de um lado, a tour Eiffel do outro, museus e mais museus. ..o arco do triunfo. ..mas, se ficar em outros bairros, a pessoa viverá outras experiências…como aconteceu comigo, recentemente, quando fiquei hospedada em Saint Martín…tudo é uma questão de perspectiva da cidade. É preciso flanar. ..andar a esmo. Por isso, meu conselho é: volte e guarde outras impressões sobre Brasília.

  • Augusto 29-12-2014 (10:43 am)

    É amigo… Você precisa encontrar novos “guias turísticos” que te levem ao “caos” urbano do Distrito Federal! Conhecer Ceilândia, Taguatinga com suas ruas abarrotadas de comércio, sons, cheiros e pessoas caminhando numa intensidade enorme!
    Quando Lúcio Costa remeteu seu “Plano Piloto” para a apreciação do governo – nos anos 50 – dividiu Brasília em quatro escalas: Monumental, Residencial, Gregária e Bucólica. Com certeza você conheceu – e muito bem – a “escala Monumental, Bucólica e Residencial” Sugiro, quando voltardes, que conheças as outras. Mas, é bom procurar alguem que te leve para essas outras localidades. Garanto a você que ficarás “maravilhado” com o “povão”!
    Forte Abraço!

  • Justiniano de Oliveira 01-01-2015 (12:32 pm)

    Muito bom seu comentário! Algumas pequenas imprecisões, óbvio, mas você está de parabéns. E para nós, habitantes dessa cidade, a visão do estrangeiro é muito importante, pois estamos acostumados demais à Brasília e já não notamos mais certas coisas que são importantes, sejam elas boas ou ruins. Esse texto aqui faz uma ótima crítica à Brasília de um forma bem humorada. Espero que você goste! Merci per tout!
    http://adolargangorra.blogspot.com.br/2010/04/brasilia-e-uma-merda.html

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