Natal e Ano Novo em Londres ou “Vai levar um tempo pra fechar o que nos feriu por dentro”; Por Clara Favilla

25/12/2014 10h03m. Atualizado em 26/12/2014 09h01m

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No rádio, Mais que nada, de Jorge Ben, só orquestrada. Benjor ainda não havia nascido. Estamos nos preparando para a passagem do ano. É perto do meio dia e logo vamos sair. Vamos ao mercado da Portobello Road. Foi o que anotei na cadernetinha de viagem, já roída pelo tempo, em 31 de dezembro de 1980.

Portobello Road é uma rua de Notting Hill, bairro famoso de Londres muito, muito antes de Julia Roberts chegar lá e dizer ao Hugh Grant: “Sou apenas uma garotinha” . Fica nos distritos de Kensington e Chelsea. Foi nas andanças pela região que Caetano, no exílio, encontrou-se com o reggae, no início da década de 70. Registra isso no verso “Walk down Portobello Road to the sound of reggae”, em Nine out of ten, álbum Transa, 1972.

Londres foi a primeira cidade estrangeira que amei. Tenho o traçado dela na palma da mão e no coração, desde fevereiro de 1979, quando lá cheguei em meio de um dos mais tenebrosos invernos do século passado e greves explodindo por todos os lados. Não eram quatro horas da tarde e o céu um breu. O ar entrava quase sólido nos pulmões. E, antes de sair do aeroporto, eu já sabia que nunca mais seria a mesma depois dessa minha primeira viagem pela Europa que durou dois meses, a maior parte na Inglaterra. Era o fim pros trabalhistas no poder. Em maio daquele mesmo ano, Leonard James Callaghan passaria o bastão para Margaret Hilda Thatcher fazer ajustes econômicos ousados. Tempos difíceis. Estava eu lá, recém-casada, foca no jornalismo, tentando entender tantas mudanças.

Mas voltemos a 1980. Tatcher já justifica o tratamento de Dama de Ferro. Está em processo a derrota da greve nas minas de carvão que aconteceria definitivamente em 1985. Virada histórica. Os sindicatos britânicos jamais recuperariam o poder de mando registrado no pós guerra. No Brasil, o presidente general Figueiredo dava o tom da abertura política. O Partido dos Trabalhadores não completou ainda um ano e Lula é líder da oposição com visibilidade internacional.

Véspera de Natal. Há exatos 16 dias, Lennon foi assassinado em Nova York. Londres brilha entre a névoa. Saímos com um amigo islandês para ver A viúva Alegre, uma opereta. Muitos filhos já de meia idade acompanhavam pais idosos vestidos com pompa e circunstância. Um onda de carinho viajava entre as pessoas. Planávamos sobre a crueldade do mundo. Na volta para casa, o amigo islandês seguia a nossa frente cantando e dançando embaixo de um enorme guarda-chuva colorido.

Arquivo Pessoal

Arquivo Pessoal

Eu havia feito na vidraça do nosso flat (na verdade um quarto, com tudo que se possa imaginar dentro, desde televisão, geladeira, cama, fogão, guarda-roupa), uma árvore de Natal com cartões que havíamos recebido do Brasil. Havíamos jantando antes de sair. Nossa ceia foi chá com bolo de chocolate à luz de velas.

Na virada do ano, fomos à Trafalgar Square, aquela das repetidas reportagens sobre hordas bêbadas mergulhando na fonte do Lord Nelson e mulheres aos beijos com policiais quando é meia-noite. Descobrimos que bem poucos fazem isso e , a maioria, a pedidos dos fotógrafos. Os pubs fecharam exatamente às 23 horas, como sempre. E saímos para o frio com canecas cheias de cerveja nas mãos. O ano de 1981 tem apenas alguns minutos e a praça já se esvazia. As pessoas correm para o último metrô ou ônibus. Foi também o que fizemos, mas sem pressa. Afinal, o mundo estava muito embaçado para que déssemos urgência aos nossos passos. Apenas vislumbrávamos um Brasil sem os militares no poder.

Mesmo assim, naquela madrugada, decidimos a data de nosso retorno. E 1981 veio com força. Foi o ano dos atentados contra Reagan, o papa João Paulo II e Sadat, do Egito. O terceiro foi fatal. Charles casou-se com Diana. O Flamengo ganhou a Libertadores em Montevidéu e o Mundial Interclubes no Japão. Piquet venceu a Fórmula 1. Mazzaroppi, Glauber e Natalie Wood morreram. O PT fez, em novembro, sua primeira convenção nacional, em Brasília. A abertura política não fora interrompida nem pelo atentado do Riocentro, em abril, quando uma bomba explodiu no colo de militares antes ser detonada contra o público de um show que celebrava o Dia do Trabalhador. “Assim caminha a humanidade com passos de formiga e sem vontade”, canta Lulu Santos. E a lição que aprendemos nos anos seguintes foi a de que sempre “vai levar um tempo pra fechar o que nos feriu por dentro. Natural que seja assim.” Grande Lulu!

Clara Favilla

Clara Favilla é jornalista. "Mais do que conhecer novos lugares, amo retornar. Reportariar é meu ofício. Vivo viajando, até pela quadra onde moro, em Brasília. Escreverei sobre viagens aqui. Serão impressões pessoais,mais do que guias. Espero que gostem, deem retorno e sugestões."

4 Comentários para "Natal e Ano Novo em Londres ou "Vai levar um tempo pra fechar o que nos feriu por dentro"; Por Clara Favilla"

  • Márcia Ruiz 25-12-2014 (12:08 pm)

    Ah, Londres! Viajei com você, Clara, e nunca vou poder esquecer o barulho ao longe durante o show no Riocentro, e bem depois, ao sair, ver cena de crime cercada de fitas amarelas, nos dando conta de que aquele barulho que ouvimos tão de longe ecoou um estrondo no Rio de Janeiro e no Brasil. Eu estava lá. Guardo até hoje o crachá..rs… E podia não estar hoje aqui lendo seu ótimo texto.
    O abraço aliviado de meus pais ao chegar em casa também é inesquecível. Não havia celulares e o medo que eles sentiram eu hoje, mãe, posso imaginar.
    Obrigada!

  • Fernando Dória 25-12-2014 (1:32 pm)

    Gostosa resenha. Apenas esperava que falasse mais da nossa querida “pérfida Albion” pois você a alcançou ainda sem essa horda de migrantes islâmicos paquistaneses em especial que não nos deixa a vontade, nessa casa tão britanicamente gentil…

  • Livia Souza 25-12-2014 (11:34 pm)

    Gostei muito. Foi possível vivenciar contigo essa experiência no decorrer da leitura, embora tenha conhecido Londres nos tempos atuais.

  • Graca Seligman
    Graca Seligman 25-12-2014 (11:39 pm)

    Muito bom Clarinha! Adorei

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