Clara Favilla: Tessalônica Parte 2, atrocidades sepultadas pelo azul do mar que a abraça

13/12/2014 00h14m. Atualizado em 15/12/2014 15h54m

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A viagem de Epidauro até Tessalônica ou apenas Salônica, já a caminho da Bulgária, é azul com tons em rosa e esmeralda, conforme a luz do dia. E é quase sempre em estradas montanhosas, beirando penhascos. Belvederes espalhados por todo o percurso permitem a quem viaja de carro parar, espalhar a merenda nas mesinhas sempre disponíveis e mergulhar na paisagem abissal. E foi de parada em parada que só chegamos à Tessalônica, banhada pelo Mar Jônio, naquele novembro de 1985, já quase noite.
A cidade é a segunda maior da Grécia e a primeira da Macedônia Grega. A outra parte da Macedônia é, hoje, uma república independente depois de ter integrado, até 1991, a Iugoslávia socialista. Na verdade, Tessalônica, que testemunhou os passos do apóstolo Paulo, só foi reintegrada ao território grego depois da I Grande Guerra. Foi o prêmio que a Grécia recebeu por ter combatido ao lado dos britânicos e franceses. Foi fundada em 388 AC e já batizada de Tessalônica, nome da meia-irmã de Alexandre Magno, dois dos filhos de Felipe da Macedônia. Na Antiguidade, macedônios e gregos volta e meia fizeram alianças em guerras contra os persas. Alexandre é aquele que morreu aos 33 anos, em 323 AC, deixando um império que chegou até à Índia.
A Grécia faz parte da Península Balcânica, nome histórico e geográfico para designar a região sudeste da Europa que abrange Albânia, Bósnia e Herzegovina, Bulgária, a República da Macedônia, Montenegro, Sérvia, Kosovo, a Trácia, que pertence à Turquia, e de forma mais ampliada, também a Croácia, a Romênia e a Eslovênia. O termo balcãs deriva da palavra turca montanha. Já aprendemos na escola, bem antes do esfacelamento da Iugoslávia socialista, que esta região é considerada um barril de pólvora desde que a pólvora apareceu por ali.
A Macedônia Grega tem sido palco de atrocidades indizíveis na calma azul do mar que a abraça. Em 388, a história registra o massacre de Tessalônica, ordenado pelo imperador Teodósio I que adotou o cristianismo como religião oficial do Império Romano. Morreram, centenas ou mesmo milhares de pessoas, conforme o relato, decorrente da proibição do homossexualismo masculino, prática comum entre os ainda pagãos, principalmente entre militares. Teodósio I depois se arrependeu da violência gerada pelo édito imperial perante a autoridade eclesiástica de Tessalônica, o que é considerado o primeiro sinal explícito de submissão do Estado à Igreja.
A região foi dominada por romanos, bizantinos (veja imagem abaixo), venezianos e otomanos. Desses últimos só se livrou em 1912, quando a Tessalônica era habitada, em sua maioria, por judeus sefarditas, originários de Portugal e Espanha, de onde foram expulsos em 1492. Essa maioria falava ladino, originário do castelhano e, na cidade, o dia santo da semana era o sábado. Desculpem-me, mas me emociono só de descrever, mesmo que superficialmente, esses fatos.

Bracelete em ouro - século 9 (Reprodução/Museu Bizantino de Tessalônica)

Bracelete em ouro – século 9 (Reprodução/Museu Bizantino de Tessalônica)

Em 1917, a cidade foi varrida por um incêndio. Por isso, o aspecto tão mais moderno e organizado de sua orla. O fogo afetou economicamente a população judaica e mais da metade emigrou, na época, para a Palestina, França e Estados Unidos. O incêndio foi mesmo acidental? A comunidade que restou foi praticamente dizimada durante a Segunda Grande Guerra, quando os campos de concentração alemães também chegaram à Grécia. O trágico é que hoje os judeus sefardistas são considerados próximos de párias na Palestina que os acolheu, hoje Israel, pelos judeus de origem europeia.
Escrevo tudo isso porque viajar, para mim, não é só contemplar paisagens, ter boas ou más experiências em hotéis e restaurantes. Enquanto viajamos, nada sabemos do que permanecerá em nós do que vivenciamos. O mais banal pode ser o mais relevante depois de alguns anos. Podemos nos municiar de todos os guias e mesmo assim nossa viagem sempre terá vida própria. Nossos pés podem até seguir roteiros comuns e conhecidos, mas é quando deixamos nossa alma mergulhar na história das cidades que visitamos, dos caminhos que percorremos que não nos sentimos mais solitários em nossas humanas dores e alegrias. Estamos sempre acompanhados dos que já viveram e dos que ainda viverão. Estivemos e estaremos sempre em cada pedaço deste nosso mundo. Cada ruína nos conta o passado e nos aponta o futuro. Cada pedra é um espelho. Não há nada de novo sob o sol.

Clara Favilla

Clara Favilla é jornalista. "Mais do que conhecer novos lugares, amo retornar. Reportariar é meu ofício. Vivo viajando, até pela quadra onde moro, em Brasília. Escreverei sobre viagens aqui. Serão impressões pessoais,mais do que guias. Espero que gostem, deem retorno e sugestões."

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