Lisboa, a Praça dos Restauradores: tudo é fado e se fado é… esteve, estará, está escrito

03/12/2014 12h57m. Atualizado em 09/12/2014 21h15m

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Por Clara Favilla
Ao descer em direção ao Tejo, tendo como ponto de partida a Praça Marquês de Pombal, chega-se à Praça dos Restauradores. Revejo, com a admiração de sempre, os belos edifícios que margeiam a Avenida da Liberdade e também as ruas que nela deságuam: Bramcamp e Conceição da Glória, e suas lojas elegantes, sede de empresas, hotéis, bares e restaurantes.
Após o grande terremoto de 1755, foi criada um boulevard, semelhante aos de Paris, na parte inferior da Avenida da Liberdade até a Praça dos Restauradores, rodeado por muros e portões por onde só passavam e passeavam integrantes da alta sociedade. Os muros felizmente foram derrubados em 1821 com a subida ao poder dos Liberais e a área tornou-se pública, um verdadeiro oásis no coração de Lisboa. E é por essa boulevard de calçadas de desenho complexo e simétrico que chegamos à praça, também ela dotada de um pavimento mágico.
A crise econômica global pegou fortemente Portugal no contrapé e reascendeu o papel da Restauradores como palco de protestos. A Praça marca a expansão do centro da cidade, antes próximo ao Tejo, na chamada Baixa Pombalina, em direção ao Norte. Tem como símbolo um Obelisco (foto acima), erigido em 1886, que comemora o início, em primeiro de dezembro de 1640, da série de confrontos armados entre Portugal Espanha, em torno da restauração plena do trono português, o que aconteceria, de fato, apenas em 1668. Daí o nome da praça, homenagem aos que participaram do movimento libertador. No pedestal do obelisco pode se ver duas figuras em bronze. Representam a Vitória e a Liberdade.
O ponto forte da praça é a beleza arquitetônica dos diversos edifícios que a circundam como o Palácio Foz, que abriga, hoje, o Ask Lisboa (ponto de informação para turistas), o Gabinete para Meios de Comunicação Social, como também espaços culturais; o Orion Eden Hotel, antigo cine-teatro Eden; o pequeno coreto e o Avenida Palace Hotel, entre outros, e que lhe continuam dando o charme especial do passado que permanece. Da Praça dos Restauradores parte o bondinho (Elevador da Glória) que nos leva, ao Bairro Alto, cantado em verso, prosa e imagens.
O Palácio Foz já foi uma das residências mais lindas de Lisboa. Abrigou também a capela mais rica particular da cidade. As últimas transações imobiliárias praticamente fez desaparecer seu acervo mobiliário e artístico. As coleções foram transferidas de mãos e a capela demolida. Mas o visitante pode viajar pelo apogeu do palácio ao chegar à Sala dos Espelhos (foto), em estilo Luís 14 e Luís 15, inspirada em sala existente no Palácio de Queluz, Sintra, que por sua vez foi inspirada, levando-se em conta as devidas proporções, na de Versalhes.

Clara Favilla

Clara Favilla

A Sala dos espelhos é lugar, hoje, de belos concertos. Por isso, quando em Lisboa, confira sua programação. Também faça uma visita guiada pelos salões do palácio e seu jardim interno. Não se contente com o que vê da praça, entre. Será recompensado.
O nome da praça lembra-nos de Dom Sebastião, o Desejado. Assim chamado por ter sido, por breves 14 anos, a salvação para a Dinastia de Avis. Caso não aparecessem herdeiros, por força da política de casamentos que vigia entre a nobreza da Península ibérica, Portugal passaria a ser tutelado pela Espanha. Dom Sebastião chegou ao mundo apenas alguns dias depois da morte precoce do pai, Dom João Manuel que tinha apenas 17 anos e era casado com Joana da Áustria, ramo espanhol da Casa de Habsburgo. O rebento foi festejado pelo clero e a coroa portuguesa. Mas tudo é fado. E se fado é, esteve, está e estará escrito.
Dom Sebastião, que desde bem cedo demonstrara ardor militar e religioso, desaparece, em 1578, durante a batalha de Alcácer Quibir, travada contra os mouros, no Marrocos. Por seis décadas, Portugal viveria sobre a tutela, às vezes menos, as vezes mais intensa, do reino de Espanha. A esperança da coroa portuguesa se esvai com o rei menino, entre brumas e a multidão que se engalfinhava na batalha. Depois de ser conhecido com O Desejado, Dom Sebastião passa a ser chamado O Encoberto e também de O Adormecido. O sempre esperado. Alguns mistérios turvaram a comprovação da morte do monarca e deram permissão à lenda. Foi morto? Foi raptado pelos espanhóis? Houve notícias do reaparecimento de Dom Sebastião em várias cidades da Europa, incluindo Veneza, sempre tratado como impostor. O esqueleto que jaz em tumba no Mosteiro dos Jeronimos foi a tentativas dos espanhóis fazerem os portugueses acabar com a espera por Dom Sebastião. Mas a lenda persistiu e essa espera coletiva messiânica, ganhou o nome de sebastianismo. Portugal e depois o Brasil passariam a viver a contínua a tragédia da promessa não cumprida, a tragédia dos países onde o futuro nunca aporta, dos que vivem atados às esperanças que se desmancham em brumas.
Pessoa dá voz a Dom Sebastião em um de seus mais belos poemas:
Louco, sim, louco, porque quis grandeza
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.
Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?

Clara Favilla

Clara Favilla é jornalista. "Mais do que conhecer novos lugares, amo retornar. Reportariar é meu ofício. Vivo viajando, até pela quadra onde moro, em Brasília. Escreverei sobre viagens aqui. Serão impressões pessoais,mais do que guias. Espero que gostem, deem retorno e sugestões."

3 Comentários para "Lisboa, a Praça dos Restauradores: tudo é fado e se fado é... esteve, estará, está escrito "

  • Miriam Leitao 03-12-2014 (6:09 pm)

    Minha saudade de Portugal só faz aumentar, vejo que as visitas anteriores foram rápidas demais. Amei o fim de Pessoa. E as. Fotos? Belas. Bjs miriam

  • Edmar A.D.Cruz 04-12-2014 (12:02 pm)

    Conheço Lisboa, apenas superficialmente. Na minha próxima viagem aproveitarei as dicas. Valeu!

  • Regina Caliman 05-12-2014 (7:02 am)

    Depois de ler essa matéria, preciso colocar Lisboa na lista das minhas prioridades de viagem.

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