25 anos da queda do muro: uma visita à Alemanha reconciliada

09/11/2014 15h58m. Atualizado em 10/11/2014 08h38m

CompartilheShare on Google+Tweet about this on TwitterShare on FacebookShare on RedditShare on VK

Um professor descansa deitado na grama da universidade de Bonn (foto). Uma criança negra e uma branca brincam de mãos dados num jardim. O namorado escorrega a mão para dentro da saia curtíssima da namorada.

Com minha lente fui captando cenas assim de descontração e encontro que não esperava ver. E por que não esperava? É que por tempo demais associei a Alemanha ao comportamento austero e sisudo. Essa é sempre a imagem dominante.

Neste domingo (9) a Alemanha comemora 25 anos da queda do Muro de Berlim. Quando essa queda estava perto de fazer 15 anos, passei um mês conhecendo o país à convite do Instituto Goethe.

A visita rendeu um ensaio fotográfico e um caderno no Correio Braziliense, onde eu trabalhava à época. Mais tarde, me surpreendi quando a embaixada pediu as fotos para fazer uma exposição de comemoração da data: trinta imagens no shopping Pátio Brasil, em Brasília, para comemorar os 15 anos. Foi batizada de “Alemanha – Três Instantes”.

Para mim foi uma grande aprendizagem sobre queda de estereótipos. Hospedado na casa de um alemão, pude ver um país tentando a reconciliação com ele mesmo e com os outros povos, todos os povos, mesmo tanto tempo depois da divisão forçada do pós-guerra.

A Alemanha derrotada na segunda guerra se tornou o marco de dois pólos político-econômicos opostos. Início da Guerra Fria, a Alemanha permaneceu dividida até 1990.

Na programação do Goethe estava uma visita ao antigo campo de concentração de Buchenwald. Nele, uma guia do instituto Goethe chamada “Maya”, filha de um brasileiro com uma alemã, pediu perdão pela perseguição atroz aos judeus. A guia chorou, se emocionou no pedido de desculpas.

O holocausto continua a doer para os judeus, mas também para os alemães que não compactuaram com o nazismo. As lembranças diminuem com o tempo. Mas ainda é possível rever, alguns anos depois, as pichações de neonazistas nas ruas — grupo obviamente minoritário na Alemanha atual.

Uma parte em Berlim, outra em outras cidades alemãs, o curso me levou a Weimar, a “República” onde moraram tantos nomes da cultura alemã, como o próprio Goethe. Património da humanidade, foi local onde tirei a imagem de uma criança negra e uma branca brincando de mãos dadas (foto).

Matheus Leitão

Matheus Leitão

Nas ruas da capital, ainda dividida por poucas partes do muro encontrei, vi e celebrei na serenidade do casal (foto) de aproximadamente 40 anos um povo que buscava, ao menos aos meus olhos, derrubar um conceito errado da sisudez alemã.

Matheus Leitão

Matheus Leitão

Mas foi no caminho de volta do castelo de Wartburg, próximo a Eisenach, que tive a certeza que o recomeço alemão já vivia um belo caminho.

Servindo de abrigo para um Lutero perseguido pela igreja católica nos idos de 1500, o castelo marcou a humanidade. Lá, o reformador traduziu o Novo Testamento da Bíblia para o alemão, um primeiro passo para as outras línguas.

Enquanto caminhava por uma trilha de 30 minutos de volta à cidade pude ver uma das mais belas cenas: uma criança protegendo-se nas pernas do pai (foto), que contemplava um longo caminho a frente, como quem contempla o futuro.

Matheus Leitão

Matheus Leitão

O futuro que para a Alemanha, tetra-campeã do mundo e economia mais forte da Europa, e para aquela criança, já chegou.

Matheus Leitão

Matheus Leitão é jornalista há 15 anos. Em sua carreira, passou pelas redações do Correio Braziliense, revista Época, portal iG e Folha de S.Paulo. Matheus recebeu o Prêmio Esso por duas vezes, o Troféu Barbosa Lima Sobrinho -- além de menção honrosa no Vladimir Herzog. Entre 2011 e 2012, esteve na Universidade de Berkeley, na California, como Visiting Scholar.

    Comente

    O autor do blog não se responsabiliza pelo comentário.