A “revolução dos guarda-chuvas” pode virar uma tempestade em Pequim

30/10/2014 09h00m. Atualizado em 10/12/2014 23h49m

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Por Sérgio Abranches

Há muito mais por trás dos protestos em Hong Kong do que a defesa do sufrágio universal e do autogoverno. Desde que a cidade passou ao controle da China, em 1997, Pequim vem apertando o torniquete contra as liberdades e a cidadania livre na cidade. Não é, tampouco, a primeira vez que o povo de Hong Kong vai às ruas em protesto contra a tentativa de Pequim de submeter a cidade ao mesmo tipo de controle autoritário que exerce sobre o território chinês e áreas ocupadas como o Tibete. Mas, agora a demanda por manter a tradição democrática da cidade, tem um fundamento econômico e social e uma crise profunda de legitimidade e credibilidade do governo municipal. Essa crise atinge, também, os aliados de Pequim e a direção da universidade de Hong Kong.

Como disse o líder estudantil, que já enfrentou Pequim anteriormente, Joshua Wong, de 17 anos, essa rebelião não vai terminar tão cedo. “É uma guerra de paciência e um teste para nossa resistência”, disse recentemente. Ele criou o movimento “scholarism”, em 2012, para protestar contra a tentativa do governo de Hong Kong, obviamente inspirado por Pequim, de introduzir “educação patriótica” no currículo escolar. O protesto mobilizou 120 mil estudantes na frente da sede do governo e quatro de seus líderes fizeram guerra de fome. Os estudantes gritavam que não queriam “lavagem cerebral”. A proposta de imitar o currículo de Pequim foi arquivada. O adolescente tem sido alvo de duros ataques da imprensa pró-Pequim. Em setembro passado foi preso por subir em uma cerca em torno de propriedade do governo e mantido cativo por dois dias, após os quais foi solto sem acusações. O outro movimento estudantil por trás dos protestos, é liderado por Alex Chow e Lester Shum, de 24 anos, a Federação dos Estudantes de Hong Kong. Eles organizaram o boicote das aulas, que se espalhou rapidamente por quase todas as instituições educacionais da cidade. O telefone de Chow está grampeado faz tempo. Ele e Shum ficaram detidos, recentemente, por mais de 30 horas. Shum disse que sua consciência política se formou em um fórum popular na Internet chamado Hong Kong Dourada. Em Hong Kong as redes sociais têm tido papel muito importante na mobilização dos protestos. Na China continental, como se sabe o controle das redes é muito mais duro e eficaz. As autoridades vigiam os três jovens como se fossem perigosos inimigos capazes de desestabilizar o governo continental. Já os acusaram de serem pagos por agentes estrangeiros. Típico. O presidente do Legco, Jasper Tsang, um político pró-Pequim, alertou o governo chinês e declarou abertamente à imprensa que não há interesses estrangeiros por trás dos protestos. Eles derivam da real insatisfação popular. Sua declaração o pôs em confronto direto com o chefe do executivo local, Leung Chun-ying, que acusava o movimento de ter inspiração estrangeira.

Além dos estudantes, um professor de direito, Benny Tai; um sociólogo, Chan Ki-man; e um pastor batista de 70 anos, Chu Yiu-ming; fundaram o “Occupy Central”, movimento pelos direitos humanos e de desobediência civil. Eles protestam contra o progressivo domínio de Pequim sobre a cidade e o desmantelamento de sua democracia. Fizeram, inclusive, um plebiscito contra a adoção imediata do sufrágio universal, antes que a “Basic Law”, uma espécie de constituição de Hong Kong, seja alterada para eliminar os elementos autoritários que Pequim inseriu nela. Um deles é a “representação funcional”, representantes escolhidos por um comitê que nada tem de democrático, para o legislativo, Legco, que, junto com a representação controlada por Pequim, se sobrepõem aos legisladores democráticos eleitos pela população. Essa representação funcional, uma espécie de representante biônico, que a ditadura no Brasil também introduziu no Senado brasileiro para conter a oposição, é composta majoritariamente de ricos empresários e comerciantes, pouquíssimo interessados na gestão da cidade. Só estão no Legco para defender os monopólios e oligopólios que ditam seus preços à população em todas as áreas, dos mercados e supermercados às farmácias e garantir que nada ameace sua renda. Bloqueiam toda tentativa de aprovação de legislação antitruste ou mudança na estrutura tributária.

Todas as lideranças da oposição estão conscientes de que a única forma de dobrar Pequim é mostrando grande resistência. Resistência civil é o nome do jogo para eles. Contam com crescente apoio popular, porque o controle de Pequim e dos representantes funcionais (empresários) no Legco impede aumentar impostos ou aprovar orçamentos que permitam ao governo local enfrentar efetivamente os problemas econômicos e sociais da cidade. Hong Kong tem partes do território em deterioração, desempregados oriundos da transferência das empresas industriais para a China e uma rede de proteção social que ficou aquém das necessidades da população. O povo demanda investimentos para melhorar a saúde, a educação e renovar as áreas urbanas decadentes após a saída e o desemprego dos trabalhadores industriais. A cidade se tornou basicamente um centro financeiro. Os empresários só estão interessados em seus negócios no continente chinês e com o resto do mundo. O governo local perdeu a legitimidade. Os manifestantes se mostram fartos com a cidadania regulada por Pequim.

Pequim não sabe lidar com uma população cuja cultura é democrática. A cultura chinesa continental nunca foi democrática. Sempre foi autocrática: saiu do julgo imperial para o domínio autoritário do Partido Comunista da China e o regime maoísta que, com a “revolução cultural”, esmagou qualquer dissidência. Mandou o governo local reprimir os manifestantes e o movimento de protesto triplicou de tamanho. Temeroso de enfrentar uma nova Tiananmen, recuou, mas não sabe como negociar a saída. A única possível, seria dar a Hong Kong capacidade de autogoverno. A cidade não pretende se separar da China, mas também não quer sua integração ao regime autoritário chinês. O que está por trás da “revolução dos guarda-chuvas é uma profunda divisão sociopolítica que, se não for resolvida, vai aprofundar a crise de legitimidade e credibilidade do governo local e deixar Pequim frente a frente com uma população rebelada. Terá que escolher entre a tragédia e compromisso. Até agora nem o governo chinês, nem os empresários que dominam o Legco se mostram dispostos ao compromisso. Resta saber quem resistirá por mais tempo. Hong Kong é, hoje, uma cidade desenvolvida, com um governo subdesenvolvido; uma sociedade rebelada, vigiada por um regime que parece mais atemorizado que os rebelados, mas já foi capaz das atrocidades como a da Praça da Paz Celestial (Tiananmen).

Sérgio Abranches

Sérgio Abranches é cientista político, comentarista da CBN e colaborador do blog.

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