Governo ganha tempo, mas não consegue sair da crise

13/04/2015 11h03m. Atualizado em 14/04/2015 11h24m

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O governo está conseguindo ganhar tempo precioso no enfrentamento da crise: com a diminuição do número de manifestantes nas ruas, com o trabalho inconcluso do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, com uma mudança radical de direção da política econômica, com a ida do vice-presidente, Michel Temer, para a coordenação política do Governo, com o isolamento do chefe da Casa Civil, Aloízio Mercadante, das principais decisões de política e economia. É um avanço em relação ao modo de governar do mandato anterior. Até uma aproximação e melhor relacionamento com os Estados Unidos parece acontecer. Ainda assim, está longe de sair da crise.

O governo Dilma tem quatro problemas de relevância a serem enfrentados pela frente. O mais impactante deles será os desdobramentos contínuos das investigações da operação Lava Jato. Elas se ampliam, as prisões se sucedem e o Juiz Sérgio Moro vem conseguindo ter referendadas todas as suas decisões em instâncias superiores, o que revela um trabalho técnico e jurídico até agora impecável. Qualidade que deve ser atribuída também à totalidade da força tarefa – que inclui a Procuradoria-Geral da República e a Polícia Federal.

O segundo problema será as manifestações que continuarão a assombrar o Governo Dilma. O dia de ontem, embora com menos gente do que o do dia 15 de março, foi representativo em termos de protesto nacional, um dos maiores já ocorridos na história recente do país, e nada indica que outros deixarão de ocorrer e com mais intensidade. Ao contrário, os indícios são o de que outros ocorrerão com vigor, na medida em que o quadro de recessão se instale no inconsciente da população, e as dificuldades pessoais decorrentes apareçam no dia a dia de todos – desemprego, queda do poder aquisitivo, perda dos avanços de inclusão das classes C, D e E, queda nos níveis de atendimento em saúde, endividamento das famílias.

O terceiro grande problema será a concretização ainda apenas formalizado, mas não aprovado, de um programa de ajuste fiscal, na correria, com baixa qualidade econômica, corte em investimentos, algo como cortar rápido na carne, uma economia à qualquer preço, para evitar nos próximos dois meses uma perda do grau de investimento do Brasil. O Governo Dilma ainda não tem garantia total de aprovação do pacote de ajuste fiscal, ou não sabe ainda qual vai ser o tamanho da vitória, se ela ocorrer. Muito provavelmente no final desta negociação e votação o programa de ajuste fiscal do Levy estará pior do que o proposto com os ajustes do Congresso Nacional. Isso significa um quadro de recessão seguido de baixo crescimento econômico mais prolongado.

O último dos problemas é a perda de popularidade aguda da presidente Dilma e do PT. Última pesquisa Datafolha mostra que 2/3 da população querem seu impeachment. As ruas deste domingo (12) consolidam esta impressão recolhida na pesquisa. O petismo está em baixa, com Aécio vencendo Lula na simulação eleitoral da mesma pesquisa. A base política que volta hoje a Brasília para os novos embates e votações ouviram mais uma vez o barulho das ruas. Manifestações ocorreram embaixo do apartamento do Presidente do Senado, Renan Calheiros, em Alagoas, nem precisaria sair de casa para sentir a pressão.

Este é o quadro nesta semana que se inicia.

Matheus Leitão

Matheus Leitão é jornalista há 15 anos. Em sua carreira, passou pelas redações do Correio Braziliense, revista Época, portal iG e Folha de S.Paulo. Matheus recebeu o Prêmio Esso por duas vezes, o Troféu Barbosa Lima Sobrinho -- além de menção honrosa no Vladimir Herzog. Entre 2011 e 2012, esteve na Universidade de Berkeley, na California, como Visiting Scholar.

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