Crônica da Miriam Leitão: A tristeza tem seu lugar

11/04/2015 10h55m. Atualizado em 14/04/2015 14h34m

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Há aqueles dias de ressaca. Não de ter bebido no dia anterior, mas de a vida ter te sacudido de alguma forma, por algum motivo, nos quais você acorda querendo um canto e um tempo de recolhimento. Se acordar assim, dia desses, entregue-se. Há quem queira correr uma maratona para que a endorfina engula esse sentimento de fragilidade. Há quem tome um remédio: a química salvadora que apaga essa sensação de impotência que, as vezes, domina o corpo e nos abate logo no começo de um dia.

Não é uma dor profunda, a que estou falando. É aquela tristeza fina, a certeza de que há algo errado em sua vida. Já sentiu? Pois é, ela pode ser criativa, pode ser o descanso que o corpo pede, pode ser o espaço que sua mente precisa para pensar e, eventualmente, tomar decisões.

Na vida atual a gente se dá pouco tempo para a reflexão. Tudo é muito agitado. Tristeza virou sinônimo de depressão a ser tratada com algum remédio, um esporte radical, uma festa em que exibiremos o sorriso falso na pista de dança. Ninguém pode estar triste. É aconselhado a fazer um tratamento médico e, no consultório, recebe a receita de um remédio tarja preta ou vermelha. No livro “1984” de George Orwell, a distopia da sociedade perfeita, as pessoas tinham que tomar a pílula da felicidade diariamente porque estar feliz era o único estado aceitável naquele mundo autoritário.

Hoje em dia tudo é química, tudo é doença, nada é normal. Uma criança distraída, que passe horas olhando para o infinito será vista com preocupação pelos pais. Levadas ao consultório médico sairão de lá com algum diagnóstico e a receita de um medicamento para alterar o comportamento.

Fui uma criança quieta, ensimesmada, tímida. Não gostava de estar em lugares com pessoas que não conhecesse. Chorei meses no começo do período escolar pelo pavor de enfrentar a turma. Meu irmão, um ano e meio mais velho que eu, era inquieto e agitado. Meu oposto. Eu levei minha introversão para os livros e neles mergulhei com o prazer de abrir uma janela sobre a paisagem de infinitas possibilidades. Naquele mundo tudo podia acontecer e eu me desligava do resto.

Meu irmão usou a inquietação para desenvolver vários talentos. Um deles o de tocar violão, que aprendeu sozinho. Como canta e toca o meu irmão. No dia de hoje seríamos diagnosticados: ele, hiperativo; eu, agorafóbica. Os dois tratados como portadores de síndromes. Me lembro que os vizinhos estranhavam a minha quietude e mutismo. Minha mãe, que teve 12 filhos, sabia respeitar a diversidade do temperamento humano. “Ela é assim mesmo”, dizia. Caminhei, sem pressão, para fora da concha e hoje vivo no mundo da comunicação onde a exposição é o pressuposto.

Precisamos respeitar as tristezas, os recolhimentos, a reflexão. Principalmente precisamos entender as diferenças. Em todas as idades. O normal da vida não é ser alegre, o natural é oscilar entre sentimentos, com momentos de alegria e horas de tristeza. Assim é a vida. Muita ideia boa nasceu de uma hora de introspecção ou do sentimento da tristeza que nos silencia, certos dias. Se acordou assim, querendo silêncio e o mergulho em uma tristeza que chegou de algum ponto, deixe-se ficar no seu canto. O belo da vida é que os dias não são iguais e nem nós somos os mesmos todos os dias.

Miriam Leitão

Miriam Leitão, jornalista e escritora, escreve crônicas como colaboradora do blog.

34 Comentários para "Crônica da Miriam Leitão: A tristeza tem seu lugar"

  • Tania Azevedo 11-04-2015 (4:25 pm)

    Sempre Miriam , fantastica : Orgulho nosso ,beijo prima !

  • Tania Azevedo 11-04-2015 (4:26 pm)

    OI prima , amei o texto , voce sempre fantastica !Um beijo ,saudades !

  • Laila 12-04-2015 (9:41 am)

    Sensacional essa é a nossa estrela

  • Ananda Kimaya 12-04-2015 (4:16 pm)

    excelente cronica da Miriam Leitão

  • sandra 12-04-2015 (6:27 pm)

    Maravilhoso texto; como psicologa acompanho no dia a dia a medicalização das pessoas de forma absurda … pura verdade!! Tomei a liberdade de compartilhar no meu face!! Boa sorte sempre, Miriam!!

  • Miriam Leitão 12-04-2015 (7:03 pm)

    Oi Tania, que bom que gostou e que está aqui atenta ao Blog do Matheus.
    Laila obrigada pela leitura.
    Abraços. Miriam

  • Bela 12-04-2015 (7:09 pm)

    Adorei sua cronica. Leu meus pensamentos. Tão bom ver que somos “normais” quando estamos mais calados ou mais alegres!

  • Mariana vilela 12-04-2015 (8:43 pm)

    Um olhar sensível às questões do Humano. Belo texto para falar do que chamo VAZIO DE VÔO. A alegria sem a tristeza iria ficar manca.

  • wilma kruger 12-04-2015 (9:06 pm)

    Sempre e sempre bom demais..

  • Macilia Vianna 13-04-2015 (2:05 am)

    Sempre que posso assisto seu parecer da economia, já que é um tema que nada sei, e com o seu conhecimento saio um pouco do desconhecimento, Sou da área jurídica, hoje extremamente decepcionada. Tô fora !!!! Estou mudando radicalmente ida para restauração.
    Grande abraço de uma admiradora desconhecida

  • Cristina Nunes 13-04-2015 (6:51 am)

    Perdi o sono e entrei no meu face pra ver o que foi postado no dia. Normalmente, nem todos lêem textos grandes, mas faço questão de ler, principalmente crônicas, que sempre têm algo que mexe comigo. Hoje me identifiquei com a sua! Pura verdade. Por que não sentirmos nossa tristeza? Eu sinto sim, e até choro de soluçar…mas quando o choro acaba, a tristeza foi junto. Vivo o que tenho que viver. E nesse exato momento, estou fazendo uma coisa que jamais fiz: escrever em público. Acho que as pessoas em geral são rotuladas e criticadas. E normalmente por pessoas que não tem o costume de olhar para seu próprio rabo( desculpe pelo termo grosseiro). Sou alvo de críticas, por ter filhos levados e agitados. Mas as pessoas confundem levados com mal educados. Já disseram muito pra eu levar o meu mais velho ao médico dizendo ser hiperativo. Hiperativo por que? Porque brinca, corre e não pára? Quem tem que saber sou eu, afinal quem atura sou eu, não é mesmo? Acho que a maioria esquece que teve infância. Enfim, não vou ficar aqui falando da minha vida. Na verdade quero te dar parabéns pela sua crônica e agradecer por ter me feito compreender melhor as coisas que sinto e passo. No final de tudo; estamos juntos e misturados. Cabe a cada um respeitar o jeito de ir e vir de cada um. Um grande beijo.

  • Cândida Lúcio 13-04-2015 (11:08 am)

    Muito pertinente sua crônica Miriam.
    Caiu como uma luva em mim e no meu momento pessoal e social de vida. Muito bom ler e acreditar que realmente somos normais .
    Abraços!

  • Roberto Levy 13-04-2015 (8:52 pm)

    Sobre a crônica da Miriam, eu a conheço há muitos anos (desde que fui do GIE e do PNBE) e sempre tive um grande respeito pela forma única de pensar alguns assuntos como este, objeto desta excelente crônica !

  • Marianne 14-04-2015 (12:04 am)

    palavras simples mas sábias
    Gosto muito de como vc escreve li seu ultimo livro que gostei muito historia inquietante,verdadeira ,sentimentos fortes aplausos pela escrita de tempos extremos! !!!

  • salete lopes 14-04-2015 (6:36 am)

    Ontem amanheci assim. Pensativa sobre algumas ciosas..duvidas..querendo respostas. So querendo ficar quieta num canto com meus devaneios. Parabéns pelo texto.

  • Edimea do Val 14-04-2015 (8:21 am)

    Excelente reflexão! Um texto onde o homem nu existente em nós, tem o seu lugar! Sou admiradora como comentarista da economia e agora virei fã de da cronista.

  • Marilei Birck Ferreira 14-04-2015 (6:32 pm)

    Lindo texto, Miriam! Suas palavras mexeram comigo e me fizeram refletir! Obrigada

  • Socorro 15-04-2015 (10:39 am)

    Excelente! eu sou assim, gostei de saber que sou normal…. bom para os pais pensarem.

  • Darci Maria S.R.Brignani 15-04-2015 (11:32 am)

    Simplesmente sensacional. Sou muito fã dessa jornalista maravilhosa e gostaria muito de um dia abraçá-la para agradecer sua sensibilidade. Que Deus continue iluminando seu caminho. Obrigada pelo texto, parece que falava um pouco de mim.

  • Sonia Maria Leoneti Costa 15-04-2015 (1:08 pm)

    E como tem dias que a gente amanhece assim ! Sem saber porquê , sem motivos, mas com uma tristezinha fina mesmo ,que dá vontade de entrar num buraco e ficar bem quieta esperando talvez, você sair outra de lá . Renovada , cheia de esperança e com aquela vontade louca de fazer isto , fazer aquilo, ir não sei aonde, ver num sei quem, enfim, desejar muito alguma coisa e muitas coisas e ter talvez, não sei, o vigor da juventude e a certeza de que estou fazendo tudo que é o certo, o que realmente quero… não sei.

  • silvia 15-04-2015 (6:38 pm)

    Nossa que todos tivessem discernimento para pensar e agir assim sem preconceitos…
    Perdi meu trabalho pq meu chefe não soube entender pq sentia tanta tristeza .
    Lindo texto !! Caiu como uma luva !!

  • José Ruy Gandra 15-04-2015 (8:23 pm)

    Parabéns, Miriam. Lindo texto. “Os bons momentos alegram a alma. Os tristes ajudam a lapidá-la. Ambos cedo ou tarde passarão, e cada qual deixa as suas próprias lições”. Isso é meu. Mas poderia ser seu também.

  • Dileta Lucia Adorno 15-04-2015 (8:36 pm)

    Gostei demais de sua dissertação e realmente é verdade… se você comenta uma tristeza por algum motivo é depressão jamais a Da.Tristeza. Eu sei que ela as vezes vem, não avisa, ma te pega devagar e vai tomando conta do coração e a gente só quer ficar só e esperar ela passar…. passa não some e com o tempo aprendemos a viver com ela. Gostei muito Miriam, ja gosto de você como jornalista e a parabenizo mesmo com muito carinho e vá sempre em frente! Um grande abraço!

  • Crislaine Belluzzo Veiga 15-04-2015 (8:39 pm)

    Perfeito Miriam, me identifiquei profundamente! Obrigada pela delicadeza!

  • Adriana 16-04-2015 (12:55 am)

    Muito boa a reflexão. Observo que nos falta é olharmos para dentro, sofrer é uma faculdade do sistema sensível, logo faz parte da evolução.

  • Ane 16-04-2015 (12:58 am)

    Obrigada Miriam! Me identifiquei com o texto. Tbm tenho os meus dias nublados.

  • ZEZÉ 16-04-2015 (1:46 am)

    Que bom poder ler algo que sinto,mas q não consigo e nem posso demonstrar. Perdi um filho com 32 anos,e mesmo assim,não tenho direito do meu recolhimento em alguns momentos,como vc escreveu,ñ é depressão,mas uma vontade de ficar um pouco só,comigo mesma,enfim ,gostei muito!!!!Parabéns e obrigada.

  • Waverli 16-04-2015 (1:57 am)

    Maravilhoso e sensível texto. Sempre me surpreendo e delicio com a delicadeza e profundidade de suas reflexões. Muito obrigada!!

  • Lili 16-04-2015 (2:27 am)

    Olá Miriam Leitão, seu texto é lindo, verdadeiro e super atual nas suas considerações, todos deveriam lê -lo, obrigado por suas palavras.

  • Luiz Fernando Bongiovanni 16-04-2015 (10:07 am)

    Poxa Miriam, queria era te dar um abraço…

  • Rosana 16-04-2015 (10:49 am)

    Obrigada pela forma de explanar coisas que muitas vezes não conseguimos.

  • Roberto Samuele Huschak 16-04-2015 (4:19 pm)

    Oi Miriam

    Gostei muito da tua crônica, e me identifiquei bastante pois fui um menino retraído que também se refugiava nos livros. Li, nesses anos longínquos, “1984” e também “Admirável Mundo Novo” de Huxley e, por isso, estranhei tua referência à pílula da felicidade em Orwell. Minha lembrança desse artifício de manipulação e controle social é de “Admirável Mundo Novo”. Estou enganado?

  • Behar 16-04-2015 (4:51 pm)

    Acalentador!
    Obrigada.

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