EUA–Irã: Um acordo para negociar; Por Sérgio Abranches

05/04/2015 11h51m. Atualizado em 11/04/2015 10h19m

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O acordo alinhavado em Lausanne, na Suíça, com o Irã, esta semana, sob liderança dos Estados Unidos no P5+1 (EUA, França, Alemanha, Reino Unido, Rússia e China) é uma complexa e controvertida peça de diplomacia multilateral e geopolítica global, que envolve poderosas e contraditórias forças com interesses no Oriente Médio. O mais conspícuo e importante ausente neste acordo jogará um papel chave no apoio dos aliados de ambos os lados ao que está sendo negociado e para o sucesso do pacto, que Obama chamou de histórico. A posição de Israel moveu-se muito pouco até agora. Foi da oposição direta ao que chamou de “erro histórico” de Obama, à demanda de inclusão de compromisso de Teerã com a garantia da existência do estado de Israel, quase impossível de ser aceita. O objeto do acordo, a contenção do avanço nuclear do Irã como condição para o fim das sanções europeias e parte das sanções dos EUA, não é a principal prioridade de Israel. É importante. Mas a preocupação prioritária de Israel é com o apoio iraniano ao terrorismo e a grupos palestinos que desejam sua eliminação. O seu principal temor é que o acordo aumente a capacidade financeira do Irã e isto redunde em mais apoio aos maiores inimigos de Israel.

O presidente Barack Obama reconheceu essa apreensão de Israel, ao dizer que “esse acordo por si só, mesmo que seja plenamente implementado, não porá fim às profundas divisões e desconfianças entre nossos dois países. Nós temos uma história difícil atrás de nós. E nossas preocupações quanto ao comportamento iraniano permanecerão, enquanto o Irã continue a patrocinar o terrorismo; ao seu apoio a grupos para desestabilizar o Oriente Médio; e a suas ameaças a nossos amigos e aliados, como Israel. Então, não se enganem: nós nos manteremos vigilantes para confrontar essas ações e ficar ao lado de nossos aliados.” Obama também se comprometeu com o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu a ampliar a cooperação de defesa com Israel. Nunca um acordo multilateral dependeu tanto de tensas relações entre forças políticas internas. No EUA, Obama não tem ainda sequer o apoio fechado de seu partido. A maioria republicana promete impedir o acordo assim que o Congresso volte a se reunir. Os judeus conservadores pressionam para que assim seja. Os judeus progressistas não estão ainda convencidos de que o acordo não ameace os interesses mais legítimos de Israel. Em Israel, a maioria da população põe a segurança em primeiro lugar e, por isso, reelegeu Netanyahu, com baixíssima popularidade. A oposição progressista ainda não encontrou uma forma de persuadir o centro da opinião pública de que não enfraqueceria a capacidade de defesa do estado de Israel. Não há espaço político visível para que os judeus apoiem este acordo, ainda que seus detalhes finais sejam convincentes. Em resumo, o acordo não toca na questão geopolítica central para EUA e Israel que é o expansionismo iraniano no Oriente Médio.

Todos os lados fizeram concessões significativas para poder avançar nas conversações. Obama apostou tudo no sucesso do acordo. Está investindo em seu legado e quer ser reconhecido por ter criado uma alternativa pacífica e negociada para a segurança nacional e a de seus aliados que supere a postura belicista dos republicanos instaurada por George W. Bush, após o 11 de setembro. Tem o mérito de executar com insuspeita maestria, à luz de seu mandato anterior, a diplomacia presidencial. O experiente John Kerry tem demonstrado também habilidade e desembaraço em seu incansável trabalho diplomático como secretário de Estado. Se o acordo vingar será uma vitória e tanto para Obama. Mas seu caminho até o sucesso será ainda mais duro no plano doméstico, que no plano multilateral.

Também não será fácil o trabalho do presidente iraniano Hassan Rouhani. Como Obama, ele iniciou uma ofensiva política doméstica para conquistar a confiança das forças internas que se opõem ao acordo. Ele tem a vantagem sobre Obama de ter sido recebido com iranianos comemorando o acordo nas ruas, desejosos de que represente não apenas o fim das sanções, que têm reduzido seu bem-estar, mas também o reingresso do Irã na comunidade global. Obama pode conter a ameaça do Congresso com seu poder de veto, particularmente relevante para casos de política externa. Hassan Rouhani tem que persuadir o todo poderoso aiatolá Ali Hosseini Khamenei, o líder supremo do Irã. Sem sua aprovação o acordo de nada vale. Ao contrário do que circulou mundo afora e no Brasil, Khamenei não esteve nem apartado do processo de negociação, nem calado. Sem sua aprovação a cada passo as conversações não teriam chegado aonde chegaram do lado iraniano. Ele foi consultado reiteradamente e não objetou a que as conversas continuassem. Teve um papel chave e continuará tendo. Sua aprovação final será decisiva, inclusive para consolidar o apoio de outra força interna incontrastável no momento: o Corpo da Guarda Islâmica Revolucionária. Khamenei, como Obama, alertou que as negociações não significam que o Irã confie no EUA, nem um fim ao contencioso entre os dois países.

Os demais países do P5+1 têm papel mais modesto e interesses muito objetivos no acordo. Os europeus querem poder retirar as sanções e retomar plenas relações econômicas com o Irã, de olho em seu petróleo e no seu mercado para as exportações europeias. Mesmo objetivo da China e da Rússia. Na geopolítica, França e Alemanha querem se apresentar como uma alternativa mais progressista e menos autocentrada ao EUA na diplomacia multilateral. China e Rússia querem reduzir o poder do EUA na geopolítica global. Interesses claros, focados e complementares. O problema é com o seu alvo geopolítico pois, apesar do seu papel nas negociações não ter sido pequeno, o fato é que este é um acordo liderado pelo EUA. É, de fato, um acordo entre Washington e Teerã, com participação dos Europeus e intermediação da Rússia e da China. Isso não diminui a relevância que tiveram como contrapeso entre os dois principais negociadores. O presidente francês e o chanceler, Laurent Fabius, por exemplo, tiveram papel de destaque. Angela Merkel pôs todo o peso de seu prestígio no fechamento do acordo. Podem argumentar, com razão, que sem essa a participação o acordo afogaria na desconfiança.

É, portanto, muito difícil a missão que os negociadores ainda têm pela frente. O trato fechado em Lausanne foi só a concordância em continuar a negociar e os termos gerais do que será negociado. Nos próximos três meses, o que é um esqueleto terá que ganhar carne e substância. Nesses detalhes técnicos, sobre inspeções e monitoramento, salvaguardas, escopo da pesquisa nuclear que o Irã poderá continuar a fazer, estoque de urânio enriquecido, prazo da limitação à atividade nuclear, reside a maior parte do conflito de interesses e das expectativas não coincidentes entre o P5+1, de um lado, e o Irã, do outro. Como disse Obama, “nada está acordado, enquanto tudo não estiver acordado”. Laurent Fabius usou praticamente as mesmas expressões em Paris: “nada será assinado, antes que tudo esteja assinado, mas estamos indo na direção certa”. Enquanto os negociadores enfrentam a parte mais dura dos detalhes do acordo, em casa Obama e Hassan Rouhani terão a difícil tarefa de viabilizá-lo internamente, à medida que os detalhes do pacto forem surgindo. Mas que não haja engano, o caminho para chegar-se aqui não foi fácil. Em política, particularmente em política multilateral, o primeiro e mais difícil passo é sair da posição de recusa de negociar, para a posição negociadora.

Sérgio Abranches

Sérgio Abranches é cientista político, comentarista da CBN e colaborador do blog.

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