Crônica da Miriam Leitão: O bug do Word e a cor de Marte

04/04/2015 11h14m. Atualizado em 11/04/2015 10h21m

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O Word não quer mais abrir e eu tenho que escrever a crônica de sábado. Ele ficou magoado por uma interrupção abrupta e me dá três opções: enviar um relatório, ignorar ou reabrir. Clico o reabrir. Não funciona. Tento ignorar. Também não dá certo. Sempre voltam as três opções na tela do computador. Só me resta fazer um relatório. Como seria?

Caro Microsoft Word, eu sei que não deveria ter de repente desligado você. Deveria ter tentado entender seu bug. Talvez você estivesse cansado de tanto que escrevi nos últimos tempos. Poderia estar em crise existencial. Afinal um processador de texto tem que aceitar tudo o que é digitado? Concorde ou não? Nenhum digitador pensou em perguntar se você aceita tudo aquilo que foi escrito em seu espaço em branco a cada novo documento.

Por que interrompi abruptamente a nossa relação? Pior fizeram comigo na vida, caro Word, e nunca reagi como você. Quando ofereci as três opções e certa pessoa preferiu “ignorar”, eu aceitei, conformada. Quando quis muito que a escolha de alguém fosse recomeçar e ele também preferiu “ignorar”, eu me recolhi em um silêncio triste. Tudo na vida pode ter interrupção abrupta, não entendo sua reação irrevogável de não abrir mais o programa.

Outro dia eu contava um caso e, na parte mais interessante, meu interlocutor interrompeu a conversa porque outra pessoa mandou uma mensagem por celular. E lá ficaram os dois a trocar mensagens e eu suspensa no melhor do meu caso que, pelo visto, só a mim divertia. É triste, mas acontece na vida de qualquer um.

Ah, desculpe, você usou outras palavras. Reclamou de ter sido “encerrado inesperadamente”. E você pensa que isso não acontece a qualquer um? Muita coisa foi “encerrada inesperadamente” e a gente tem que superar. Você nunca viveu uma desilusão, pelo visto. O inesperado, meu amigo, é assim mesmo. Aceite portanto as minhas desculpas e abra por favor um novo documento porque quero escrever a crônica de sábado.

Inútil. Nada abre na tela. A mesma queixa rancorosa do fim inesperado que inadvertidamente impus ao uso do processador de texto.

Me lembrei de quando escrevia à máquina e o fazia tão rápido que, de repente, as teclas se cruzavam e as letras grudavam umas às outras. Fiquei imaginando o que seria explicar a uma pessoa de hoje, o que era aquilo que dava na minha Olivetti. Hastes longas de metal seguravam uma letra na ponta. Cada haste, uma letra. Todas elas eram acionadas por um teclado. Era teclar e a haste se movia dentro da máquina até bater sobre uma fita com tinta. Quando isso acontecia, a letra aparecia escrita no pedaço de papel previamente colocado no rolo da máquina de escrever. Eu às vezes batia em duas letras ao mesmo tempo. Ao receberem esse duplo comando as hastes se cruzavam e ficavam presas uma à outra. Era o bug daquele tempo. A gente o desfazia, desembolando as letras manualmente. Assim, voltava-se a escrever.

Agora eu tento as três opções e o Word, em crise existencial, nenhuma delas aceita. Não existe só você no mundo dos processadores de texto, se é que entende meu ultimato. Posso migrar para qualquer um que aceite guardar meus pensamentos.

O que eu escreveria? Um texto que começaria assim:
Vi novas fotos de Marte. Li um tweet de Marcelo Rubens Paiva informando que Marte não era vermelho. Parei meu trabalho imediatamente. Está vendo como emergências existem? São os inesperados. As fotos são lindas. Há uma de tirar a respiração. Um azul claro recobre a maior parte de uma cavidade marciana e, em determinado ponto, há uma luminosidade laranja, como se atrás daquela parede houvesse uma luz acesa. Uma luz acesa em Marte? A ideia me paralisa, fascinada. Na outra foto, a superfície tinha umas rugosidades em cor rosa chá com algumas manchas e linhas em cinza metálico. É de uma cratera perto do equador de Marte, informa a Nasa. Há fotos de várias cores, inclusive a cor de terra seca.

Eu escreveria, não fosse o mau humor de certo processador de texto, sobre o mistério da vida. Nada sabemos de Marte, e ele mora tão perto de nós. Acumulamos informações sobre o planeta mas não o entendemos. Os astrólogos acham que é o planeta da guerra o que dá aos arianos, que rege, uma personalidade meio belicosa. Eu não posso defender esse signo, porque seria acusada de fazê-lo em meu próprio benefício. Sim, sou Áries. E Marte é, portanto, meu planeta. E hoje soube que ele não é apenas um grande vermelhão. Tem dunas brancas no meio do azul.Tem um incrível verde azulado, algo entre as duas cores. Indefinível. Parece um tecido com o qual se fez um vestido enfeitado com bordados furta cor. Com ele faria roupa diáfana e esperaria o vento olhando o mar. E há até um vermelho vivo. Mas, o que mais espanta, é a variedade de formas e cores que nós jamais imaginamos se espalhar pela superfície do vizinho. Nós, do planeta azul, sabemos tão pouco.

Tudo isso eu diria se meu Word não estivesse empacado em seu bug. Tive que sair por aí atrás de outro programa que colhesse meu desvario. Encontro aconchego no Pages e ele, que conta na tela toque a toque, me avisa que fui longe demais nesta crônica perdida no espaço.

Miriam Leitão

Miriam Leitão, jornalista e escritora, escreve crônicas como colaboradora do blog.

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