As eleições francesas e os dilemas europeus; Por Sérgio Abranches

29/03/2015 10h51m. Atualizado em 31/03/2015 08h11m

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A França vota hoje (domingo, 29/3) o segundo turno das eleições departamentais. No primeiro turno, os socialistas perderam um quarto dos cantões que controlavam. O UMP, partido do ex-presidente Nicolas Sarkozy, saiu vitorioso e disputará maior número dos cantões restantes com o Front National (FN), liderado por Marie Le Pen. No segundo turno deste domingo, enquanto o UMP enfrentará o FN em 442 cantões, o PS se confrontará com a direita ultranacionalista em 224. Ao contrário do primeiro turno, agora a esquerda estará unida na maioria das disputas. Mas é pouco provável que os socialistas recuperem terreno neste segundo turno. O desemprego está aumentando. O último resultado, divulgado esta semana, ficou próximo do recorde atingido no final de 2014. O presidente François Hollande (PS) tem baixa popularidade e nenhum carisma. O premiê Manuel Valls tem um estilo combativo demais para conquistar eleitores descontentes.

A singularidade francesa é que não surgiu ainda uma força política alternativa, como o Syriza, na Grécia, ou o Podemos, na Espanha, capaz de catalizar o descontentamento difuso e generalizado que cresce em toda a Europa. A revolta da banlieue de Paris, em 2005, foi predominantemente de imigrantes das periferias pobres da metrópole e não constituiu lideranças capazes de ter aceitação nacional. De resto, esses resultados negativos se explicam por três fatores que estão presentes em praticamente toda a Europa: a clivagem entre os anti-Europa e os pró-Europa; a crise de identidade dos partidos social-democratas ou socialistas tradicionais; e a insatisfação crescente com o desempenho da democracia representativa.

A clivagem em torno da Europa e do Euro explica boa parte da diferença na votação do FN em relação às eleições de 2014. Paris e Lyon não votaram em 2015, por causa do status metropolitano. Descontados os votos dessas duas regiões metropolitanas do total de votos de 2014, a votação da direita ultranacionalista de Le Pen não cresceu entre essas duas eleições. Por outro lado, a geografia do voto “frontista” foi bastante diferente. No primeiro turno de 2015, sua votação cresceu nas áreas urbanas e cidades maiores, ao contrário de 2014, quando retirou mais apoio das áreas rurais e cidades menores. Em 2014, a votação era europeia, na frente da agenda estava a “questão Europa”. As áreas rurais votaram mais contra a Europa do que a favor do Front National. As grandes cidades são mais pró-Europa. Em 2015, a questão é, basicamente, o desenvolvimento local. As áreas urbanas vivem tensão social e dificuldades econômicas. Tendem a votar na mudança.

Esse voto de insatisfação doméstica, descolado da “questão Europa”, encontra a mesma explicação que as derrotas sofridas pela social-democracia e pelo socialismo tradicional, incluído o Partido Trabalhista britânico, na maioria dos países europeus. É visível a crise de identidade do socialismo democrático europeu e ela tem, em grande medida, a ver com um dilema entre o “neokeynesianismo” e o “neoliberalismo”, para o qual ainda não apresentaram uma alternativa persuasiva. Crescem as evidências de que a ortodoxia neoliberal e o apego obsessivo às políticas de austeridade tem produzido mais resultados negativos do que positivos. O auge de seu sucesso se deu nas reformas fiscais e na política antiinflacionária dos anos 1970, na Europa (Thatcher, principalmente) e EUA (Reagan, sobretudo), que venceram a estagflação. Mas quem conseguiu equilibrar o orçamento dos Estados Unidos foi Bill Clinton. Foi o republicano George W. Bush quem malbaratou o superávit que recebeu. Clinton fazia parte da chamada Terceira Via, que é mais social-liberal que neoliberal e à qual se filiavam, também, Tony Blair (Partido Trabalhista) e Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Embora a política econômica comandada por FHC, como ministro da Fazenda de Itamar Franco e como presidente, tenha sido rotulada como “neoliberal” pela oposição, por seu viés privatista, seria melhor caracterizada como social-liberal. Além disso, o dilema brasileiro não é fiscal, mas evitar o retorno da cultura hiperinflacionária, que sobreviveu por muitas décadas. A preocupação é menos o gasto público, do que a indisciplina inflacionista dos governos. Há duas outras singularidades brasileiras: a péssima qualidade do gasto público e a ausência de orçamentos reais que expressem todos os gastos, inclusive os subsídios, e sejam efetivamente cumpridos pelo Executivo.

No domingo passado, após o primeiro turno, um líder socialista francês, declarou que, para ele, um social-liberal é um social-democrata. Só que não. A social-democracia só pode ser um socialismo democrático. Não sobrevive como um liberalismo social. O desafio é descolar-se da ideia fixa da austeridade, sem cair no velho expansionismo fiscal do passado, insustentável na economia globalizada e com hegemonia do capital financeiro de hoje. É essa via distinta da ortodoxia neoliberal e do expansionismo fiscal insustentável que o ministro da Economia da Grécia, Yannis Varoufakis, um economista com sérias credenciais acadêmicas, está buscando, mas ainda não parece ter encontrado. Esse esquivo equilíbrio dinâmico que permita sustentar o bem-estar e reduzir a desigualdade, sem aumentar o déficit público além dos limites em que é financiável ainda não obteve resposta persuasiva dos pensadores econômicos do socialismo democrático. Daí as dificuldades de Varoufakis e a distância na qualidade da critica da austeridade e da alternativa proposta por economistas respeitáveis como Paul Krugman e Joseph Stiglitz. Outra dificuldade do socialismo democrático é ainda praticar uma política estritamente convencional, analógica e anacrônica, incapaz de oferecer alternativa viável para a recuperação da legitimidade democrática na sociedade digital. Finalmente, a social-democracia também enfrenta sérias dificuldades em oferecer soluções estruturais para a desigualdade que tem aumentado, como mostra o economista francês Thomas Piketty.

O descontentamento generalizado com a democracia representativa tem, em grande medida, a ver com essa falência do socialismo democrático, que deixa as sociedades contemporâneas à mercê de políticas pouco diferenciadas e com viés conservador. A crise social decorrente do aumento do desemprego e da desigualdade, agravada, no caso dos EUA e da UE, pela pressão da imigração crescente, alimenta as explosões de revolta. No caso da Espanha, o mesmo caudal de indignação produziu dois sucessos eleitorais gêmeos e relativamente antagônicos: Podemos e Ciudadanos. Embora Podemos seja caracterizado como “esquerda” e Ciudadanos, como “centro-direita” ou, como dizem alguns, um “partido com o coração na esquerda e a cabeça na direita”, os dois escapam à caracterização tradicional de “esquerda” e “direita”.

Os dois novos partidos espanhóis se opõem às mesmas coisas: obsessão com a austeridade; corrupção e clientelismo dos partidos tradicionais; baixa representatividade dos parlamentos e dos governos. Podemos, contudo, compartilha ideias ultrapassadas com a esquerda tradicional; e Ciudadanos uma agenda que em parte não se diferencia da defendida pelo PP, o partido até agora dominante da centro-direita. Ambos compartilham o apoio das novas classes médias urbanas, que tiveram frustradas suas expectativas de qualidade de vida com a crise e a austeridade, e perderam confiança na elite política dirigente, seja do PSOE, seja do PP. Ciudadanos obteve praticamente metade de seus votos de eleitores insatisfeitos do PP e o restante da abstenção. Podemos, capturou a maior parte do voto dos que abandonaram o PSOE e da abstenção. Ciudadanos é considerado um partido moderado, de centro-direita pela maioria. Os nacionalistas catalões, porém, o consideram de extrema direita, por seu “europeísmo”. Podemos é considerado pelos que têm simpatia por ele, como de centro-esquerda e, por seus opositores, como de extrema-esquerda. Situação parecida com a do Syriza, que filia-se explicitamente ao socialismo democrático. Ele é visto como extrema-esquerda pelos conservadores europeus e como centro-esquerda por seus simpatizantes. Na França, parte do descontentamento tem ido para o ultranacionalismo direitista de Marine Le Pen que, nestas eleições, a divide com a centro-direita de Sarkozy. Mas, por falta de alternativa nova, a maioria dela vai para a abstenção, que beira metade do eleitorado francês.

Esses dilemas continuarão sem resposta adequada e subvertendo as eleições mundo afora por muito tempo ainda.

PS. (2a. feira, 30/03): O resultado do segundo turno das departamentais francesas foi o esperado, e confirma o que disse aqui. Primeiro, o UMP de Sarkozy saiu amplamente vitorioso, mantendo o movimento pendular da política francesa na 5a República, entre a autodenominada “direita republicana”, herdeira direta do gaullismo e que ficou mais tempo no poder neste período, e o socialismo. É, na verdade, uma centro-direita republicana. O Partido Socialista, perdeu para essa centro-direita, como admitiu o premiê Manuel Valls, conquistando apenas 30 cantões. Segundo, com esta vitória do UMP, confirma-se também que a política francesa continua a gravitar em torno dos partidos do “establishment”, não se verificando a emergência de nenhuma alternativa de fora dele, como tem acontecido em outros países da Europa. As exceções principais continuam sendo os “três grandes”, Alemanha, Reino Unido e França. Nos três, surgiram apenas, até agora, alternativas ultranacionalistas de direita ou de extrema-direita. Terceiro, está ficando claro que essas opções da direita ultranacionalista e extremists, embora tenham ampliado sua base eleitoral e social, não conseguem ultrapassar determinados limites, que lhes permitiria, de fato, contestar e disputar o poder. O Front National de Marie Le Pen não ampliou sua votação real. Perdeu nos dois cantões onde o primeiro turno indicava boa probabilidade de vitória: Vaucluse e Aisnes. Não conquistou o poder em nenhum cantão, resumindo-se à eleição de representantes. Firma-se como uma minoria com razoável representação, mas sem musculatura para, de fato, competir pelo poder.

Matheus Leitão

Matheus Leitão é jornalista há 15 anos. Em sua carreira, passou pelas redações do Correio Braziliense, revista Época, portal iG e Folha de S.Paulo. Matheus recebeu o Prêmio Esso por duas vezes, o Troféu Barbosa Lima Sobrinho -- além de menção honrosa no Vladimir Herzog. Entre 2011 e 2012, esteve na Universidade de Berkeley, na California, como Visiting Scholar.

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