Crônica da Miriam Leitão: Amigos para sempre

28/03/2015 11h55m. Atualizado em 06/04/2015 12h28m

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Perdi um amigo esta semana. Ele morava em terra distante e lá ficou. Desde que soube da notícia ouvi, novamente, a sua risada irônica. O humor fino e cáustico dele ficou comigo nos últimos dias como consolo. Um amigo comum, compadre dele, me ligou para falarmos daquele que perdemos e ele também disse que estava lembrando das frases surpreendentes com as quais se divertiu ao longo da convivência. Lamentei ter deixado que o tempo abrisse tão grande intervalo desde o último encontro e tive saudades das risadas que perdi. A amiga que me deu a notícia me contou da sua tristeza, por motivos vários. “Ainda estou catando meus pedacinhos.” E eu me lembrei do consolo que não dei.

Pensei na amizade durante a semana. Aquela que fica gostosa no coração, e que a distância não faz estrago, porque é retomar a conversa e o tempo vira uma abstração. São aquelas que foram bem plantadas, em terreno fértil, enfrentaram situações difíceis, sempre superando obstáculos. Ao longo da vida, a gente faz amigos. Por mistério, alguns serão sempre amigos, não importa quanto tempo passe, quanto silêncio exista, outros se perderão enclausurados numa época específica. A amizade tem seus segredos e escolhas. É sentimento caprichoso, faz separações, ignora o tempo.

Uma amiga fez aniversário esta semana, mandei uma DM pelo Twitter, canal pelo qual temos conversado. Ela respondeu: “o tempo mostra a importância do que passamos. Guardo você do lado esquerdo, carinhosamente.” Assim, em menos de 140 toques, dissemos que nossa amizade está viva. Fiquei com imensa saudade e não entendi a distância.

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Um bolo em homenagem ao “bolo”

 

Sim, estamos todos ocupados, correndo, cuidando das emergências da vida, sem tempo para os amigos. Eu sei as culpas que tenho. Outro dia, umas amigas, cansadas dos meus bolos recentes, provocados pelos livros que ando escrevendo, me mandaram um bolo. Lindo, gostoso, recheado e confeitado com livrinhos. Junto veio um bilhete carinhoso prometendo presença nos lançamentos. Dei boas gargalhadas. O mais doce puxão de orelha que recebi. Recentemente elas fizeram um encontro, me chamaram, já avisando que entenderiam se eu não fosse. Larguei minhas emergências empilhadas na mesa do escritório e fui receber e distribuir carinho, atenção, ouvir as novidades, aconselhar, consolar, me alegrar com elas. Bebi apenas água, porque tinha que trabalhar cedo no dia seguinte, mas saí de lá como se tivesse partilhado a champanhe com a qual brindaram o aniversário de duas delas.

O tempo de hoje dá mais chance à amizade. Sou otimista. Agora temos mais canais, reencontrei pessoas virtualmente que a distância física afastara. Reforcei laços já meio gastos. Redescobri afinidades. Troquei lembranças dos fatos passados que atravessamos juntos. Assim a amizade dormente, mas viva, floresceu de novo graças ao mundo digital.

Reencontrei um amigo esta semana. Eu o havia perdido. A mágoa ficou entre nós e ele se afastou. Me fez tanta falta por anos a fio. Quando a gente se encontrava em ambiente social, eu recebia de volta um educado “como vai?” diante de qualquer tentativa de reaproximação. Perdido o amigo, eu tive anos para pensar em como era precioso o tesouro. Inesquecível. Uma diferença de opinião, que expressei de maneira forte. Ele achou forte demais e injusta. Eu considerei sua reação excessiva. Pronto. Bastou isso e foram longos anos de silêncios e cumprimentos superficiais. Esta semana, no entanto, a mesma em que perdi o amigo do humor irônico em terra distante, reencontrei outro, cuja especialidade é o aconchego leve e as frases inteligentes. A conversa foi retomada de forma suave e o tempo da distância foi sumindo. O motivo da mágoa não foi tocado. Se ainda está no coração dele, foi deixado de lado, em algum cantinho que ele não quer mais visitar. Foi suave o reencontro, foi natural. O que não foi dito ficou como um sussurro no coração: amigos para sempre. Bem-vindo de volta, amigo querido, que falta você me fez.

Miriam Leitão

Miriam Leitão, jornalista e escritora, escreve crônicas como colaboradora do blog.

28 Comentários para "Crônica da Miriam Leitão: Amigos para sempre"

  • MaLu Gobbi 28-03-2015 (5:35 pm)

    Maravilhosa! Amizades descritas com doçura e alegria. Um alento.

    • Anna Garcia 01-04-2015 (1:05 pm)

      Sensibilidade pura!
      Costumo dizer que a amizade é mais pura que o amor.
      Eu fico profundamente emocionada com as lembranças de momentos melhorados e maus momentos esquecidos graças ao mágico efeito de cura da amizade. Que a alegria de amizades, possa sempre alegrar nossos corações.

    • Lacy Rossato 01-04-2015 (9:07 pm)

      Nossa ! Emocionei. Artigo tão verdadeiro . Parabéns ! Sou tua admiradora , leitora e ouvinte. Obrigado.

  • Rosa 29-03-2015 (1:04 am)

    Parabéns Miriam
    Sensível e bela ; uma história sua mas que podia ter sido minha ou de qualquer pessoa . Amigos- os bons- sao coisas raras e quando perdemos é triste , recuperar é uma dádiva. Bjos

  • Fernando Borba 30-03-2015 (9:25 am)

    O jornalista em especial aqueles do rádio e da televisão de certa forma são como amigos, uns com os quais temos maior afinidade outros menos, e para tanto é necessário que nos sintamos de certa forma solidários com o trabalho deste profissional. Miriam Leitão é uma destas amizades que tenho, claro que baseada sua imensa capacidade de informar aquilo que se propõe e sem sombra de dúvida é uma das melhores jornalistas do país. Pois bem como ela tão objetivamente diz neste seu texto, de uns tempos para cá afastei-me da amiga, coisa minha, afinal ela nem sabia disto. Mas eu me senti ressentido com seu trabalho recente, e zapeio pela televisão toda vez que ela tem aparecido, como se mal a cumprimentasse. Hoje meio contrariado fui ler um texto que um amigo compartilhou e me deparo com esta crônica. Miriam Leitão que surpresa agradável este teu texto, e que bom que assim posso resgatar nossa amizade, vou minimizar meus ressentimentos tentando entender que isto é a tua opinião que diverge da minha em muito aspectos, mas por outro lado prestarei mais atenção para este teu lado tão lúcido sobre as coisas do cotidiano de cada um de nós. Um abraço a gente se vê por ai.

  • Rose Tristão 30-03-2015 (10:50 am)

    Que texto lindo!! compartilhei com muitas amigas!! Como é assim a vida da gente!!

  • fabiana 30-03-2015 (4:34 pm)

    nnnnnn

  • Ana Campos 30-03-2015 (8:49 pm)

    Na leitura destas 31 linhas eu pensei em todos os meus amigos. Os que estão próximos, os que moram em outras cidades e, inclusive, os que estão chateados comigo. Vontade de abraçar a Miriam Leitão e dizer que sei como ela se sente.

  • Paula Prata 30-03-2015 (9:34 pm)

    Míriam, que lindo texto. Mais que isso. Que linda forma de agradecer ao amigo perdido no tempo pela reaproximação.
    Sinto muito pela sua perda, a primeira citada.
    Abraço fraterno, Paula.

  • Miriam Leitão 30-03-2015 (9:57 pm)

    Que comentários lindos. Obrigada Malu. Sim, recuperar é uma dádiva, Rosa. Que bom Fernando que podemos divergir e ser amigos. Obrigada por compartilhar Rose. Ana é uma delícia saber que entendem o que sentimos. Agradeço mesmo, cada comentário.
    miriam leitao

  • elisa 30-03-2015 (11:10 pm)

    Lindo texto. Daqueles que devem ser colados na porta do armário e lido todos os dias

  • Miriam Leitão 31-03-2015 (10:27 am)

    Obrigada Elisa. Me deixa feliz o seu comentário

  • Miriam Leitão 31-03-2015 (10:29 am)

    Paula, obrigada pelo carinho.
    Fabiana :)

  • Angela 31-03-2015 (5:27 pm)

    Comentário espetacular. Sou mais ou menos de sua época. lembro de vc com carinho. Sei que nao lembrará de mim. Mas mesmo assim meu abraço carinhoso.

  • Geraldo 31-03-2015 (6:18 pm)

    linda coluna. gosto muito quando vc escreve, seja sobre política ou não.

    btw, meu pai me deu o seu livro, aquele em que a protagonista se vê entre o presente e o passado. goste bastante.

    chegamos a conclusão de que é pocket-autobiográfico (sei q não existe esse termo mas ñ achei outro)

    curiosamente estou lendo 100 anos de solidão, que vc citou numa entrevista… sem comentários.

    bom, era isso, escreva mais. abs

  • higner mansur 31-03-2015 (9:24 pm)

    LINDO, EMOCIONANTE – dizer mais o que???

  • Leide Mara schmidt 01-04-2015 (5:49 am)

    Miriam,sou professora universitária no estado do Paraná. Sou sua fã como comentarista econômica. Fiquei surpresa quando li sua crônica,você foi feliz da forma como escreveu…encontrei uma outra pessoa no texto….parabéns por deixar tão claro que amizades devem ser retomadas e revigoradas sempre…necessitamos delas. Obrigado pela crônica.

  • Nira Foster 01-04-2015 (12:42 pm)

    Lindos escritos. Quem tem amigos como você sabe como ter amigos é bom.

  • Gisele 01-04-2015 (11:32 pm)

    Chica essa crônica foi enviada pela Ana Lúcia. Vale a pena a leitura.

    Bjs

    Zeca

  • ADRIANA 02-04-2015 (6:59 am)

    MAravilhoso amiga! Um dos melhores bom dias dos últimos tempos! A Miriam Leitão Eh mto inteligente! Sempre a admirei!
    Essa foi a minha resposta para a amiga que me mandou o texto!

  • ADRIANA 02-04-2015 (7:02 am)

    Engraçado como a gente conhece a sensibilidade das pessoas pelas palavras!!!
    Amei, vou mandar para algumas amigas!
    Bjs e aproveite sempre que puder e fique perto das amigas!!
    Bjs

  • Miriam Leitao 02-04-2015 (5:50 pm)

    Fiquei pensando lendo e relendo todos os comentários como é gostoso sentir que as pessoas gostaram do que se quis passar. Obrigada de novo a todos. Abraço amigo da Miriam Leitão.

  • walcira soares 02-04-2015 (6:31 pm)

    Se já acadmirava,agora mais ainda.
    Essa jornalista tão objetiva é de uma sensibilidade incrível.Lindo texto.

  • Lúcia de Moura 02-04-2015 (8:04 pm)

    Texto lindo, emocionante e inspirador! Que delícia de leitura! Parabéns, Miriam.

  • Gilza Souto 02-04-2015 (10:05 pm)

    Miriam, os seus sentimentos me fizeram parar. É como se durante anos e anos eu vaguei, vaguei e adiei. E perdi alguns bons amigos em “terras distantes”. Obrigada Miriam! Eu parei. Agora vou correndo “susurrar no coração” de alguns amigos que se “perderam no silêncio” e tentar fazer “o tempo da distância sumir”.
    Um grande abraço!

  • Marcia Paula 04-04-2015 (12:27 pm)

    Amizade, sentimento inexplicável de doçura e que nem mesmo a distância pode afastar, afastar de dentro de nossos corações, …eu sei bem o que vc sentia ao ver seu amigo tão próximo e ao mesmo tempo tão distante…mas nunca é tarde quando a amizade é verdadeira para esquecermos os motivos deste afastamento e as feridas e recomeçarmos tudo de novo…amigos de verdade são realmente para sempre.!
    Parabéns por este reencontro.
    Beijos

  • Miriam Leitao 04-04-2015 (6:04 pm)

    Querida Nira, você é preciosa. Obrigada.

  • Marilena Chiarelli 08-04-2015 (1:19 am)

    Mirinha, amiga querida, só agora vi este texto/poesia tão verdadeiro sobre amizade. Que bom te reencontrar hoje novamente, amiga querida. Bj

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