Lisboa – A Praça do Comércio e a tragédia anunciada; Por Clara Favilla

25/03/2015 11h37m. Atualizado em 27/03/2015 19h42m

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Na primeira década de 1500, na esteira das grandes descobertas portuguesas, o Castelo de São Jorge, antiga fortaleza moura, revelou-se insuficiente para acolher toda a ideia de grandeza de um pequeno país com a árvore de um império além-mar em plena floração. Assim, um complexo administrativo, militar, residencial foi construído em um dos lados – o da direita de quem está de frente para o Tejo – do espaço conhecido hoje como Praça do Comércio, em Lisboa. Este complexo que abrigava o Paço Real, um conjunto de ministérios militares, incluindo os navais, germinou junto aos estaleiros que funcionavam às margens do Tejo, já desembocando no Atlântico.

Um dos edifícios desse complexo, criado para centralizar a administração do império nascente, é o Pátio da Galé, que abrigava o Paço real ou Paço da Ribeira e a Casa da Índia, organização criada por volta de 1503 para administrar os territórios portugueses conquistados, assim como todos os aspectos relacionados ao comércio exterior, navegação, desembarque e venda de mercadorias. Recentemente restaurado, o Pátio da Galé foi devolvido à população e visitantes de Lisboa na forma de espaço para eventos, restaurantes e cafés. Também encontram-se, ali, a bem equipada sede do Turismo de Lisboa e a da ModaLisboa (assim escrito tudo junto), além da sorveteria artesanal Geladeria Paço D´Água.

A Praça do Comércio, uma das mais belas e grandiosas da Europa, é o palco da tragédia que antecipou o fim da monarquia portuguesa. Os anos de eclipse do o reinado de Dom Carlos I foram tão conturbados, a ponto de ser aconselhado a se recolher nas residências reais disponíveis.”Que rei serei eu, se me esconder da população? – teria respondido perplexo. O que a História conta supera o entendimento que se tinha, então,desses dias. E qualquer semelhança, no que interessa, com o que vivemos, hoje, no Brasil, não é mera coincidência. As causas da insatisfação das elites e da população em geral contra a monarquia eram muitas, das mais objetivas as mais difusas: havia os anarquistas, os republicanos, os socialistas, crise econômica e uma Inglaterra sempre a dar ultimatos aos portuguesas no que se refere às colônias africanas. Ultimatos que chegavam a Lisboa por telegrama e eram acatados, ora pois!

Praça do Comércio,  beira do antigo cais -  Arquivo pessoal

Praça do Comércio, beira do antigo cais – Arquivo pessoal

Em fevereiro de 1908, ao chegar do Alentejo, Dom Carlos I, acompanhado da esposa e do filho primogênito, herdeiro da Coroa, atravessa de peito aberto, de carruagem, a Praça do Comércio até o Paço Real. O caminho mais previsível. Então, acontece um filme em câmara lenta. Não é efeito técnico não, mas andamento normal de uma tragédia anunciada, como apontam relatos da época. Dois republicanos, um professor e outro um reles empregado de loja, aprontam-lhe uma armadilha a céu aberto, na presença dos habituais e desavisados transeuntes daquele horário.

O que acontece lembra-nos os eventos de Dallas. Os insurgentes lisboetas estão armados. Um tiro é dado, e depois outros. Para seguir atirando, um dos assassinos reposiciona-se, ajoelha-se no chão da praça para melhor apoiar a arma e mirar a carruagem trôpega, Segue-se uma fuzilaria e os dois assassinos são convenientemente mortos no local e em tempo real. Agiram tão sozinho, sem nenhuma retaguarda que lhes completassem o serviço, como agiu o assassino de Kennedy, em 1963?

Tiros aos borbotões podiam ser ouvidos de todos os ângulos da Praça do Comércio. A rainha, ainda sem se entender viúva e já sem o filho príncipe herdeiro, só não é morta porque, porque… olha só… um soldado que não estava serviço, “de mãos nuas” (ou seja, desarmado) resolveu se atracar com um dos assassinos que já se atrevia no estribo da carruagem à deriva com o condutor ferido. A rainha histérica tentava dele se livrar armada, pasmem! de um leque. Pânico. Portas sob as arcadas dos edifícios da Praça do Comércio fsão cerradas. Estilhaços de vidros e espelhos voavam. Cascos de cavalos tiravam faíscas das pedras do calçamento. O peixeiro, o padeiro abandonaram cestos e a produção do dia. O regicídio atrapalhou o dia de muita gente, mas poucas lágrimas foram derramadas,algumas de crocodilo, e só pelos lados da Corte. As mortes de Dom Carlos e de Luis Felipe seu filho foram lamentadas mais na França, Espanha e Inglaterra que em Portugal.

Dom Carlos I, o assassinado, tinha apenas 45 anos. Maria Amélia, a esposa, teve vida longa, morreu com mais de 80 anos, em Versalhes, França, em 1951, 43 anos depois do assassinato do marido. Com a morte do primogênito de Dom Carlos I, no mesmo atentado, o trono português foi assumido pelo irmão mais novo, Manoel, que reinou por apenas dois anos. Em 1911, a República foi instaurada. A monarquia morreu sem tempo de ser modernizada como em países, onde sobrevive até hoje. A República ditatorial instalou-se. Para o povo, foi apenas uma troca de opressores, Dom Manoel II exilou-se na Inglaterra. Para completar a história, colorindo-a de novela: Dom Carlos I, o rei morto em 1908, deixou uma filha bastarda de apenas um ano, Maria Pia, fruto de relação adúltera com uma brasileira, nascida no Ceará. Pode? Pode. Maria Pia morreu aos 88 anos, em 1995, sempre reivindicando o trono português. Tinha documentos, questionados judicialmente, de que teria sido reconhecida pelo pai.

Clara Favilla

Clara Favilla é jornalista. "Mais do que conhecer novos lugares, amo retornar. Reportariar é meu ofício. Vivo viajando, até pela quadra onde moro, em Brasília. Escreverei sobre viagens aqui. Serão impressões pessoais,mais do que guias. Espero que gostem, deem retorno e sugestões."

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