Lisboa, cenários quase imutáveis e histórias de um passado que não passa; Por Clara Favilla

18/03/2015 14h34m. Atualizado em 19/03/2015 19h43m

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Não há pedaço da Europa que não tenha sido construído ou arado sobre sangue derramado por lutas fratricidas ou disputas externas. Conta-se que, durante a Revolução Francesa, na Praça da Concórdia, a que arremata a Avenida mais famosa de Paris, a Champs Elysées, o sangue azul dos decapitados em série empoçava, quando não corria feito enxurrada pelas sarjetas.

O vale do Adige, na Itália, tão paradisíaco, foi rota de todas as invasões bárbaras, em tempos romanos. E, mais tarde, adubado por sangue italiano, francês e austríaco, quando os mortos chegaram a centenas de milhares.

Se você não quiser se encontrar com fantasmas que soluçam e imprecam desesperados, não ande pela Europa, nem preste atenção nas placas de casas dizendo aqui morreu fulano, ali beltrano, acolá sicrano, herói, mártir ou traidor. Mas não vamos nos esquecer das placas com nomes de poetas, escritores, pintores, testemunhas e narradores de todo o sangue derramado através dos séculos e séculos até os dias de hoje. Sem falar nas placas sinalizando massacres, execuções, campos de concentração, crematórios.

A Europa é um vasto cemitério. Nesses antigos teatros de batalhas campais ou intramuros, floresceram e ainda florescem os lugares que mais amamos ou que jamais deveriam ter existido. A Ponte dos Suspiros, em Veneza, não deve o nome aos enamorados de hoje, mas aos condenados à morte de ontem. Passagem que para muitos foi sem volta, tem o horror de seu propósito encoberto pelo belo desenho que a incorpora à paisagem.

A história de Portugal é um filme de suspense e o diretor quase sempre inglês, como também personagens importantes. A expulsão do último califa do paraíso à beira-mar plantado para os desertos do Marrocos, teve a contribuição decisiva de cruzados ingleses. Dom Sebastião, o rei menino desaparecendo para sempre em meio às brumas rende cenas dignas da sétima arte. Imaginem, depois, nos tempos de grandeza, centenas de naus portuguesas desgrudando-se do continente, rumo a mares muito além dos já navegados pelos mais antigos.

Rossio - Arquivo Pessoal (1)

Fonte da Praça do Rossio – Arquivo Pessoal

 

“O mar com fim será grego ou romano/O mar sem fim é português”, registrou Fernando Pessoa para a eternidade porque poetas são filósofos, historiadores e também explicitam em palavras melodiosas e frases concisas os mistérios da Fé e da Ciência. E, muito antes de Pessoa, houve Camões cantando a epopeia dos descobrimentos portugueses. O sonho de um país tornar-se grande além-mar porque limitado na retaguarda, acossado por espanhóis e franceses. Acossado também no mar por naus piratas e de países hostis.

Imaginem uma corte inteira, em 1808, milhares de pessoas com pertences em baús – linhos, sedas, bordados, especiarias, joias, livros a mãos cheias – rumando ao Brasil,com as tropas napoleônicas ao encalço. Chegaram sob a proteção onipresente dos ingleses. E depois, o retorno da Corte. Teatro sem fim e sem começo, com cenas multiplicando-se a esmo, ao acaso, à revelia dos atores. Enredos sempre eletrizantes, até na ilusão da pasmaceira. Romeu e Julieta não morreram. Fugiram de Verona e, em Portugal, chamaram-se de Heloísa e Bernardo. E a linda Inês de Castro, que agora é morta?

Comédias, óperas bufas ou tragédias, os cenários permanecem. Sobreviveram ao sol, à chuva, a incêndios e terremotos: o Castelo de São Jorge, fortaleza moura sobre escombros romanos, que do século 14 a 16 abrigou a residência dos reis portugueses; a Praça dos Restauradores, que celebra a independência de Portugal da Espanha; a Praça do Comércio, palco do assassinado de Dom Carlos I e de seu filho Luiz Felipe, dos estertores da ditadura Salazaristas e da Revolução dos Cravos, em abril de 1975. Nessas mesmas praças, desenrola-se, hoje, a resistência da população às medidas de austeridade decorrentes da crise global e que fez voltar o vermelho das bandeiras marxistas e socialistas às ruas de Lisboa. Tudo como dantes, no quartel de Abrantes. E para continuar alimentando olhos e coração de tanta história, já que estou no Rossio, vou ao encontro de Bocage, no Café Nicola.

Matheus Leitão

Matheus Leitão é jornalista há 15 anos. Em sua carreira, passou pelas redações do Correio Braziliense, revista Época, portal iG e Folha de S.Paulo. Matheus recebeu o Prêmio Esso por duas vezes, o Troféu Barbosa Lima Sobrinho -- além de menção honrosa no Vladimir Herzog. Entre 2011 e 2012, esteve na Universidade de Berkeley, na California, como Visiting Scholar.

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