Crônica da Miriam Leitão: As Franciscas

07/03/2015 10h48m. Atualizado em 11/03/2015 19h53m

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– Qual o nome da sua mãe?

– Lúcia. Quer dizer, Francisca… é Lúcia

– Lúcia ou Francisca?

– Na verdade é Francisca, mas todo mundo conhece por Lúcia.

– Ela não gosta do nome?

– Ela tem uma irmã com o mesmo nome, só troca a ordem do sobrenome

– E como chamam a sua tia?

– Ela se chama Francisca, mas a gente chama de Cimeira.

– Duas irmãs com o mesmo nome…

– Tem também a Francisca Socorro.

– Vocês chamam de Socorro?

– Não, ela é a Vanda.

– Três franciscas na mesma casa?

– Tem uma outra que chama Francisca Lucrécia

– Esta vocês chamam de Lucrécia?

– Quase. Na verdade é a Créci.

– Deixa eu ver se entendi. Seus avós tinham a Lúcia, a Cimeira, a Vanda e a Creci e todo mundo era Francisca. Por que isso gente de Deus?

– Meu avô gostava muito do nome.

– Está se vendo.

– Elas moram todas no Ceará?

– Não. Francisca Maria, mora em Teresina.

– E esta vocês chamam assim, de Francisca Maria?

– Não, essa é a Cila.

– Cinco! Como o cartório aceitou?

– Meu avô, a cada vez, trocava a ordem dos sobrenomes. Tinha hora que era um primeiro, depois era o outro.

– Mas… eram cinco.

– Era não.

– Não?

– Era sete filhas.

– Mais duas franciscas?

– Sim. Uma a gente chama de Vera e a outra de Lurdes. Tem gente que estranha, mas lá no sertão é assim. O pai gostou de um nome, repete tudo nos nomes dos filhos.

– Mas nunca deu confusão?

– Deu. Não sei o que aconteceu que minha mãe e minha tia do mesmo nome ficaram com o mesmo CPF. Não entendi o que houve.

– Vai ver a Receita se confundiu né? E quantos filhos são ao todo?

– Quinze. Sete mulheres e oito homens.

_ Qual o nome dos seus tios?

– Eles se chamam Francisco

– Todos?

– Todos. Meu avô gostava do nome.

– Gostava muito!

– Estou louca para ver todo mundo. Contando as horas. Hoje é o último dia que faço suas unhas. Aí tiro férias e vou pro sertão. Ai que saudade. E está chovendo no meu sertão. Minha mãe me contou. Deve estar bonito. Difícil vai ser o avião. Eu tenho medo que me pelo. Três horas que parece um dia. Fico nervosa em avião. Depois eu chego, durmo em Fortaleza e pego a estrada. São 500 quilômetros e então mato a saudade da minha terra e da minha avó. Ela tem 85 anos. Nem parece. É animada.

Ela colocou todos os esmaltes de volta na bolsa, organizou tudo, meticulosamente como sempre faz desde que começou a vir aqui em casa fazer minhas unhas. Agradeceu o pagamento, ligou para o marido vir buscá-la e foi saindo.

– Até a volta, Luana.

– Ah…eu não me chamo Luana.

– Não?

– Eu me chamo Ana Paula.

– ?

– Meu pai queria Ana Paula e minha mãe, Luana. Aí meu pai registrou Ana Paula e todo mundo me chama de Luana. Na minha terra isso é normal sabia? Saudade da minha terra, muita saudade do meu sertão.

– E seu avô como se chamava?

– Francisco.

– ãh. Última pergunta Luna, quer dizer Ana Paula, quer dizer Luana. E sua avó como se chama?

– Moça

– Moça?

– Os pais dela tiveram um monte de filho homem e quando ela nasceu ficou chamada de moça. Até hoje.

– Moça… e por que seu avô chamava Francisco?

– Vou procurar saber, mas acho que é por causa de São Francisco das Chagas de Canindé. Fica lá pertinho da minha cidade, bem pertinho.

Miriam Leitão

Miriam Leitão, jornalista e escritora, escreve crônicas como colaboradora do blog.

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