Gregos e macedônios, bravatas alexandrinas; Por Clara Favilla

07/03/2015 10h29m. Atualizado em 09/03/2015 10h35m

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Passamos a vida acumulando memórias do que vivemos e do que poderíamos de ter vivido. E, muitas vezes, o não vivido é tão ou mais real que o acontecido. A memória do não realizado, se a intenção inicial foi vigorosa, dá complexidade as nossas viagens, quando delas relembramos como se montássemos um quebra-cabeça. Momentos críticos determinaram atalhos, prolongamentos, recuos, paradas e redefinição de estratégias. Muitas vezes, decisões por atalhos acontecem apenas por cansaço. Outras, porque precisamos ceder quando estamos com outras pessoas. As coisas não vividas, assim como as findas, parafraseando Drummond, para sempre ficarão.

A Skopje, que conhecemos, em 1985, não era a de hoje, cheia de monumentos cultuando o passado milenar, testamento de Filipe e Alexandre, pai e filho. Era a capital sisuda e melancólica da Macedônia ainda uma das repúblicas integrantes da Iugoslávia. A atual cidade, de tão kitsch e espalhafatosa, vem sendo motivo de muitas críticas internas e externas. Até um arco, ao estilo do Triunfo de Paris, foi construído. Tudo obra do governo conservador e nacionalista para firmar o nome do novo país como Macedônia que, segundo a Grécia lhe pertence e deveria se referir apenas a uma de suas regiões administrativas.

A ideia era a de restituir à cidade toda a pompa neoclássica que vigorava antes do terremoto que quase a destruiu completamente em 1963. Foi lançado, em 2010, o projeto Skopje 2014 que resultou em dezenas de estátuas espalhada por pontes e praças, reconstrução e construção de grandes edifícios, a custos excessivos. Verdadeiro desperdício de recursos, recheado de denúncias de corrupção, que não combina com um país pobre, onde grassa o desemprego. Monumentalidade que nada tem a ver com a história mais recente do país. Atualmente uma enorme estátua equestre de Alexandre domina uma das praças da cidade. A ironia é que o dominador do mundo antigo nasceu em Pella, que fica justamente na parte da Macedônia que continua grega.

Restaurante  à beira da estrada entre Skopje e Atenas  - Ainda na Macedônia

Restaurante à beira da estrada entre Skopje e Atenas – Ainda na Macedônia – Retrato do Tito na parede

Mas voltemos ao início. Ao deixarmos Scopje, poderíamos seguir rapidamente para Atenas ou fazer uma digressão até Ohrid, plantada à beira do lago do mesmo nome. Ácrida, em português, é considerada a capital turística da Macedônia. Os gregos a chamavam de Lychnidos, que pode ser traduzida por pedra preciosa brilhante. A cidade está ligada ao mito de Cadmus, o portador do alfabeto, o capaz de arranjar sons em fonemas, fonemas em letras, letras em sílabas, sílabas em palavras, palavras em pensamentos completos. O difusor de ideias, aquele que pelo conhecimento fez a ponte entre o Leste o Ocidente. O que cumpriu a sina do desterro fincando raízes.

Cadmus, príncipe fenício – neto de Poseidon, deus dos mares – é considerado o fundador de Tebas, para muitos o marco do início da civilização. Tomou o rumo da Grécia, por ordem paterna e materna para resgatar a irmã Europa, sequestrada por Zeus. Com a ordem, veio a proibição de retorno sem a irmã. Seguiu viagem sabendo que, para sobreviver, não poderia desagradar a Zeus nem aos pais. O caminho de volta, portanto, para ele foi fechado assim que se pôs a caminho. Na Grécia ficou, para que a Grécia ganhasse em ideias o mundo. Bem, as lembranças da viagem que eu não fiz para Ohrid só no próximo post porque este já se alonga demais.

No trajeto de Skopje até a fronteira da Grécia, nossa impressão é que fazíamos parte de um cenário bíblico. Mulheres tecendo nos campos enquanto pastoreavam ovelhas e cabras. Homens trabalhando a terra com arados manuais ou puxados por animais. Mesmo as eslavas vestiam-se de um jeito que eu poderia explicar como típicos. Também como as mulçumanas traziam os cabelos encobertos por lenços, mas coloridos. Tudo bem diferente do que vimos na Eslovênia, Croácia e Sérvia.

Quanto mais nos aproximávamos da Grécia, mais aumentava o fluxo de pessoas que iam e vinham de um país a outro. E sempre com uma atividade comercial implícita. Carros velhos e enormes, muitos com carrocerias adaptadas levavam à Grécia grande quantidade de tapetes e de tecidos artesanais, além de sacos de lã de ovelhas não processadas e retornavam com produtos, geralmente alimentícios, de limpeza e higiene pessoal.

Assim, nossa passagem pela fronteira entre as duas Macedônias nos exigiu paciência porque a vistoria nestes veículos mambembes, improvisados, demorava bastante e muitas vezes era fonte de discussões intermináveis entre autoridades aduaneiras, passageiros e condutores de veículos. Além dessas duas regiões que brigam pelo uso do nome, há ainda a Macedônia búlgara. Está, assim, explicada a confusão que não cessa por razões territoriais, étnicas e religiosas. Há uma minoria expressiva de macedônios eslavos, estimada em 180 mil pessoas, vivendo na macedônia grega e o censo é 2002. A Grécia recusa-se a renová-lo. Ou seja, recusa-se a admitir oficialmente que existem eslavos vivendo em seus limites. O trânsito humano e comercial fronteiriço tem muito a ver com ramos familiares comuns presentes nos dois lados. Os gregos tentam ignorar essa situação. Para eles, toda a Macedônia, incluindo a parte búlgara, lhes pertence.

Clara Favilla

Clara Favilla é jornalista. "Mais do que conhecer novos lugares, amo retornar. Reportariar é meu ofício. Vivo viajando, até pela quadra onde moro, em Brasília. Escreverei sobre viagens aqui. Serão impressões pessoais,mais do que guias. Espero que gostem, deem retorno e sugestões."

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