Rio você foi feito prá mim; Por Sérgio Abranches

01/03/2015 10h04m. Atualizado em 03/03/2015 21h03m

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Embarquei no primeiro vôo de avião de minha vida em Brasília, rumo ao Rio de Janeiro, ao 12 anos de idade, com meu pai. O aparelho era, se a memória não me trai, um Convair da Varig. Quando a porta do avião abriu e desci a escada, senti o abraço repentino do seu calor úmido e o cheiro de maresia, que ficou para sempre gravado no olfato de minha memória sertaneja. Foi tão profundo o sentimento que, de algum modo, sei que foi quando decidi que era a cidade em que queria viver. O Rio, recém-destituído de sua condição de capital federal, era a metrópole brasileira, a referência nacional, nossa apresentação ao mundo. Voltei com meu pai algumas vezes à cidade maravilhosa, na pré-adolescência, sempre para suas reuniões na OAB. Ficávamos no Hotel Ouro Verde, na avenida Atlântica. Copacabana foi minha primeira praia no Rio. Até hoje, tanta história rolada, quando o avião se aproxima do Rio, a primeira coisa que me vem à cabeça é o Samba do Avião, de Tom Jobim, que o sistema de som da Varig de então tocava invariavelmente.

Minha alma canta
Vejo o Rio de Janeiro
Estou morrendo de saudades
Rio, seu mar
Praia sem fim
Rio, você foi feito prá mim
Cristo Redentor
Braços abertos sobre a Guanabara

Toda vez que a aeronave, não importa de que companhia, se aproxima da cabeceira da pista, sinto-me num avião da velha Varig e ouço no fundo da minha alma os versos finais de Tom.

Aperte o cinto, vamos chegar
Água brilhando, olha a pista chegando
E vamos nós
Pousar

Foram muitos os pousos musicados por Tom. Mesmo nas vezes que cheguei à cidade de carro, mais numerosas na minha juventude de orçamentos sempre muito limitados, ouvia o Samba do Avião ao começar a descida final da serra que me entregaria à cidade do meu coração. Sempre que pude, na minha adolescência e juventude, passei as férias no Rio. Várias vezes, sem dinheiro para o hotel, usei de artimanhas e favores, para conseguir hospedagem na casa de alguém. Sei que compartilho essa memória com as várias gerações que pousaram no aeroporto do Rio em aviões da Varig, naqueles anos, ouvindo esse samba. Acredito, mesmo, que outros tenham decidido, como eu, viver no Rio, por amor à primeira vista, ao descerem as escadas do avião, envoltos pelo calor úmido da cidade, pelo cheiro forte da maresia e com a música de Tom ainda tocando na memória. Só realizei o sonho de viver no Rio no final dos anos de 1970.

Enquanto pesquisava a pauta internacional, para saber o que escreveria hoje, retornava sempre à ideia de que, de algum modo, teria que falar do Rio, que completa 450 anos neste domingo (1/3). Já não existem mais a poesia, o fervilhar intelectual e artístico, a boêmia, a praia, do meu Rio original. Ele parece tão distante hoje, quanto aquela paliçada construída nas encostas e na várzea entre o morro Cara de Cão e o Pão de Açúcar, o Rio primordial, que serviu de palco para o belo romance de Alberto Mussa, A Primeira História do Mundo (Record, 2014). O Rio malandro, inteligente, carinhoso, acolhedor, mudou muito. A cidade pela qual me enamorei e a Copacabana, minha primeira praia, não são hoje mais que memória sentimental.

Um dos momentos internacionais marcantes da história da cidade, do qual participei já como carioca honorário, foi a Rio 92. Talvez a mais importante cúpula internacional sobre meio ambiente já realizada. Dela saíram compromissos e acordos que até hoje pautam as ações multilaterais, como a Declaração do Rio, a Agenda 21, as convenções sobre Diversidade Biológica e Mudança Climática. Nela nasceu o ambientalismo brasileiro. O presidente era Fernando Collor. Como anfitrião, demonstrou ter muita noção da importância do evento para o Brasil, o Rio e o planeta. Mobilizou os melhores recursos científicos e diplomáticos do país para garantir seu sucesso. Ele já enfrentava o escândalo de corrupção, que terminou no seu impeachment, liderado pelo PT.

Os diplomatas brasileiros que participaram das negociações da Rio 92 formavam uma das mais brilhantes gerações de diplomatas de nossa história contemporânea. O ministro das Relações Exteriores não era diplomata. Celso Lafer era, todavia, um intelectual brilhante, de grande erudição, formado em direito e com PhD em ciência política pela Universidade Cornell. Quando fui fazer o doutorado no departamento de ciência política de Cornell, Celso Lafer era quase um mito entre os professores. De todos ouvi palavras elogiosas sobre sua postura elegante e sua excelência intelectual. Exercia, portanto, um papel de liderança que se legitimava entre os diplomatas por suas impecáveis credenciais, em um ambiente que raramente aceitava os estranhos à carreira que a conveniência política por vezes lhes impunha como ministro de estado. Com Celso no comando do Itamaraty, tiveram atuação de destaque na Rio 92 expoentes de nossa diplomacia como Marcos Azambuja, o negociador oficial, Rubens Ricúpero, Ronaldo Sardemberg, Bernardo Pericás e Luiz Augusto de Araújo Castro, entre muitos outros. Por todas essas contingências, o Brasil, mais que anfitrião, foi um ativo protagonista nas negociações e teve papel importante na definição da forma final de alguns dos mecanismos que permitiriam pôr em prática os compromissos então assumidos.

O Rio foi um palco perfeito. Collor mobilizou as forças armadas para garantir a segurança. Os principais chefes de governo e estado do mundo estiveram na Cúpula da Terra. Dificilmente haveria local melhor para ela acontecer que o Rio de Janeiro. O aparato de segurança foi desnecessário. Até a bandidagem parece ter tido a noção da importância do evento e, talvez até mesmo por amor ao Rio, deu uma trégua, para que nenhum incidente mais relevante enodoasse aquele momento histórico para a cidade e o mundo.

O climatologista Carlos Nobre disse, em uma entrevista que Marcos Sá Corrêa, Kiko Britto e eu fizemos com ele para O Eco, que George Bush, o sênior, o dirigente que mais obstáculos criou para as decisões da Rio 92, terminou por dar enorme impulso à ciência do clima. Diante da pressão dos outros governantes, aceitou uma fórmula de compromisso sobre o aquecimento global e disse que considerava que o tema requeria, pelo menos, ser mais estudado. “We need more studies”, teria dito. Nobre contou que, ao retornar ao EUA, Bush cumpriu a promessa e destinou verbas significativas à pesquisa sobre mudança climática. Seria o impulso inicial, que permitiria recollher as evidências que terminariam por convencer a quase unanimidade da comunidade científica global. Hoje o consenso científico é indisputável, exceto em algumas franjas menos qualificadas na periferia da ciência mundial. Ele transferiria seu reacionarismo e os interesses na indústria do petróleo aos filhos, George W. e Jeb, que pode disputar a sucessão de Obama. A presidência de George W. foi um momento sem glória para a ciência climática no EUA. Ele censurou a pesquisa nas instituições da NASA, que têm grande relevância para a climatologia do EUA. O jornalista Chris Mooney, narrou o bloqueio de Bush em dois excelentes livros-reportagem, The Republican War on Science e Storm World: Hurricanes, Politics, and the Battle over Global Warming.

Vinte anos mais tarde, o Rio recebeu a Rio+20. Era para repetir o feito de 92. Mas foi um evento sem brilho e com resultados pífios. Transferiu as decisões para Paris 2015. A presidente Dilma Rousseff não mostrou ter noção da importância ou da grandeza do evento. O negociador brasileiro, André Correia do Lago, homem de muito bom humor, é um dos mais destacados diplomatas de sua geração. É herdeiro da tradição do Itamaraty que cultivava a cultura, a inteligência e a habilidade diplomáticas. O negociador oficial para mudança climática, que liderou as negociações da Rio+20, Luiz Alberto Figueiredo (chegou ao comando do Itamaraty no governo Dilma), já havia demonstrado suas qualidades nas várias COPs do clima como negociador-chefe do Brasil. Fiz seu perfil em Copenhague Antes e Depois. Mas de nada adiantou a habilidade dos diplomatas, em um governo que nas questões ambientais e do clima está mais próximo politicamente do desprezo de George W. por elas. Não se rompeu o impasse. A presidente não foi capaz de liderar a cúpula política. O então ministro da Fazenda, Guido Mantega, foi ao Riocentro para elogiar os combustíveis fósseis, em um país que tem o maior potencial de energia renovável do mundo. Os políticos ficaram devendo e o final foi patético.

Mas, se o governo se comportou muito mal. O Rio deu, novamente, um show de hospitalidade. Brilhou o quanto pôde. A Força Nacional foi mobilizada pelo governo federal para garantir a segurança. Havia muita apreensão. Os morros ainda estavam conflagrados. Mas o Rio soube ter noção de que lhe cabia criar o ambiente propício para que as negociações resultassem no bem global. A cidade fez sua parte. Encantou os visitantes.

Hoje, minha alma canta. Só vejo o Rio de Janeiro. Estou morrendo de saudades. Rio, seu mar, praia sem fim. Rio, você foi feito prá mim. Cristo Redentor, braços abertos sobre a Guanabara. Sei que vamos decolar.

Sérgio Abranches

Sérgio Abranches é cientista político, comentarista da CBN e colaborador do blog.

2 Comentários para "Rio você foi feito prá mim; Por Sérgio Abranches"

  • carlos 01-03-2015 (4:25 pm)

    Uma pena não citar a Cúpula dos Povos, evento paralelo da rio+20. Lá era foco de resistência da sociedade civil.

  • Paula Rangel 02-03-2015 (8:50 pm)

    Ótimo texto. Eu também cantarolo o Samba do Avião sempre que chego ao Rio!

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