Miriam Leitão: Imprevistos dos bastidores

28/02/2015 09h45m. Atualizado em 03/03/2015 07h56m

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Queria ser cronista. Só isso eu tinha certeza nos primeiros dias de jornalismo, iniciado, sem aviso prévio, aos 18 anos, em Vitória. Procurava emprego que me ajudasse a pagar as contas e consegui em uma redação. Foi assim que virei jornalista. Cheguei ao Espírito Santo depois de ler todo livro de Rubem Braga que encontrara, já sabendo que o estado tinha tradição no gênero. Tinha lido crônicas de Machado a Drummond. Era um sonho secreto, atrevido, que não contava para ninguém. Acabei sendo tudo: repórter, editora, colunista, comentarista. Crônica só em alguns raros momentos quando a faina diária abre um breve intervalo, uma ligeira fresta no noticiário pesado. Ficou assim esse desejo incompleto que realizo aos sábados neste espaço.

Ouvi dizer que todo cronista tem um momento que não sabe o que escrever e tem que deixar a mente bem solta para ver se pega alguma inspiração, uma certa associação de ideias, uma lembrança que pouse como um passarinho.

Foi assim que me lembrei da mosca. Ela entrou no estúdio e o programa era ao vivo. Eu avisei, no intervalo, que uma voadora passara rasante sobre mim. Ninguém deu ouvidos. Todos falavam ao mesmo tempo. A televisão é um milagre que se renova a cada dia. Aquela confusão e, de repente, todos no ar, organizados, como se tivessem ensaiado.

Pergunta feita, eu comecei meu comentário. Foi quando a mosca voltou. Ela envidou os maiores esforços para chamar minha atenção. Deu volta na minha cabeça e parou, como um equilibrista, no ar, entre eu e a câmera. Depois, veio direto na minha direção; ameaçadora. Então sumiu. Antes do respiro de alívio, voltou num golpe traiçoeiro, por trás, contornou a nuca, zuniu no ouvido e passou rente ao meu rosto. O comentário era sobre uma notícia séria. Não dava para brincar com o inusitado da presença de uma espectadora alada. E dançante. Que mosca, aquela. Ela dava piruetas no ar e voltava a fincar sua atenção em mim. Gostava de economia, aparentemente. O estúdio inteiro petrificado. E eu fazendo exercícios mentais para ignorar a intrusa e continuar concentrada na difícil notícia que tinha que analisar. Comentário longo, mosca insistente, e eu tendo que dedicar um superávit de atenção ao tema. Consegui chegar ao ponto final. Respirei. Ao fim do programa dei caça implacável à mosca. Tão misteriosamente quanto apareceu, ela sumiu.

Houve também o problema do salto. Oito é o máximo que consigo. Meu sapato cinza tem salto oito. Eu caminhava, resoluta, para o estúdio quando senti uma certa maciez estranha e desequilibrante sob os pés. Olhei e o salto do pé direito tinha virado. Parei, tentei consertar e ele saiu na minha mão. Estava na porta do estúdio, quase na hora de entrar no cenário. Eu teria que caminhar até os apresentadores explicando a volátil conjuntura econômica e, naqueles instantes prévios da entrada em cena, eu adernava sobre um sapato com salto e outro sem. Entrei no estúdio e disse, nos bastidores, para o Caju, do áudio: “socorro”. Entreguei a ele o sapato e salto separados e minha aflição. Caju saiu rapidamente do estúdio e só ouvi um barulho assim: Tuuuummmm! Ele voltou triunfante com salto e sapato de novo reconciliados. Acabava de calçar quando ouvi a ordem para que entrasse em cena. Andei sem saber qual o grau de resiliência do meu sapato cinza de salto oito. Mas ele aguentou, heroico, até o fim do comentário.

Foi falar do sapato e me lembrei da bota. O cameramen é alto e forte. É ele que maneja o mais pesado dos equipamentos, uma câmera que corre em trilhos e dá a imagem em movimento. Simpático, o colega. Delicado nos gestos e palavras, apesar daquele tamanhão todo. Ele usa botas pesadas, como se precisasse da grossura da sola para se sustentar no chão. Naquele dia me avisaram para entrar. Fiz o primeiro movimento para contornar as câmeras por trás e ir para o centro do cenário. Meu colega grandão, de costas para mim, puxou seu super equipamento e deu marcha ré levantando seu enorme pé calçado com as grossas botas. Movimentei meu pé 36, em uma delicada sandália que pouco protegia, no exato instante em que ele descia sua bota 44 impiedosamente sobre o dorso do meu pé. Dor indescritível. Gritaria se possível fosse, mas ouvi a ordem insistente do diretor no meu ouvido: “Entra, Miriam”. Meu pé não queria ir, o grito parado no ar, e eu tive que desfilar diante das câmeras explicando a situação econômica. O pé latejava. Um filete de sangue escorreu, mas ninguém viu, porque não estava em quadro, só meu delicado colega olhava desolado. E eu explicava o choque externo que atingira a economia brasileira; em voz pausada, sentindo o pé aos gritos. A marca desse encontro desigual perdurou por dois meses em um hematoma. Até hoje eu não fico mais atrás dele, e ele sempre se certifica de onde eu estou antes de recuar.

O telespectador, em casa, nada soube da mosca, do salto quebrado, e da mais esmagadora pisada que já sofri na vida.

Sou comentarista. Dizem que ser cronista é um risco porque há um momento em que nada vem à mente. Há imprevistos maiores nessa vida.

Miriam Leitão

Miriam Leitão, jornalista e escritora, escreve crônicas como colaboradora do blog.

3 Comentários para "Miriam Leitão: Imprevistos dos bastidores"

  • Solange 28-02-2015 (10:13 am)

    Parabéns, Miriam! Acompanho sua trajetória desde…sempre. Adorei o livro infantil! Um forte e carinhoso abraço.

  • Afonso Borges 28-02-2015 (8:18 pm)

    Bem…. Depois desta mosca, você tem que contar o caso do painel do Sempre um Papo que quase caiu na nossa cabeça… A.

  • miriam leitao 01-03-2015 (7:48 am)

    Solange, tem um novo infantil saindo do forno.

    Afonso, menino, que bom que está aqui lendo minhas crônicas. Realmente o que foi aquele painel. E a sua cara?
    Saudades de você e Taty.
    bjs

    miriam

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