A violência nas universidades e a humanização médica; Por Paulo Silas

26/02/2015 10h49m. Atualizado em 28/02/2015 09h45m

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Os dados de um levantamento realizado pela Fmusp (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo) sobre os casos de violência entre os alunos da instituição são estarrecedores.

Segundo o estudo, coordenado pela professora do Departamento de Medicina Preventiva Fernanda Tourinho Peres, nove em cada dez alunos de medicina da USP (Universidade de São Paulo), já passaram por algum tipo de agressão durante a sua formação. Do total de entrevistados, 43,3% disseram ter sido submetidos a assédio ou discriminação sexual e 15,5% relataram sofrer ameaças e agressões físicas.

Apresentados no mês passado, durante uma audiência da CPI que apura os casos de violência nas universidades paulistas, os números divulgados pela Fmusp são ainda mais assustadores quando o estudo revela que o agressor é, na maior parte das vezes (83,7%), outro estudante de medicina.

É assustador pensar que esses futuros médicos estariam envolvidos diretamente em atos como violência sexual, castigos físicos e preconceito.

Tais dados suscitam, evidentemente, questionamentos inevitáveis. Qual será o perfil dos médicos brasileiros que estão sendo gerados pelas universidades? Qual o tipo de relacionamento e de diálogo existirá entre o profissional e o paciente? A existência da selvageria, constatada nos bancos universitários, se refletirá dentro de um hospital ou de um consultório médico?

O levantamento aponta para efeitos preocupantes que certamente põem em xeque o futuro do atendimento humanizado dentro dos hospitais ou dos consultórios médicos. É impensável que crimes como os apontados por esse estudo estejam ocorrendo de forma quase que natural entre aqueles que deveriam ser os primeiros a defenderem – com unhas e dentes – o princípio da dignidade da pessoa humana.

Principalmente quando dentro das universidades, inclusive da USP, discute-se tanto o papel do médico e a humanização da medicina. Afinal de contas, a humanização do atendimento só depende do médico em si e de sua capacidade de compreensão da saúde do paciente como um todo.

As universidades, juntamente com as autoridades, devem estar atentas à violência praticada entre os estudantes e seus efeitos na formação do profissional. Por isso, a revelação de um estudo como este, divulgado na CPI, tem total relevância para suscitar o debate da atual condição das instituições de ensino no Brasil. Crimes não podem ficar impunes.

Por outro lado, deve haver um esforço hercúleo dos governantes, das autoridades e principalmente da universidade para combater práticas ilícitas e criminosas. Incentivar que as denúncias sejam feitas e efetivamente solucionadas é um passo importante nesse processo.

Ressalta-se que não é apenas o nome da instituição que está em jogo, mas de toda uma categoria de futuros profissionais. É preciso bom senso e coragem para enfrentar essa realidade, sem que haja receios e protelações.

Paulo Silas

Paulo Silas é jornalista e colunista de política do Jornal de Limeira, e apresentador de um programa jornalístico na Rádio Magnificat FM.

1 Comentário para "A violência nas universidades e a humanização médica; Por Paulo Silas"

  • Ricardo Gomes 26-02-2015 (4:44 pm)

    Paulo,
    Em minha opinião, somente quando as instituições endurecerem suas punições quanto a casos de violências, haverá uma diminuição nas ocorrências de violência nas faculdades.
    Mas o que me deixa mais triste é saber que estamos falando de futuros profissionais que irão trabalhar com vidas, que tem como objetivo de sua profissão, cuidar, ajudar, zelar, amparar… com tudo isso, resumo, que o real objetivo da maioria dos estudantes seja trabalhar pelo dinheiro e para o dinheiro.

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