Belgrado, a cidade branca; Por Clara Favilla

25/02/2015 08h35m. Atualizado em 27/02/2015 16h02m

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Belgrado, capital da Sérvia, significa Cidade Branca, nome que lhe foi dado pelos celtas. Assim a vemos hoje. Assim a viram os mais antigos, vindos das planícies ou pelas águas do Danúbio e do Sava. Deuses da guerra permitiram que esses dois rios, que marcam tantas fronteiras, se encontrassem ali, fazendo da região uma das mais estratégicas do mundo, mesmo hoje com toda a tecnologia disponível. Branca e recatada, envolta em brumas no inverno, ou em preguiçosa lascívia, quase transparente sob o sol da primavera ou verão, Belgrado desde sempre acendeu o desejo de quem certamente a amaria para sempre e também o ódio dos que viveriam sob seu jugo.

Quem leu Rei Lear, de Shakespeare, ou viu Ran (Caos) de Kurosawa, nem precisa se dedicar à arqueologia dos fatos, nem descascar as camadas de solo adubadas de sangue, para entender que nada acontece de novo sob o sol. Aliás, nem precisaríamos das obras literárias mais recentes, nos bastaria absorver a sabedoria do Eclesiastes, livro do Antigo Testamento. O teatro mundo é o mesmo. Apenas os atores sucedem-se, em roupagem e armas diferentes, encenando a tragédia eterna da luta entre o bem e o mal disfarçados de religião, etnias ou jogos de domínio territorial. Quase sempre Lúcifer comanda os dois ou os múltiplos lados. E sucedem-se as batalhas de uma guerra previsível e inexorável, de poucas tréguas, travada por legiões de anjos caídos.

Uma das cidades mais antigas da Europa, com uma história documentada nos últimos sete mil anos, Belgrado foi o berço da cultura pré-histórica mais importante do continente: a Vinča, que vigorou de 5500 a 4000 anos AC, nos territórios da atual Bósnia, Sérvia, Romênia e Macedônia. Essa cultura, que já conhecia o uso de metais e minerais, foi batizada de Vinča, graças aos trabalhos arqueológicos no lugarejo com este nome, a 10 quilômetros de cidade, às margens do Danúbio. Escavações feitas, no início do século passado, descobriram vestígios de várias aldeias neolíticas.

Depois dessa pré-história resumida, sabemos que celtas e também romanos fincaram raízes por aquelas paragens e a história continua. O reino e mais tarde o império medieval da Sérvia foi assentado sobre os escombros de lutas fratricidas e assassinatos em família. Tudo sob o comando de uma dinastia de Estevãos, um deles até alçado à condição de santo. Logo os turcos-otomanos passariam por ali desordenando tudo até chegarem às portas de Viena em 1529. O império austro-húngaro, na segunda metade do século 19, também redesenharia a geopolítica da região.

O sonho de uma mesma pátria unindo povos eslavos nasceu e morreu, portanto, muitas vezes. Em 1918, foi a vez do Reino da Iugoslávia ser desmantelado por tropas fascistas e nazistas a caminho da Grécia. O reino cedeu lugar á República Socialista da Iugoslávia, sempre tendo como núcleo a Sérvia. O mosaico foi, então, colado pelo carisma de Tito. Mas não sobreviveu após a morte do marechal, líder da resistência durante a Segunda Guerra. Em 1992 espatifou-se novamente. Essa digressão que fiz sublinha que tantos arranjos e rearranjos fronteiriços, tanto sangue derramado tem a ver com a posição estratégica de uma região com um pé no ocidente e outro quase no oriente.

Belgrado ainda era a capital da Iugoslávia, que permanecia unida, mesmo aos trancos e barrancos, quando estivemos lá em outubro de 1985. Encontramos, alguns anos antes da queda do Muro de Berlim, uma cidade vibrante, de pessoas desfilando beleza no jeito descolado de se vestir e nos cortes de cabelos. Tão diferente dos croatas e eslovenos! As garotas maquiavam-se dando realce ao branco da tez e a pintura colorida dos cabelos. Em alguns momentos achávamos estar naqueles lugares bem descolados de Londres. Nada parecia errado na cidade. Não havia dúvida: a Sérvia “reinava” sobre seus vizinhos. Só não pressentíamos que esse “reinado” estava tão perto do fim.

O atendimento nos hotéis e restaurantes era meio estabanado. Lembro-me do garçom ter dado uma sonora gargalhada quando pedimos gelo para o suco de laranja do café da manhã. Havia chegado à mesa estranhamente quente. “Aqui está o gelo!”. Disse isso, largando os cubos do alto sobre o suco que respingou a toalha toda. Passeamos muito pela Stari Grad, literalmente Cidade Velha, o coração de Belgrado, que concentra considerável parte do patrimônio histórico e cultural da cidade, como o castelo medieval Kalemegdan. No fim da tarde, um enorme formigueiro de gente indo e vindo toma conta das ruas. Muitas livrarias. Numa delas compramos um enorme pôster do Marx, reprodução de um desenho em bico de pena. Nem sei que fim levou!

arquivo pessoal (1)

O Kalemegdan também é o maior parque de Belgrado. O nome é formado por duas palavras turcas: kale (fortaleza ou castelo) e megdan (campo ou planície). Trata-se de de um conjunto arquitetônico com o que restou de construções que contam a história da cidade. Estão ali as muralhas construídas pelos romanos no século I e o forte, erguido no período de Estêvão III, de 1389 e 1427, quando a cidade tornou-se capital da Sérvia pela primeira vez. Também são visíveis as alterações feitas na planta original, por otomanos e também por austríacos. Da muralha, que emoldura a parte da antiga, tem-se panorâmicas privilegiadas de rios, florestas e também da nova Belgrado e seus prédios residenciais, muitos bem parecidos com os da década de 60, que vemos nas superquadras de Brasília. Deixamos nossos olhos mergulharem nas profundezas da paisagem e nos despedimos. Nossa aventura, por essa região de conflitos que nunca cessam, estava apenas começando.

Matheus Leitão

Matheus Leitão é jornalista há 15 anos. Em sua carreira, passou pelas redações do Correio Braziliense, revista Época, portal iG e Folha de S.Paulo. Matheus recebeu o Prêmio Esso por duas vezes, o Troféu Barbosa Lima Sobrinho -- além de menção honrosa no Vladimir Herzog. Entre 2011 e 2012, esteve na Universidade de Berkeley, na California, como Visiting Scholar.

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