O silêncio ensurdecedor de Dilma

25/02/2015 08h11m. Atualizado em 26/02/2015 16h30m

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O silêncio de Dilma Rousseff face aos terríveis desmandos do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, é inaceitável de todas as formas, mas especialmente por vir de uma ex-presa política, torturada por 21 dias em uma ditadura, e que aprendeu da pior forma as mazelas de um regime opressor.

A Venezuela vem perdendo o rumo da democracia há muitos anos. Antes de sua morte, o ex-presidente Hugo Chávez, antecessor de Maduro, já tinha iniciado um grave processo de deterioração dos valores democráticos naquele país.

A perseguição a jornalistas, jornais e emissoras, como a RCTV, fechada após criticar Chávez e apoiar medidas contrárias a ele, além do inaceitável terceiro mandato após uma eleição de cartas marcadas, demonstraram o desejo do Partido Socialista Unido da Venezuela de tirar o país dos trilhos.

Contudo, os últimos capítulos são também assustadores. Ao mandar prender o prefeito de Caracas, o oposicionista Antonio Ledezma, sob a acusação de conspirar para derrubar o seu governo, Maduro mostrou o que já se sabia: ditadores geram ditadores.

A prisão de Ledezma tem alguns tons que lembram o sequestro da presidente Dilma na década de 70. Foi realizada de forma arbitrária, sem direito a defesa e ao contraditório, sem um mandato judicial. O fato é que Chávez gerou Maduro para continuar o processo de cerceamento da liberdade na Venezuela e qualquer pessoa com bom senso percebe os retrocessos políticos no país. Nenhuma política “dos fins justificam os meios” pode aprovar os atos abusivos de Maduro. Nesta terça-feira (24), por exemplo, um jovem de 14 anos que protestava contra o governo foi morto.

Dilma perdeu uma grande oportunidade de se posicionar de forma contrária aos excessos ditatorias do colega presidente, mas preferiu dizer apenas que a prisão de Ledezma era uma “questão interna” do país vizinho.

Há quem diga que a nota divulgada também nesta terça, quando o Itamaraty subiu um pouco o tom frente as ações de Maduro, é um avanço. Discordo. No texto, o ministério das Relações Exteriores de Dilma afirma que “são motivos de crescente atenção medidas tomadas nos últimos dias, que afetam diretamente partidos políticos e representantes democraticamente eleitos” na Venezuela.

As “medidas” são mais que isso, são motivo de repúdio. O governo sequer citou ainda o nome de Ledezma. E a presidente Dilma deveria ser veemente no posicionamento contrário a política praticada nos últimos anos na Venezuela. O silêncio dela tem sido ensurdecedor.

Matheus Leitão

Matheus Leitão é jornalista há 15 anos. Em sua carreira, passou pelas redações do Correio Braziliense, revista Época, portal iG e Folha de S.Paulo. Matheus recebeu o Prêmio Esso por duas vezes, o Troféu Barbosa Lima Sobrinho -- além de menção honrosa no Vladimir Herzog. Entre 2011 e 2012, esteve na Universidade de Berkeley, na California, como Visiting Scholar.

4 Comentários para "O silêncio ensurdecedor de Dilma"

  • José Oliveira 25-02-2015 (11:51 pm)

    Democracia é isso que temos no Brasil?
    Prefiro a ditadura.

  • Deigma Turazi 26-02-2015 (2:38 pm)

    Continue denunciando, Matheus. As autoridades no Brasil estão cegas, surdas e mudas. Sucesso e parabéns. Vou compartilhar seu texto, ok?

  • joao couvert 26-02-2015 (7:16 pm)

    Melhor a Dilma em silencio, pois tudo pode piorar, ela pode por exemplo se comportar como se comportou Lula, quando em sua visita a Cuba, um dissidente havia morrido, ele então o comparou a bandidos de São Paulo. Piada é ela pedir diálogo entre Maduro e a oposição, coisa impossível, uma vez que a oposição está sendo encarcerada. Agora se alguém mexer com um de seus companheiros do foro de São Paulo, então a presidenta esquece da polidez e parte para a porrada, Paraguay que diga.

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