Acordo da Eurozona com a Grécia revela preconceito e desconfiança; Por Sérgio Abranches

22/02/2015 10h31m. Atualizado em 01/03/2015 10h16m

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A Grécia e a Eurozona fecharam acordo às pressas, na sexta-feira (20), estendendo por 4 meses o austero programa de resgate financeiro. Nesse prazo os gregos tentarão formular um plano de reestruturação de sua dívida e caminhos alternativos para manter o superávit fiscal. Os mercados comemoraram. Os negociadores, entretanto, foram comedidos. Decidiram fechar um acordo tão logo o governo Tsipras apresente a lista de reformas que pretende fazer e seu plano para manter o superávit fiscal previsto no acordo original. A tragédia grega não terminou. As escolhas mais difíceis, de parte a parte, não foram feitas. Não há consenso no essencial. A tensão entre a cúpula da Eurozona, sob controle ideológico da Alemanha, principal financiador do programa de resgate europeu, e os gregos persiste. Ainda haverá muitos lances dramáticos no duelo entre a arrogância impertinente e inflexível de Wolfgang Shäuble e a astúcia impotente de Yanis Varoufakis. Em um de seus primeiros confrontos, os dois antagônicos ministros das Finanças mostraram que não falam a mesma linguagem, nem vêem a realidade com as mesmas lentes. Wolfgang Schäuble disse em sua coletiva de imprensa que os dois haviam “concordado em discordar”. Questionado, Varoufakis estocou: “nem sobre discordar concordamos”.

Ao comentar a decisão de fazer um acordo passo a passo, o ministro alemão disse que: “se o programa não for completado com sucesso, não haverá pagamento”. Já Varoufakis entendeu que “conseguimos evitar uma série de vários anos de superávits primários sufocantes, que nossa economia não tem como gerar”. Schäuble disse que “os gregos, com certeza, terão dificuldades para explicar o acordo a seus eleitores”. Varoufakis, vê de outro modo, “nós combinamos respeito pelas regras e respeito pela democracia. Evitamos a visão de que um país pesadamente endividado e em um programa [de resgate] não tenha a possibilidade de argumentar que as eleições podem mudar alguma coisa”. Continuam mundos à parte. No Globo de sábado (21), a jornalista Renata Malkes relata conversa com o economista Tobias Hentze, do Instituto de Pesquisas Econômicas de Colônia, mostrando que esse antagonismo entre os dois ministros tem raízes culturais e históricas profundas. O alemão vê a dívida como culpa a espiar. É certo que há uma clivagem cultural e histórica nítida entre o ministro de personalidade germânica e conservadora e seu indigitado colega grego, cujas atitudes e humor não escondem a alma meridional, mediterrânea. Mas nem tudo se resume ao embate entre alemães apolíneos e gregos dionisíacos.

O ministro grego está sendo tratado como se fosse defensor da destemperança e justificasse a irresponsabilidade fiscal de governos do qual não fazia parte e aos quais seu primeiro-ministro, Alexis Tsipras, sempre se opôs. Os termos desse primeiro e precário estágio do acordo e muitas das declarações das autoridades, resvalam para posturas que hoje seriam condenáveis até em uma diretora de escola para crianças. Uma conhecida prática, de corte colonialista, nas quais governos mais fortes e ricos e suas instituições tratam seus devedores com arrogância, desprezo e desconfiança e lhes impõem fiscais de terceira linha com autoridade para interrogar autoridades de primeiro escalão. O chefe dos fiscais da Troika que farão a revisão das contas gregas terá seguramente menos credenciais acadêmicas e técnicas do que o ministro Varoufakis.

É certo que os governos que antecederam o de Tsipras gastaram além da conta, em boa medida por causa de suas inclinações populistas. É claro que os alemães estão cansados de pagar todas as contas. Mas é fato, também, que houve evidentes desvios de conduta prudencial por parte dos bancos, que empurraram dinheiro barato para financiamentos de riscos, na vertigem recorrente para se livrar do excesso de liquidez. Essa sequência trágica, de largueza irresponsável de todas as partes, pânicos, manias e crashes, tem se repetido com frequência alarmante nessa era de mercados interligados e hegemonia do capital financeiro globalizado. A crise não começou com um default grego, espanhol, português ou irlandês. Começou com o estouro de uma bolha de escandalosa especulação imobiliária em Wall Street, a crise da sub-prime, que tinha ramificações escondidas nos derivativos de derivativos de derivativos, em fluxos que alcançavam boa parte do sistema financeiro e bancário europeu. Nos fluxos de interdependência da especulação financeira e da reciclagem de liquidez, estavam todos os bancos alemães, diga-se de passagem. Quem paga a conta, como lembrou o presidente Obama, ao eclodir a crise, não é Wall Street, é “Main Street”, isto é, o povão.

Haverá novos lances dessa novela de desentendimentos entre conservadores alemães e progressistas gregos. O ministro das Finanças holandês, Jeroen Dijsselbloem, disse que as “negociações foram intensas porque eram para construir a confiança entre nós”. Mas, o maior déficit da discussão foi de confiança. O próprio Dijsselbloem disse, numa espécie de reprimenda preventiva aos gregos, que “esta noite demos o primeiro passo no processo de construir a confiança. Mas… a confiança se perde mais rapidamente do que se ganha”. As atitudes mostram que a Eurozona continua desconfiando da Grécia. Mandaram o fundo de resgate da Eurozona pegar de volta 10,9 bilhões de euros depositados na “facilidade de resgate bancário” da Grécia. Seu desembolso será decidido pela Troika e não mais pelo governo grego. O holandês explicou que “eles ficarão disponíveis para a recapitalização dos bancos e não para financiar governos”.

A análise semântica de todas as declarações sobre a Grécia revelaria uma percepção dos gregos como um país irresponsável, de terceira, que não merece confiança. Preconceito que se agravou no círculo decisório de conservadores, que já viam os gregos dessa forma, e tiveram que negociar com “extremistas de esquerda”. A análise política das negociações revela outra coisa. Um governo de esquerda nada extremista, que faz concessões no limite da confiança de seus eleitores, um país que fez ajuste fiscal doloroso e bem sucedido, chegando à mesa de negociações com superávit em todas as contas fundamentais, porém enfraquecido por dívida gigantesca, que chega a 175% do PIB. Dívida que todos sabem que é impagável e que terá que ser renegociada. A batalha da renegociação começará em quatro meses, quando expirar essa extensão do programa. O primeiro-ministro Tsipras teve que negociar politicamente com as autoridades políticas e financeiras, para pavimentar o acordo. A única concessão que obteve foi uma indefinida flexibilidade no cumprimento das condicionalidades draconianas do acordo que se estende. Não era o que os gregos queriam. Dijsselbloem disse que a Grécia poderá reduzir o superávit exigido pelo acordo original. Mas Schäuble se assegurará de que essa flexibilidade não se dê por meio de uma “imensa liberdade de interpretação”.

O governo grego concedeu para não falir e não se ver forçado a deixar a Europa. Não quer dar razão à extrema direita eurocética de seu país. Conseguiu algum tempo para descobrir o que fazer e montar a “lista completa de medidas de reformas” que lhe é exigida e que atenda, ao mesmo tempo, à limitadíssima interpretação dos alemães sobre os graus de liberdade que terá e as demandas urgentes de seu povo por um relaxamento da austeridade que deixa no desemprego metade de seus jovens. Terá que recorrer a todo o patrimônio da cultura helenista para realizar essa tarefa hercúlea.

Sérgio Abranches

Sérgio Abranches é cientista político, comentarista da CBN e colaborador do blog.

1 Comentário para "Acordo da Eurozona com a Grécia revela preconceito e desconfiança; Por Sérgio Abranches"

  • Marcelo Guterman 22-02-2015 (5:30 pm)

    “Controle ideológico da Alemanha”? Como assim??? Controle financeiro da Alemanha seria o mais adequado. A Grécia rola a sua dívida pela taxa de juros mais baixa do mundo porque está atrelada à “arrogante” Alemanha. Quer fazer política populista com o dinheiro dos outros? Então que arrume outro dinheiro. A Alemanha só está carregando esse fardo porque, ideologicamente (aí sim, a palavra usada corretamente) quer manter o Euro a todo custo, para expiar suas culpas da guerra. Não fosse por isso, já teria abandonado esses fanfarrões há muito tempo.

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