Crônica de Miriam Leitão: Trem Noturno para Leningrado

21/02/2015 08h04m. Atualizado em 24/02/2015 11h31m

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O trem corria atravessando a noite russa. Fora da janela via-se a névoa. Ou nada. “Névoa nada”, diz um poema de Augusto de Campos, que li muitos anos depois. Mas se já o tivesse lido definiria bem aquele pouco ver da janela do trem: “Névoa nada”. Do corredor veio um barulho. Será comigo? Pensei.

Deitada na cama do camarote pensava naquele país destinado a ser misterioso para sempre. Na infância ouvira o Concerto número 1 de Tchaicovsky até quase furar o disco long play. Não fui longe com minha educação musical. Hoje quem me resgata da ignorância é minha irmã caçula Simone, pianista clássica. Dos escritores russos, ficaram mais fortemente Dostoievsky e Tolstoi. Crime e Castigo. Guerra e Paz. Nada de meio tons. Afinal, a Rússia é polar. E trágica. Pensei em Anna Karenina na estação de trem e olhei, amedrontada, os trilhos. O barulho ficou mais forte. Batiam à porta e falavam algo incompreensível. Sim, era comigo. Abrir ou não? Uma amiga me avisara que os funcionários do trem falavam apenas russo. Não esperava aquelas batidas, pois o bilhete fora conferido. Não adiantava perguntar quem era.

Abri a porta. Entrou um russo carregando um bule e uma caneca. Fiz um gesto perguntando se teria que pagar.

– Niet.
– Spaciba – eu disse.

A mesinha, com o bule e a caneca, ficava na janela e eu me sentei na penumbra, para investigar mais o nada lá fora, sorver o meu chá e me certificar de que nunca entenderia a Rússia. Seria para sempre uma névoa espessa. O tempo em que fantasiara lendo os textos revolucionários e acreditando naquele sistema ficara no passado. Era o ano de 1988 e eu tinha tomado uma decisão curiosa. Passar um mês viajando pelos Estados Unidos e, em seguida, algumas semanas em Moscou. As duas viagens foram a trabalho. Ali eu tinha chegado com um grupo de jornalistas para ver alguns sinais de que o capitalismo estava começando a desembarcar no país. Era a perestroika e a glasnost. O começo do fim da União Soviética. Um novo começo?

Naquele fim de semana, sozinha, deixei Moscou e fui para Leningrado. Este ainda era o nome da cidade. Eu estava, portanto, no Trem Noturno para Leningrado três anos antes de a cidade voltar ao nome original de São Petersburgo.

Li, há cinco anos, “Trem Noturno para Lisboa”, de Pascal Mercier. Lindo. O autor não se chama Pascal Mercier, mas sim Peter Bieri, filósofo alemão. Usa pseudônimo. O personagem principal do romance, Raimundo Gregorius, professor de línguas clássicas em Berna, no meio de uma aula, a mesma que ele dera por trinta monótonos anos, levanta-se e vai embora sem olhar para trás. Toma o trem para Lisboa, onde se fala um idioma que ele ainda não domina mas que soa musical aos seus ouvidos. Apaixona-se pela língua, por um livro e por um mistério. Vendeu dois milhões de exemplares no mundo.

Bom, mas isso de escrever crônica parece trem desgovernado. Quem escreve se sente tão livre que se deixa levar por qualquer trilho para qualquer lugar. Como Gregorius na sua busca por algo difuso e indefinível. Eu também fugia naquele fim de semana. Fugia da hiperinflação brasileira, fugia da irracionalidade soviética que vira em Moscou, fugia em busca de algum sentido para os meus amores perdidos. Juntos eles eram um quebra cabeças desencaixado. Investigava minhas lembranças atrás do ponto em que os perdia. Decidi pensar, em vez de ler, e ficar acordada no escuro, na noite russa, como num intervalo fora do tempo. Pensei muito, enquanto o trem vencia a distância e atravessava a noite no caminho entre Moscou e Leningrado.

Foi desembarcar e ver que o velho nome é que fazia sentido para a cidade com ar europeu e imperial.

– Pode me chamar de Maria – me disse em espanhol a intérprete, uma bela moça russa, quando desci na estação de trem.
– Onde aprendeu espanhol tão perfeito?
– Em Cuba. Morei lá quatro anos. Eu amo a América Latina, estudo português, quero morar na América Latina.

Cabelos compridos e lisos, de um castanho claro, quase louro, Maria traduzia tudo em volta. Os castelos à beira do rio Neva. O de mármore rosa do Conde Orlov, um dos amantes de Catarina. No Hermitage, horas andando pelas salas, o susto quando Pedro, o Grande, se mexeu. Um truque mecânico. O quarto de Catarina, com uma mesa que podia descer para a cozinha, ser servida e voltar ao quarto sem que ninguém tivesse que entrar, atrapalhando os romances. Abria-se abaixo da mesa um buraco redondo, um alçapão, e a mesa descia e voltava servida. Grande Catarina.

Na volta a Moscou tirei um dia para visitar as igrejas do Kremlin e apreciar a beleza da arte mosaica. O Kremlin não é um palácio de governo, é uma fortaleza com uma sequência de igrejas. Na Praça Vermelha, fiz fila para olhar Lenin. Não parecia um morto. Lembrava um boneco de cera. Na saída do mausoléu, murmurei uma despedida. Algo como “Adeus Lênin”. Estava claro que aqueles eram os últimos dias soviéticos.

Voltei para o Brasil sem olhar para trás. Sabia que algo desmoronava, virava névoa, nada. O que entendi, só depois, é que o país não tomava o trem para o futuro. Voltava ao czarismo. Como farsa. De tudo o que vi naquele mundo poente, ficou mais forte a lembrança agradável do trem noturno, no qual entendi que amores perdidos ficam no tempo. Como as estações de uma viagem através da névoa.

Miriam Leitão

Miriam Leitão, jornalista e escritora, escreve crônicas como colaboradora do blog.

3 Comentários para "Crônica de Miriam Leitão: Trem Noturno para Leningrado"

  • Luigi 21-02-2015 (10:53 pm)

    Belíssimo … Obrigado Miriam Leitão.

  • Constancio Viana 22-02-2015 (1:16 am)

    Interessante ler neste texto a citação do livro “Trem Noturno para Lisboa” que foi o mesmo que li em uma viagem para a África do Sul em 2010 e onde fiquei por quase 2 anos.

  • Miriam Leitao 22-02-2015 (11:06 pm)

    Luigi. Obrigada por ler e comentar.

    Constancio, foi em 2010 que li também
    Abraços miriam

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