Rafale, 27 anos à caça… de comprador. Por Pierre Pichoff

20/02/2015 20h53m. Atualizado em 23/02/2015 15h20m

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Não se conhece um avião de combate que tenha apanhado tanto no mercado como o Rafale. Em 27 anos de história, não lhe faltaram críticas. Preço altíssimo ou até o fato de ser sofisticado demais…
O Rafale foi se tornando ao longo dos anos um assunto de brincadeira no mundo dos negócios. A verdade é que, com seis fracassos seguidos, em quinze anos de tentativas de exportação, uma delas com o Brasil, a história do Rafale virou, no mínimo, um folclore do azar, com um aparelho concebido pela reputada Dassault Aviation.
Tudo começou, em 1988, com o lançamento do projeto do avião. A expectativa era que o Rafale alcançasse o mesmo prestígio mundial que o Concorde, TGV ou ainda dos reatores nucleares franceses. O insucesso de seu exportação foi uma surpresa inesperada. O caça estava fazendo a demonstração da sua habilidade na Guerra da Líbia, Mali e no Iraque.
O problema do caça Rafale não foi um problema de concepção, mas de política. A ideia do Rafale nasceu de um desejo da Europa, nos anos 1980, para preparar um herdeiro de dois outros aviões: o britânico Tornado e o francês Mirage 2000.
O que era para ser um objetivo comum de diversos países europeus, já se tornou uma disputa de opiniões na sua concepção. Os franceses queriam criar um avião de combate polivalente para lutar no ar, na terra e no mar. Enquanto os britânicos, alemães e italianos desejavam um avião para lutar somente contra outros aviões no ar.
O golpe que rompeu definitivamente as relações entre os países que o conceberiam conjuntamente foi a discussão sobre o motor, em agosto de 1985. Os britânicos queriam usar um motor Rolls-Royes, enquanto os franceses desejavam que o motor viesse do Snecma. Nenhuma saída foi encontrada, e, infelizmente, cada um desses países voltaram para seus projetos nacionais.
O projeto Rafale foi oficialmente iniciado no 21 de Abril de 1988 para entrar em serviço oito anos depois, em 1996. O primeiro voo do protótipo aconteceu 19 de Maio de 1991. O voo foi um show espetacular, a euforia estava do lado da França e o mundo esqueceu o desapontamento inicial. Por isso, o estado francês estimou que precisaria de 320 aparelhos para substituir os aviões da Marinha e da Aeronáutica.
Por uma questão orçamentária, os Rafales sofreram dez anos de atraso. Somente em 2006 os primeiros aviões foram entregues. Os 320 aviões previstos viraram 225, em 2013.
Mas isso não explica o motivo do fracasso do Rafale no seu programa de exportação, o segundo objetivo da Dassault Aviation.
Desde 2000, a cada competição internacional de apresentação que participava, o Rafale, embora apresentasse a melhor técnica, era preterido na hora da compra por seus concorrentes. O Rafale tinha apenas um defeito que podia explicar seu fracasso: nunca um avião de combate foi vendido antes de entrar em serviço pelo exército do seu país.
Nicolas Sarkozy levou o assunto Rafale a sério. Ele criou uma «War Room» no palácio presidencial em Paris. Desse modo conseguiu pré-contratos com os Emirados Árabes (60 aviões) e com o Brasil (36 aviões). Mas, na hora de fechar o negócio, o Brasil preferiu os aparelhos dos concorrentes e os Emirados Árabes decidiram cancelar a compra de última hora.
A ausência de contratos para a exportação do Rafale será muito difícil para a França. No período de 2014 até 2019, somente 26 aviões serão destinados para a França no total de 66 aviões que serão produzidos. O governo francês terá a difícil tarefa de encontrar clientes para os 40 restantes.
Na última segunda-feira (16), o Egito assinou o contrato de compra 24 caças Rafale. Será desta vez para valer?

Pierre Pichoff

Formado como piloto comercial de avião, Pierre Pichoff mora em Caen, na Normandia, França. Ele é o diretor de uma empresa de turismo, a "Descobrindo a Normandia", que oferece passeios personalizados sobre a história da Segunda Guerra Mundial na Normandia, além de Paris e outros roteiros na França.

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