Croácia – Felicidade e estranhamento em Zagreb dourada pelo outono; Por Clara Favilla

17/02/2015 08h16m. Atualizado em 25/02/2015 08h37m

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Depois do calor que passamos na Espanha, França e Itália, um friozinho ameno e dias ensolarados nos esperavam na Eslovênia e depois na Croácia. De repente, éramos absurdamente felizes em meio a carvalhos dourados e castanheiras do encantador Parque Maksimir, o cinturão verde que envolve o centro da capital croata, Zagreb. Havia, em alguns pontos, barraquinhas de artesanato e comprei um quadrinho com estampa do anjo-da-guarda e criancinha. Dessas que vemos em livros de catecismo. A simbologia católica romana começava a mostrar-se recorrente na cidade e passamos a ter uma ideia mais precisa do ingrediente religião que faz o horror de tempos em tempos vigorar na península balcânica, tantas vezes definida em textos históricos e jornalísticos como barril de pólvora.

Era outono de 1985, e zaranzávamos por Zagreb em intermináveis caminhadas. Cruzávamos por gente bem vestida e bonita. No comércio, podíamos encontrar todas as marcas ocidentais conhecidas. A figura pública de Tito, falecido há três anos e enterrado em clima de comoção acompanhada pelo mundo inteiro, parecia ainda inabalável. Tito, de pai croata e mãe eslovena, havia comandado, sem ajuda aliada, a resistência aos nazistas, e implantado, em seguida, um modelo socialista independente de Stalin e sucessores. Quase nada sabíamos, então, do “gulag” estabelecido na ilha adriática de Goli Otok para onde foram continuamente enviados milhares de dissidentes políticos, desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Estima-se em 400 os que sucumbiram aos trabalhos forçados. Esse destino prisional, prestes hoje a se tornar um complexo turístico, continuou vigorando até 1988, seis anos após à morte de Tito. Foi completamente desativado e abandonado em 1999.

Arquivo Pessoal - Clara Favilla

Arquivo Pessoal – Clara Favilla

Achamos estranho ver bares e cafés frequentados quase que exclusivamente por homens, a maioria jovens. Fica difícil sustentar qualquer estado de felicidade se, durante o almoço, acontecem batidas e não daquelas feitas por policiais, mas por agrupamentos militares armados. Pediam documentos, não de forma aleatória, mas focando pessoas específicas que deveriam, por alguma razão, explicar porque estavam ali. Muitas vezes, as explicações dadas eram bastante questionadas. Não vimos ninguém ser preso, mas é difícil emendar um papo depois de se testemunhar revistas e interrogatórios, mesmo que rápidos. Assistíamos toda essa operação intimidatória com a sensação de que éramos invisíveis. Não fomos abordados nem para pedidos de apresentação de passaportes.

No Brasil, ainda não havíamos saído da ditadura e essa movimentação militar ostensiva nos deixou abalados. Alguma coisa de muito errado acontecia ali. E imediatamente nos ficou clara o que impedia, temporariamente, de ferver e explodir o caldeirão de tantas etnias e religiões: a força. Mas, o fato de estarmos em férias e também as lindezas da Croácia dissiparam rapidamente possíveis pensamento premonitórios de repetição de histórias de horror vividas pela região através dos séculos. Parecia-nos impossível que fantasmas de épocas mais recentes, da década de 40, estariam já reencarnados poucos anos depois de nossa passagem por lá. Em 10 de abril de 1941, Zagreb recebeu em festa as tropas nazistas. A Ustasa, organização fascista e terrorista croata, viu, no apoio de Hitler e Mussolini , a oportunidade de se estabelecer hegemônica. Os registros mais cautelosos dão conta de um genocídio que alcançou pelo menos 500 mil pessoas, a maioria sérvios, mas também judeus, ciganos e albaneses. Há informações mais contundentes de que as vítimas podem ter chegado a um milhão. Deste total, 700 mil sérvios. Uma limpeza étnica e religiosa não devidamente ressaltada pelo Ocidente.

Na primeira metade da década de 90, seriam os sérvios os acusados do genocídio que deixou pelo menos 200 mil mortos. Com o esfacelamento da Iugoslávia, em 1991, uma onda nacionalista e também de cunho religioso realimentou antigos ressentimentos e desejos de redefinição geopolítica. Sérvios cristãos ortodoxos disputaram espaço e poder com bósnios muçulmanos . Os croatas católicos romanos entraram no conflito do lado dos bósnios dos quais tiveram apoio contra os sérvios, durante a ocupação nazista. O conflito foi marcada pelo Massacre de Srebrenica: em julho de 1995, 8.373 bósnios muçulmanos foram assassinados por comandos sérvios, inclusive paramilitares. O maior assassinato em massa, na Europa, desde o holocausto judeu. Prenúncios dessa tragédia nos chegou dez anos antes na forma de estranhamentos e apertos no coração. Não fomos bons decifradores de sinais.

Clara Favilla

Clara Favilla é jornalista. "Mais do que conhecer novos lugares, amo retornar. Reportariar é meu ofício. Vivo viajando, até pela quadra onde moro, em Brasília. Escreverei sobre viagens aqui. Serão impressões pessoais,mais do que guias. Espero que gostem, deem retorno e sugestões."

1 Comentário para "Croácia - Felicidade e estranhamento em Zagreb dourada pelo outono; Por Clara Favilla"

  • Marlene 17-02-2015 (9:02 am)

    Muito bom! Conheço tantos paises, vivi em outros tantos, mas falta esse que agora entrou na minga lusta.
    Durante a leitura voltei no tempo, em 1985 acabava de chegar a Berlim para ficar , foram tres anos convivendo com uma cidade dividida. Jamais se poderia imaginar a caída do muro. Quando caiu, fiquei inerte, sem entender nada e sem saber onde estava….

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