Iugoslávia – Viagem a um mundo que se desmoronava; Por Clara Favilla

13/02/2015 11h58m. Atualizado em 14/02/2015 07h15m

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Em outubro de 1985, o mosaico colorido, integrado pelos países vistos na ilustração acima, sustentava-se já a trancos e barrancos. A cola, representada pela utopia socialista independente de Moscou, encarnada por Tito e aliados, desfazia-se pra valer a partir da morte do marechal, em 1980. Era mesmo estranho que diversos povos de etnias, costumes e religiões tão diferentes, vivessem sob um nome que remetia apenas aos eslavos e católicos ortodoxos. Yug significa sul e Yugoslávia pode ser traduzida por Eslavos do Sul.

Além dos tremores internos, também sopravam novos ventos da União Soviética. E em novembro de 1989, cairia o Muro de Berlim. A senha estava dada para um novo reordenamento do mapa desenhado depois do término da Segunda Guerra Mundial, em 1945, e sustentado por anos de Cortina de Guerra Fria. Olhando para trás, não sei exatamente o que nos moveu em direção aos países do Leste. Nós, quatro adultos (três jornalistas, uma economista) e uma criança de quase dois anos. Só consigo me apegar à explicação de que era um misto de curiosidade genuína e boas doses de ingenuidade. Acompanhávamos as mudanças que aconteciam do outro lado da tal Cortina de Ferro. Mas não tínhamos ideia que seriam tão rápidas e que estávamos ali para dizer adeus, não a um mundo de faz-de-conta baseado na retórica de igualdade e fraternidade, mas as nossas próprias ilusões, crenças e esperanças.

O primeiro país do leste europeu que visitaríamos seria a Iugoslávia. Cortaríamos o país ao meio e chegaríamos à Grécia pra retornar pela Bulgária, Romênia, Hungria, Checoslováquia. Entraríamos , então, na Alemanha Ocidental e de lá seguiríamos para Holanda, Bélgica e França. Entregaríamos o carro, alugado em Perpignan (Catalunha francesa), em Paris. Dois meses de viagem bem planejada porque eram necessários vistos, concedidos com demora e burocracia. E assim, depois de alguns dias no norte da Itália, saímos de Veneza em direção à fronteira. Nossa porta de entrada para a Iugoslávia seria a Eslovênia, menor que Sergipe. Tem apenas 20.273 quilômetros quadrados.

Estávamos felizes e ansiosos para entrar no paraíso socialista depois de sermos tão explorados pelos capitalistas espanhóis, franceses e italianos, na primeira etapa da viagem. Como já era noite, resolvemos fazer uma parada estratégica depois do posto de controle, num hotelzinho bem simpático. Ficamos, logo em seguida ao registro na recepção, no restaurante anexo, onde pessoas de todas as idades, inclusive crianças, se confraternizavam, ao som de uma música bem barulhenta ao vivo. Sentamos, comemos e ninguém nos deu a mínima bola. Fomos atendidos com bastante displicência.

Estávamos cansados e resolvemos nos recolher. Quando procurávamos nossos quartos, dezenas de soldados chegaram ao mesmo tempo ao hotel. E algum deles foram bem desrespeitosos conosco. Achei bastante estranho esse tipo de recepção, mas nada que estragasse o nosso humor. “São jovens, estão bêbados”, pensamos. Pela manhã, já estaríamos apaixonados pela Eslovênia. Pequenas cidades se sucediam entre morros e planícies, sempre com uma torre de igreja a despontar no horizonte. Casas branquinhas. Pensei estar no meu sul de Minas, só que mais arrumadinho.

Clara Favilla - Arquivo Pessoal

Clara Favilla – Arquivo Pessoal

Perto do almoço, já estávamos na Croácia e a paisagem não mudara. Nosso destino, naquele dia era Zagreb, a capital. Estávamos tão encantados que resolvemos parar para fotografias. Mal acabamos a sessão de fotos, policiais rodoviários nos abordaram e nos disseram que era infração grave parar na estrada (mesmo ela estando completamente deserta) e que seríamos multados numa quantia que nos pareceu bastante exorbitante.

O que fazer? Conseguimos nos comunicar o suficiente em italiano e inglês para solicitar que fizessem o auto de infração e nos informassem onde poderia ser paga a multa. Fomos informados, então, que o pagamento teria que ser em dólares e diretamente a eles, sem auto de infração e sem recibo. Questionamos, insistimos que queríamos a indicação do local onde o pagamento poderia ser feito. Eles nos apontaram as armas e disseram que ninguém sairia dali sem lhes passar os dólares porque era domingo e não havia local aberto para o pagamento. Depois desse episódio, começamos a entender que a nossa viagem poderia ser bem diferente da que havíamos sonhado. E pressentimos que o achaque sofrido na estrada deserta seria apenas o primeiro dos choques de realidade que sofreríamos.

Matheus Leitão

Matheus Leitão é jornalista há 15 anos. Em sua carreira, passou pelas redações do Correio Braziliense, revista Época, portal iG e Folha de S.Paulo. Matheus recebeu o Prêmio Esso por duas vezes, o Troféu Barbosa Lima Sobrinho -- além de menção honrosa no Vladimir Herzog. Entre 2011 e 2012, esteve na Universidade de Berkeley, na California, como Visiting Scholar.

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