Grécia precisa da Europa; Por Sérgio Abranches

01/02/2015 10h25m. Atualizado em 03/02/2015 07h53m

CompartilheShare on Google+Tweet about this on TwitterShare on FacebookShare on RedditShare on VK

Quando o recém-empossado primeiro-ministro da Grécia, Alexis Tsipras (foto), nomeou uma equipe econômica capaz de enfrentar o déficit público, reconheceu que a moratória, seria pior para seu país, do que para a Europa. Suas primeiras atitudes mostram que sua agressiva campanha contra a austeridade será calibrada pelo realismo, sem abrir mão de certos princípios que seu grupo considera inegociáveis. Espera-se uma política econômica mais criativa, com cortes seletivos, abandonando-se o tradicional e regressivo recurso a cortes lineares em todos os gastos. Em lugar de cortes de verbas da rede de proteção social, imagina-se que fará o controle do déficit mais pelo lado da receita, aumentando impostos e combatendo a evasão e a sonegação. É verdade que são muitos os que não pagam impostos na Grécia. Será preciso ampliar a base de contribuintes e, para fazer isso, pelo menos a parte alta da classe média inevitavelmente será convocada a contribuir mais. Mas, é pouco provável que apenas reduzir a sonegação e a evasão seja suficiente. Provavelmente o governo terá que fazer outros ajustes e buscar a redução do ônus da dívida, por meio de uma renegociação que deverá ser muito dura e de resultado incerto.

Paul Krugman, um ácido crítico das ortodoxias do mercado financeiro globalizado, festejou a vitória do Syriza, mas lamentou que não seja mais radical. Mas, pelo menos Tsipras é muito mais realista do que a Troika, disse Krugman. Krugman tem exagerado nas críticas a ajustes fiscais. Mas ele tem razão em um ponto crucial. As fórmulas do mercado são padronizadas, não levam em consideração as especificidades locais, não dão margem a que se enfrente de forma inteligente os problemas de dívida pública e déficit fiscal. O mercado celebra todo corte drástico e linear (across the board) nos gastos, independentemente, de sua inteligência estratégica e, principalmente de seus custos sociais. Os financistas acreditam piamente na fórmula fria e reacionária do “no pain, no gain”. Também pouco se importam se a gastança e o endividamento foram incentivados pelo próprio mercado e pela leniência dos bancos, nos períodos de grande liquidez financeira internacional. Krugman tem razão de sobra ao insistir que se deve buscar formas mais inteligentes e socialmente mais justas de equacionar dívidas e déficits. Eliminando velhos e inoperantes subsídios que nunca são revistos porque são firmemente defendidos por interesses especiais, com enorme força nos parlamentos, nos Executivos e no próprio mercado, por exemplo. Esses ajustes padrão têm frequentemente piorado o quadro, aumentando a recessão e tornando ainda mais doloroso o equilíbrio fiscal. Ajustes inteligentes, permitiriam atualizar a agenda do gasto público, emagrecendo-o onde só faz enriquecer os ricos, evitando que empobreça ainda mais os pobres. Krugman reconhece, todavia, que não está claro o que o novo governo grego poderia fazer para obter forte recuperação da economia e reestruturar sua dívida, sem deixar a Europa. Uma decisão para a qual o povo grego ainda não está preparado.

É mais grave do que isso. A Grécia não tem futuro fora da Europa. Sua rede de proteção social foi ajustada aos mínimos europeus por ser membro da União Europeia. A mobilidade alcançada pelos gregos dentro da Europa, ao se tornarem cidadãos da UE, lhes dá alguns graus de liberdade a mais, dos quais não podem abrir mão, ainda mais em um cenário de crise doméstica grave. Já a Europa não parece mais vulnerável à saída da Grécia. Isso seria verdade meses atrás, quando uma vitória do Syriza, partido de Tsipras, não estava no curto campo de visão do mercado. Ao entrar na mira do mercado financeiro globalizado, ele foi imediatamente absorvido. O mercado já “precificou” um possível calote grego e mesmo seu desligamento da UE e protegeu-se desses “riscos”. Ele tem enorme agilidade para se prevenir contra as políticas dos governos.

Foi o que disse o ministro de Assuntos Econômicos e Energia da Alemanha, Sigmar Gabriel, em coletiva à imprensa em Davos, segundo a Reuters Latam. “Não temos mais risco de contágio [por causa das preocupações com o novo governo grego], como tivemos há dois anos. [A situação] é claramente melhor”, disse. O ministro das Finanças da Alemanha, Wolfgang Schaeuble, deixou claro, porém, que a Grécia dificilmente conseguirá o que quer: “não aceitamos qualquer” argumento sobre redução da dívida e é muito difícil nos chantagear”. A chanceler alemã, Angela Merkel, disse que a “Europa continuará solidária com a Grécia”, desde que ela “continue a fazer reformas e esforço de poupança”. O ministro das Finanças da Grécia, Yanis Varoufakis (veja o perfil dele por Clara Favilla para o blog) não parece estressado com as dificuldades e os recados meio desaforados. Responde aos críticos e à imprensa pelo Twitter (@yanisvaroufakis) sempre com bom humor.

Por exemplo, ao New York Times, que disse que ele mudara para uma atitude mais moderada, ele respondeu no Twitter, em inglês: “Estou enviando uma “mensagem mais moderada”? Na verdade não. Eu sempre emiti ‘propostas modestas’. Esse link remete a seu blog e ao artigo que escreveu com o ex-membro do parlamento inglês pelo partido trabalhista, Stuart Holland, e com James Galbraith, ambos economistas progressistas. Em outro tuíte, recomendou esse artigo, dedicando-o aos “críticos que me retratam difamatoriamente como ‘anti-alemão’: a Europa precisa de uma Alemanha hegemônica”. Respondendo a Wolfgang Munchau (@EuroBriefing), colunista do Financial Times e do Der Spiegel tuitou “Caro @EuroBriefing um esclarecimento importante: Eu nunca disse que a Alemanha vai pagar de novo. Eu disse que ela já pagou demais. Tempo de repensar.” Por Alemanha hegemônica, contudo, ele quer dizer independente da ortodoxia que considera imposta pelo EUA. Mas o fato é que o mercado tem tratado duramente os papéis gregos desde que Tsipras assumiu, mas preservando as bolsas europeias. Ele reagiu ao imediatismo do mercado dizendo que “a deliberação com nossos parceiros europeus só começou”. “Apesar das diferenças de perspectiva, estou absolutamente confiante de que alcançaremos um acordo mutuamente benéfico, tanto para a Grécia, quanto para a Europa como um todo.”

Politicamente, Tsipras e Varoufakis enfrentam um quadro delicado. As negociações com os Europeus, leia-se Alemanha, estão em impasse, o que os diplomatas classificam como “francas e construtivas”. Internamente, sua margem de manobra política é pequena. Apesar da vitória expressiva, sua maioria é precária. Assumiu com expectativas muito além do que poderá satisfazer. Ele depende do apoio popular, que depende do desempenho econômico de seu governo. O sistema eleitoral grego distribui cadeiras desproporcionalmente em relação à participação nos votos. Ou seja, sua maioria social é menor que sua maioria parlamentar. O Syriza, seu partido, obteve 36% dos votos, que lhe deram 149 de 300 cadeiras no parlamento, 49,7%. Além disso, é um condomínio heterogêneo que hospeda facções trotskistas, ex-eurocomunistas, grupos do movimento feminista, verdes e social-democratas. O partido com o qual Tsipras escolheu se aliar, Gregos Independentes, é igualmente uma formação heterogênea e precária, ultranacionalista e que conta com facções antiglobalização e contrárias à União Europeia. Teve menos de 4,7% dos votos. Para a Grécia sair do pesadelo, uma expressão de Krugman, vai ser preciso muita criatividade, muita diplomacia e muita sorte. Sem alívio econômico, Tsipras pode perder apoio interno. A Europa poderia perder a Grécia com exigências que Tsipras não teria condições de atender. Posto no corner pela Alemanha e pressionado por seus eleitores em casa, Tsipras seria forçado a romper negociações. A moratória se tornaria inevitável e, com ela, a Grécia provavelmente deixaria a Europa. Os conservadores culpariam o governo Tsipras e a irresponsabilidade mediterrânea dos gregos. Mas ela seria, de fato, resultado da inflexibilidade ortodoxa da Troika e da Alemanha.

Sérgio Abranches

Sérgio Abranches é cientista político, comentarista da CBN e colaborador do blog.

    Comente

    O autor do blog não se responsabiliza pelo comentário.