Miriam Leitão: Se essa rua fosse minha

31/01/2015 10h15m. Atualizado em 02/02/2015 16h32m

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O taxi vencia devagar a subida da Marquês de São Vicente na Gávea, um trecho de medidos 1.500 metros. Liguei para o jornal e comecei a falar com o jornalista que trabalha comigo.
– Oi, estava no estúdio, gravando. Fiquei offline. Aconteceu alguma coisa?
– Sim, aconteceu, deu déficit primário…
– Quanto?
Silêncio.
Reclamei com o motorista.
– Esses telefones celulares estão cada vez piores, não?
Ele não respondeu. Estava mais interessado na notícia do rádio de que faltara luz no centro e os sinais tinham parado de funcionar.
– O trânsito deve ter dado um nó. Nem vou lá – disse.
Liguei de novo para o jornal:
– Esses celulares! Você falava do déficit. Deu quanto? 20 bi?
– O acima da linha um pouco menos, mas o abaixo da linha …. Silêncio.
_ Ai …de novo, não! – desabafei com o motorista, que continuava me ignorando.
Ele aumentou o som do rádio: “Falta luz também numa parte da Barra e em Jacarepaguá”, informou a repórter.
No jargão das contas públicas é assim: o Banco Central faz as contas de um jeito e chama isso de abaixo da linha e o Tesouro chama a sua conta de acima da linha. As duas linhas despencaram em 2014. A minha linha telefônica também. Modo antigo de dizer, celular não tem linha. Tem conexão. Tinha. Tentei de novo.
– Caramba, não pode ser, essas empresas de telefonia, cara. O que está acontecendo? Falta luz, água está pouca, celular não funciona e esse calorão de fim de mundo.
– É…
– Alô? Você está ouvindo?
Silêncio.
Chegamos ao posto de gasolina e, a partir dali, a Marquês de São Vicente faz uma curva e sobe para a estrada da Gávea. Neste ponto eu tenho que entrar na minha pequena rua. Aviso ao motorista que ele deve seguir em frente.
– Por aqui? Mas o que está acontecendo com essa rua? Não era tranquila?
– Era, era sim. Um dia foi. Por isso eu me mudei pra cá – lamentei.
Outro dia, às seis da manhã, quando saía para o trabalho, resolvi contar quantos eram. Exatos 31 caminhões caçambas enfileirados, encostados no meio fio, nas duas mãos do meu quarteirão, deixando um espaço estreitíssimo para os carros.
Agora estava ali parada. Tudo engarrafado às 11 da manhã. A placa de que é proibido estacionar nessa rua veículo de mais de duas toneladas está coberta por um bloquinho da empreiteira que privatizou minha rua.
Melhor dizer grilou.

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Placa de proibido estacionar veículo de mais de duas toneladas está coberta por um bloquinho da empreiteira (Foto: Sérgio Abranches)

 

A rua foi transformada pela empreiteira que faz a linha 4 do metrô na sua garagem, pátio de manobras e, em alguns momentos, em local para betoneiras fazerem concreto.
Você que me lê pode pensar que reclamo à toa. Afinal tudo isso é para o bem de todos e felicidade geral da Nação. E ademais, o Rio inteiro está em obras. Mas eu não deixo de sonhar com uma cidade melhor. Nela, a prefeitura e o estado mandariam uma cartinha carinhosa para os moradores avisando que durante um tempo teríamos transtornos, mas tudo era para melhorar a mobilidade urbana. E dessem um número de telefone para reclamações dos excessos da empreiteira provisoriamente ocupando a rua.
E eu, então, contaria dos motoristas que começam a conversar aos gritos às seis da manhã. Informaria que no ponto em que a rua faz a curva, eles emparelham dois caminhões caçamba, de tal forma que ninguém vê se vem carro lá de cima, fazendo a curva. Já vi casos de risco de atropelamento. Que eles ligam todos os motores às vezes na tarde de sábado. E que já os vi lavando os carros, aqui mesmo, como se fosse um Lava Jato. Ops! Melhor nem falar de Lava Jato.
A minha cartinha ideal começaria assim: “Caro munícipe, sabemos aqui na prefeitura que você paga um alto IPTU e não é para morar em frente a uma garagem de caminhões de obra. Tenha paciência, é para o bem coletivo. Mas estamos fiscalizando as empreiteiras. Existem regras de conduta. Vocês serão ouvidos. Qualquer incômodo excessivo deve ser relatado à prefeitura ou ao governo do Estado que contratou as obras.”
Nesse mundo de sonhos, em que o cidadão seria respeitado, os moradores receberiam também uma correio elegante do governo do estado, que contratou as obras, avisando sobre o tempo exato que teríamos que suportar tal tormento.
Mas eu moro no Brasil, Rio de Janeiro. Aqui devemos pagar muitos impostos. Muitos. Cada vez mais altos. Suportar tudo, nada reclamar. Governos podem roubar, acima e abaixo da linha, saindo completamente da linha. Empreiteiras podem até afundar a Petrobras por que não poderiam infernizar uma pequena rua da Gávea? Reclamo de insignificâncias.
– Que bagunça essa rua. Perdi muito tempo nesse pedacinho. O centro deve estar um inferno com a falta de luz, a Barra também. Vou pra casa. Chega por hoje – avisa o motorista.
Ligo para o jornal de novo, quarta tentativa, agora do velho telefone fixo. Eu iria dizer ao meu colega que estava na minha rua. Mas será minha, e dos meus vizinhos, a rua onde moramos?
Agora, quando me perguntarem onde moro, vou dizer:
– Moro na rua do estacionamento de caçambas e betoneiras da empreiteira da linha 4 do metrô no alto da Gávea.
E me acostumarei com os novos donos da rua se, pelo menos, houver luz e água neste tórrido verão de 2015.

Miriam Leitão

Miriam Leitão, jornalista e escritora, escreve crônicas como colaboradora do blog.

1 Comentário para "Miriam Leitão: Se essa rua fosse minha"

  • Homero Gottberg Fagundes 31-01-2015 (9:27 pm)

    Minha linda, hoje que entendemos um pouco de Keynes, que mencionou algo de positivo nos déficits, digo-lhe que continue como valquíria. Estou aqui com minha noiva em Osasco, SP, tantas crianças ao nosso redor nessa lan house… precisamos continuar estudando a ciência econômica. Dois beijos, Homero e Claudia

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