Lembranças da Grécia – Em Náuplia, colhendo cachos de uva-passa; Por Clara Favilla

27/01/2015 09h34m. Atualizado em 29/01/2015 07h19m

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Para mim, boas lembranças de viagens são feitas de luz, cores, aromas e aconchegos que vivemos aqui, ali e acolá. Digo isso porque muitas vezes faço também grandes viagens da minha casa até o trabalho, poucos quilômetros de pura poesia e encantamento com variações segundo a música do momento no rádio enquanto dirijo ou a visão daquela árvore florida que consegui só então notar.

Mesmo no nosso caminho de todos os dias há sempre uma primeira vez para aquele pássaro (seria uma gavião?), aquele garoto bonito de bicicleta, o ipê amarelo que resolveu florescer antes do rosa, uma revolução na ordem das cores invernais do cerrado. Vou abstê-los aqui das más lembranças dessas pequenas viagens cotidianas. Mas tenho pra mim que, com o passar do tempo, qualquer viagem é boa, até as ruins.

O noticiário sobre as eleições na Grécia e os percalços econômico que o país enfrenta há anos fazem meu pensamento divagar até a pequena cidade de Nauplia, Naufplion em grego, capital do município de Argólida, na península do Peloponeso, que depois da construção do Canal de Corinto, virou praticamente uma grande ilha.

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Nauplia foi brevemente, de 1829 a 1834, a primeira capital da Grécia moderna, enfim independente dos turcos. A periferia pode ser caótica, mas a parte antiga, debruçada sobre o mar turquesa, esmeralda e de todas essas cores de belas e infinitas profundezas, é encantadora. A promonade de Nafplia está repleta de restaurantes, lojas, cafés, belos prédios antigos, hotéis e uma praia que pode ser percorrida em dez minutos. A herança veneziana se traduz no pavimento de mármore de várias de suas charmosas ruas e vielas.

O nome da cidade é em homenagem ao seu fundador que, segundo a lenda, foi Nafplio, filho de Poseidon. Fica aos pés da fortaleza Palamidi, também chamada de palácio, construída por venezianos, no século XIII e mais tarde ocupada por turcos. São 999 degraus para se alcançar o topo. Fizemos esse passeio numa maravilhosa tarde de outono, final de outubro. Faz tempo. Grande parte do que poderia ser transformado em pesadelo para os viajantes, inclusive os de boa forma física, pode ser percorrida de carro. Mesmo assim, o esforço final pra se chegar ao topo e andar pelas muralhas não é pouco. Porém, compensador pelo azul infinito que se descortina a partir de lá: o Golfo de Argos. O Mar Egeu confundindo-se com o céu de de tantos mitos e divindades que explicam nossos humanos controversos sentimentos de amor e fúria, vingança e compaixão.

Há outra fortaleza bem menor, sob as águas, no formato de navio. Construída sob uma ilhota por venezianos, no século XIII, protegia o porto da cidade. No pequeno cais, bem em frente ao restaurante, onde comemos quase tudo temperado à noz moscada e escolhemos nossos pratos na vitrine para facilitar a comunicação com o simpático garçom, pegamos um barquinho em direção à fortaleza que brilhava ao sol da tarde.

Quando estivemos lá, tudo parecia bem abandonado. O vigia era um velho marujo, lobo do mar, tipo Popeye com cachimbo e tudo. Tinha por companhia um cachorro preguiçoso. Ficou tão alegre com a nossa visita que principiou uma conversa na base do esperanto, uma confusão de várias línguas. Quando a visitamos respirava-se, na fortaleza, que funcionou como prisão na antiguidade e em tempos mais recentes, silencioso mistério. Mas, fiquei sabendo que hoje é local para recitais e até um Café.

Clara Favilla (Arquivo Pessoal)

Clara Favilla (Arquivo Pessoal)

Será que essas mudanças acabaram com as parreiras de seus pátios atravessados pela melancólica e oblíqua luz do outono? É a lembrança mais doce que guardo dessa viagem: colhi cachos de uvas passas direto do pé. Por não estarem ainda completamente secas, pingavam mel, alegria de pássaros e abelhas. O por do sol pode ser considerado patrimônio imaterial de Nauplia. Gente do mundo inteiro reúne-se na pequena beira-mar para contemplá-lo. O desse dia continua, na minha saudade, a brilhar nos cabelos da minha filha.

Clara Favilla

Clara Favilla é jornalista. "Mais do que conhecer novos lugares, amo retornar. Reportariar é meu ofício. Vivo viajando, até pela quadra onde moro, em Brasília. Escreverei sobre viagens aqui. Serão impressões pessoais,mais do que guias. Espero que gostem, deem retorno e sugestões."

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