No caos da memória, Disney e Roma; Por Clara Favilla

24/01/2015 10h40m. Atualizado em 26/01/2015 14h33m

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Ariano Suassuna costumava fazer plateias de suas recorrentes palestras rirem muito com causos que considerava exemplares. Contou muitas vezes que, durante jantar com bacanas, a socialite anfitriã lhe perguntou candidamente se conhecia a Disney. Desde então, o escritor pernambucano quase nunca se esquecia de clamar em público: – Nossa, essa senhora divide o mundo em duas partes: os que foram e os que não foram a Disney!

Bem, até outubro de 2012 eu era um ser sem Disney. Ou melhor, sem ter ido a Disney porque a Disney já vive dentro de mim desde criança. Quem nunca teve um parente avaro chamado pelos cantos de Tio Patinhas? Primos e irmãos que nem Huguinho e Zezinho? Uma tia igualzinha a Margarida, eternamente apaixonada por um Pato Donald desligado, desastrado? O primeiro cachorro da minha família chamou-se Banzé.

Antes mesmo de ser inaugurado o primeiro mundo Disney, na Califórnia, em 1955, ele já estava dentro de nós, começando pelos parentes mais antigos. Meu pai, um antiamericano feroz, amava os personagens Disney. O primeiro filme que assisti, há décadas, num cinema do Ipiranga (São Paulo) foi Pinóquio (Produção Disney de 1940). Fui depois, em férias, para Ouro Fino, Sul de Minas, e meus tios me levaram para vê-lo novamente. Disney teve como mérito não só a criação de personagens inesquecíveis, como deu vida no cinema aos contos de fadas mais amados, no mundo inteiro.

Céu da Flórida (Foto: Clara Favilla)

Céu da Flórida (Foto: Clara Favilla)

Podemos nos negar a ir às compras estando em Miami ou Orlando. Mas não ir a Disneyworld seria uma heresia, mesmo não sendo mais crianças ou jovens. No meu caso, já me aconteceu de passar dias e dias em Roma e não por os pés no Vaticano. E já me aconteceu de ir ao Vaticano e nem ver o papa porque não era o dia dele aparecer na janela e eu nem sabia disso.

Começo este post sobre meu primeiro dia no mundo Disney e, de repente, estou em Roma sem conseguir entender as voltas que a memória dá no ato de escrever, mesmo com assunto em pauta e roteiro definido. Mas não quero ignorar o que me vem, de repente, à cabeça porque, quero ser fiel ao momento.

Meus pensamentos escorregam para uma Sexta-feira Santa de 1998. Vagabundeávamos por Roma, aproveitando um dia praticamente morto em país católico: lojas, restaurantes e museus fechados, ruas vazias. E nessa vagabundagem chegamos ao Coliseu. Tudo preparado para a cerimônia da via Sacra, regida por ninguém menos que o Papa João Paulo II.

Confesso que não estávamos preparados, nesse dia, para reencenação e possível vivência de tanto sofrimento, de tantas quedas de Jesus sangrando sob o peso da Cruz, os pecados da Humanidade. De repente, a dúvida cruel se abateu sobre nós. Devíamos abandonar tal oportunidade? A de uma Via Sacra assim tão especial em um lugar onde tantos foram martirizados por não negarem a própria fé?

Lembramos, então, de tantos parentes, tão católicos! Se vivos fossem não nos perdoariam. Mas aí uma garoa fina e gelada começou a cair. E uma fomezinha começou a nos atormentar. Na vinda tínhamos passado pela Via Cavour e visto um dos poucos lugares abertos. Corremos para lá. Final de tarde. Pedimos uma pizza. E tudo ficou tão bom de novo, tão quentinho, tão reconfortante, que imediatamente esquecemos qualquer culpa, mesmo quando a chuva passou e o vento trouxe até nós as rezas bem próximas.

No DisneyWorld de Orlando, Florida, ao contrário do Coliseu de Roma, não há nada que nos convide ao sofrimento, a não ser o das bolhas do pés, por excesso de caminhadas. Não tem história regada a martírios. Os quatro parques convida-nos a esquecer da crueldade do mundo e viver a ilusão de uma Torre de Babel, onde todos se entendem e podem ser felizes mesmo em cadeiras de rodas e com todas as deficiências físicas e mentais próprias dos humanos. Ali todas as cores de pele e religiões são bem vindas. E o passaporte para esse mundo contente tem o carimbo chamado $$$. Com esse passaporte em mãos, exigido até para quem vai atrás de trios elétricos no carnaval de Salvador, só não é feliz quem já morreu.

Clara Favilla

Clara Favilla é jornalista. "Mais do que conhecer novos lugares, amo retornar. Reportariar é meu ofício. Vivo viajando, até pela quadra onde moro, em Brasília. Escreverei sobre viagens aqui. Serão impressões pessoais,mais do que guias. Espero que gostem, deem retorno e sugestões."

1 Comentário para "No caos da memória, Disney e Roma; Por Clara Favilla"

  • Raquel 24-01-2015 (11:47 pm)

    Oi Clara, Eu já fui à Roma, já vi o Papa, uma emoção muito grande. Já fui no Colisei e chega a dar um arrepio qdo lembro da sensação que tive lá. E agora bem recentemente , revellion de 2015, estive na Disney. Com tanta diferença de sentimentos, penso que jamais faria essa relação que vc fez. Fantástico. E se além de toda a maravilha que a Disney me proporcionou, a surpresa maior ficou por conta da quantidade de deficientes físicos que eu vi por lá circulando. Cheguei a citar num post, que o lugar é terapêutico, sob o ponto de vista médico mesmo. Deve estimular muito, as pessoas que visivelmente sofreram algum tipo de trauma. Abraços Raquel.

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