Miriam Leitão: Era uma vez, numa casa mal assombrada…

24/01/2015 10h13m. Atualizado em 25/01/2015 09h48m

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Com um metro e noventa de altura, forte, o rapaz de Minas que fazia a obra no meu escritório no Rio era a imagem da fortaleza. Habilidoso, inteligente, ele achava solução engenhosa para tudo. Estava contentíssima com o andamento da reforma até o dia em que ele entrou na minha sala e foi logo dizendo:
– Quero ir embora
– Mas, como? A obra não acabou.
– É que eu soube que a secretária está com suspeita de dengue…
– É só suspeita, mas o que isso tem a ver com a reforma?
– É que…bateu o psicológico.
– Bateu o que?
– O psicológico… não gosto dessa doença, a dengue.
– Você está com medo?
– Medo não, … respeito. Desconfio dessa doença.
– Bateu o psicológico então?
– É. Bateu o psicológico. Vou embora agora.
E foi, o rapaz, deixando a obra pela metade. Só voltou com o seu psicológico tranquilo uma semana depois, após o resultado negativo para a dengue no exame da secretária.
O medo é assim. Ele bate no psicológico. E a pessoa vê o que não existe. Aprendi isso na infância. Todo mineiro sabe histórias de assombração, mas a minha tem uma particularidade única: nós tínhamos uma casa mal assombrada no quintal de casa. Um susto só para nós.
Era um sobrado. De dia, parecia uma casa normal. De noite, assustava as crianças. O dono da nossa casa e da mal assombrada era o mesmo. O projeto era fazer uma vila, mas ele parou naqueles dois imóveis que construiu um ao lado do outro, em estilo de casas de fazenda.
Uma era para aluguel. E foi para lá que nos mudamos, quando eu tinha três anos e era a caçula dos seis. Éramos, na sequência, três meninas, dois meninos e eu. Nos sete anos que moramos ali nasceram mais três. E depois, em outra casa, mais três.
Nossos janelões estavam sempre abertos para a rua. Os da outra casa ficavam fechados o ano inteiro, com uma exceção: na segunda semana de setembro, religiosamente, o homem aparecia com toda a família e ficava, contados, sete dias. A família era retraída, conversava pouco e passava a maior parte do tempo na igreja. Do jeito que chegava, ia embora, em silêncio. Misteriosa.
A gente costumava espiar pelo buraco da fechadura das portas dos fundos ou pelas frestas das janelas. Via panos brancos sobre os móveis. Havia quem garantisse ter visto alguém andando também coberto de branco. Outros garantiam que, à noite, a casa tinha barulhos estranhos. Eu não via nem ouvia nada. Duvidava do medo dos outros. Conseguimos invadir uma parte da casa. Havia uma escada que dava para a porta da cozinha, que ficava no segundo andar. Meu irmão subiu num coqueiro, pulou dentro do alpendre lateral e abriu a porta por dentro. Entramos. Era uma cozinha com um fogão a lenha e uma grande mesa de madeira com bancos, um pequeno banheiro, o alpendre e um quarto sem móveis com um buraco quadrado no forro. O resto era inexpugnável. Pela fechadura espiamos a mesma cena: móveis com lençóis brancos, iluminados pelas frestas de luz das portas e janelas. Uma casa trancada no tempo.
Eu gostava de brincar com o medo. Eu e meu irmão, um ano mais velho, fazíamos disputas: quem tinha coragem de enfrentar o breu à noite e ir até o fundo do enorme quintal. Para provar que tinha chegado ao fim, a pessoa teria que trazer alguma coisa da horta.
Ganhei todas. Meu irmão voltava do meio do caminho apavorado contando das incríveis criaturas que vira. Eu dizia que era tudo imaginação dele. Na minha vez, ia até o fundo do quintal, e me deixava ficar lá, mergulhada na escuridão o tempo suficiente para inverter o jogo. Quando voltava, ele é que estava assustado pela minha demora. Eu me divertia. Até aquela noite em que conheci o medo.
Estávamos, armados apenas com velas, ocupados no quintal às escuras. Eu e os dois meninos. Tinha seis anos, os meninos, sete e dez. De repente, um deles gritou e apontou para a casa. Um vulto branco ficou visível na escada da casa mal assombrada e começou a descer lentamente com uma vela na mão.
Tentei correr, mas as pernas não obedeciam. A sensação era de andar em câmara lenta. E o vulto descia degrau a degrau. Gritei. Gritamos. Os meninos correram mais rápido que eu e sumiram. Fiquei para trás, perdi minha vela e a coisa se aproximava. Quando enfim cheguei na porta da cozinha da casa, ela estava fechada. Gritei para que abrissem. Não abriram. Foram longos os minutos em que temi a chegada do vulto. Quando enfim abriram a porta fui recebida com uma gargalhada. O vulto branco era a minha irmã mais velha, Beth, fingindo de assombração e a brincadeira fora arquitetada por uma tia. Minha mãe, quando soube, reprovou a brincadeira.
Foi disso que me lembrei quando o trabalhador grandalhão de Minas disse que “bateu o psicológico”. O medo encurta o ar, acelera o coração, paralisa as pernas e exagera o risco. Daí para diante, escolhi outras brincadeiras. Deixei o medo sossegado. Em Minas vale a filosofia de Riobaldo Tatarana: “eu quase que nada não sei, mas desconfio de muita coisa”. Melhor respeitar o desconhecido e desconfiar da certeza, porque saber mesmo, a gente sabe quase nada.

Miriam Leitão

Miriam Leitão, jornalista e escritora, escreve crônicas como colaboradora do blog.

1 Comentário para "Miriam Leitão: Era uma vez, numa casa mal assombrada..."

  • wilma kruger 25-01-2015 (10:46 am)

    UAUAUUUUU! eu me lembro bem deste episódio. muito bem contado e encenado. Gostei amei. quero ouvir mais. Parabéns a este bloguista que nos deixa entrar nas memórias infantis, obrigada Miriam. Parabéns a vocês dois.

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