Seca castiga a Califórnia e as chuvas devem demorar a cair

22/01/2015 12h28m. Atualizado em 23/01/2015 17h51m

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A instabilidade das chuvas não tem sido um problema apenas aqui no Brasil. Na Califórnia, Estados Unidos, a população sofre com a seca, resultado da falta de chuvas no Estado. De acordo com dados do US Drought Monitor, mapa semanal de condições climáticas produzido pelo Departamento de Agricultura dos EUA, mesmo com a grande quantidade de chuvas que caiu em dezembro do ano passado, a maior parte da Califórnia permanece numa seca rigorosa.

A atualização mais recente do Drought Monitor foi feita em 15 de janeiro e mostra que apenas em uma pequena área ao redor de São Francisco choveu o suficiente para aliviar o quadro de escassez hídrica. No entanto, a situação geral é preocupante. Os reservatórios estão com o nível reduzido, as águas do subterrâneo estão se esgotando e a camada de neve está muito abaixo do esperado para essa época do ano, geralmente chuvosa na Califórnia. O tempo quente ressecou até mesmo as áreas que receberam chuvas em dezembro e mantinham a umidade controlada. De acordo com Richard Tinker, integrante do Centro de Previsão Climática e autor do relatório divulgado pelo Drought Monitor, a secura nessas áreas está muito acima do normal e o que o resto do inverno reserva ainda é um mistério.

Na Califórnia, o período de dezembro a fevereiro concentra a metade da precipitação anual. Se as chuvas não caem e a neve não se forma em partes do Estado, o déficit de água acontece rapidamente. No ano passado, o Estado passou por uma seca rigorosa, que se espalhou por toda a região durante o inverno e a primavera. Em dezembro de 2014, a esperança da população se renovou com as fortes tempestades que caíram, despejando mais de 7 centímetros de chuvas em alguns pontos e cobrindo de neve as montanhas de Sierra Nevada. A neve é essencial para o sistema de água da Califórnia, já que seu derretimento alimenta os reservatórios na primavera e abastece grande parte da população. Ainda em dezembro, algumas áreas tiveram de duas a três vezes a quantidade de chuvas esperada para o mês, de acordo com o Serviço Nacional de Meteorologia. Mas, infelizmente, o alívio durou pouco tempo. Desde o início de janeiro, as chuvas e a neve permanecem longe da Califórnia, quase sem cair durante a primeira quinzena do ano. As altas temperaturas derreteram o pouco que caiu no início do mês e ressecaram lugares onde a chuva havia caído, como no Vale do Sacramento, principal parte do Estado que está em seca extrema, de acordo com o mapa do Drought Monitor.

Mesmo que o mês de dezembro de 2014 tenha sido marcado por fortes chuvas e neve em todo o estado, ainda serão necessários muitos anos de precipitação acima do normal para estabilizar o quadro hídrico do estado, pois a seca que hoje castiga a Califórnia tem se desenvolvido durante anos. Tudo começou com uma precipitação fraca no inverno de 2012 e com a seca recorde em 2013. Em seguida, o Estado sofreu com a falta contínua de chuvas e neve em 2014, considerado o ano mais quente já registrado pelo estado.

Para os californianos, a espera pelas chuvas deve se prolongar. Tempestades concentradas sobre o noroeste do Pacífico no último final de semana causaram algumas chuvas no canto noroeste da Califórnia, mas não houve nenhuma mudança considerável no regime de águas. “É claro que cada gota ajuda. Você prefere ter uma gota do que nenhuma”, afirmou Richard Tinker em entrevista ao site Climate Central. “É difícil uma tempestade ou duas causarem um impacto significativo, a não ser em situações verdadeiramente excepcionais, como foi o caso do final de novembro até o meio de dezembro do ano passado, em partes substanciais do estado”, finalizou.

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As expectativas dos meteorologistas não são nada animadoras. De acordo com os pesquisadores, o resto da temporada deve continuar com temperaturas acima do normal e as precipitações ficarão abaixo da média anual. É possível, inclusive, que a seca piore na região norte da Califórnia. Já na região sul, o quadro pode ser um pouco melhor. Para os meteorologistas, há previsão de aumento de chuvas por lá, embora não seja o suficiente para acabar com a seca. No entanto, se os próximos três meses continuarem secos, é provável que a Califórnia viva seu pior momento hídrico e climático de todos os tempos. A chuva nunca foi tão aguardada pelos moradores da região e, assim como tem acontecido em várias partes do Brasil, o jeito é torcer para que os céus tragam alívio.

Mas, a Califórnia, ao contrário de São Paulo, tomou medidas em vários campos para gerenciar a crise de água, sempre com transparência inexistente no Brasil em todos os níveis de governo. Além disso, no EUA, os governos estadual e municipal agem juntos para mitigar os efeitos da estiagem prolongada. Na Califórnia, o racionamento de água segue planejamento e acompanhamento rigorosos da situação, até as chuvas de dezembro, por decisão pública do Departamento de Recursos Hídricos da Califórnia (DWR), apenas 10% da demanda normal de água foram atendidos. Com a melhoria parcial e temporário do quadro hídrico com as chuvas de dezembro, o DWR elevou a cota de atendimento para 15% da demanda. A crise está sendo administrada com base em planos de ação existentes, monitoramento preciso das condições e visão de longo prazo sobre as condições futuras mais prováveis.

O governador Edmund Brown Jr. declarou “estado de emergência de seca” ainda em janeiro do ano passado e, no início de dezembro, alertou a população que “os meses mais secos ainda estão por vir e as condições de seca extrema ainda vão piorar”, assinou decreto reforçando a capacidade gestão de crise de águas e proteção ambiental e estabelece as condições para economia de água por parte da população e das empresas. A sociedade civil californiana está se mobilizando, por meios de vários organizações, para obter ganhos em economia de água voluntária e organizações empresariais e empresas também estão executando planos de economia de água, inclusive de seus empregados.

Matheus Leitão

Matheus Leitão é jornalista há 15 anos. Em sua carreira, passou pelas redações do Correio Braziliense, revista Época, portal iG e Folha de S.Paulo. Matheus recebeu o Prêmio Esso por duas vezes, o Troféu Barbosa Lima Sobrinho -- além de menção honrosa no Vladimir Herzog. Entre 2011 e 2012, esteve na Universidade de Berkeley, na California, como Visiting Scholar.

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