Nossos antepassados… os gauleses; Por Clara Favilla

14/01/2015 10h19m. Atualizado em 15/01/2015 17h38m

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Argélia 1981. Acompanho, sem outros jornalistas, o ministro na visita a uma siderúrgica longe da capital. Os demais não se sentiram obrigados a cumprir essa parte da programação e vão passar o dia pelos labirintos da Casbá. Depois me contarão histórias de crianças jogando bolinhas de gude, de velhos sentados pelas calçadas tomando chá de menta muito doce.
Histórias do porto da cidade, que existe desde os cartagineses e até antes deles. De madeiras escorando portais seculares. Dos aromas de frutas, temperos e incensos. Dos vestígios de uma cidade do Reino da Mauritânia de Jubá. O coração da resistência contra os franceses.

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Não posso escolher, ao contrário dos meus colegas, o que cobrir, o que não cobrir, e abrir espaço para uma agenda própria nesta viagem. Mas essa inflexibilidade também tem suas vantagens. Não escolhi, mas sou eu e não quem ficou em Argel, que sobrevoa o deserto e seus oásis, pequenas cidades neles plantadas. O piloto brasileiro — o avião fretado é da Varig — diz que as condições são especialíssimas para um pouso com os motores desligados. Faz isso e o avião plana. Desce macio. Não vou perder tempo com o indescritível. O piloto informa: ao retornar ao Brasil se aposenta. Todos aplaudem.
A siderúrgica a nossa espera não é das maiores e um empresário me diz que é obsoleta comparada às brasileiras. “Não temos nada a aprender aqui. Esses socialistas adoram mostrar fornos em funcionamento e dar informações em toneladas”, diz com desprezo no cochicho.
Durante o almoço, à mesa que me foi destinada, de brasileiro só um diplomata amigo. Os demais todos negros. “Somos saaranianos”, diz um deles em francês, a língua oficial do encontro de trabalho. E continua: “Todos os da minha idade ou mais, argelinos brancos ou negros, mediterrâneos ou do deserto, cresceram lendo nos livros escolares que nossos antepassados eram os gauleses. Os franceses se foram, mas a nossa história, a dos saranianos, ainda não cabe na história oficial argelina. Nossa língua não é o francês e nem o árabe. E nossos antepassados estão em todo o norte da África, não apenas na Argélia.”
Os saaranianos tem sorrisos mais brancos que a cal.
A Argélia ficou independente dos franceses em 1962. Só dezoito anos depois, um ano antes dessa minha viagem, as línguas berberes foram oficialmente reconhecidas. E os saranianos celebravam tal conquista. Apesar de enterrarem seus mortos com a cabeça em direção à Meca, grande parte dos saranianos acredita em espíritos bons e maus. Não foram completamente fidelizados por Alá. Em 2002 e novamente em 2005, decretos do presidente Abdelaziz Bouteflika, hoje ainda no poder, privilegiou o árabe com único idioma oficial, apesar de as línguas berberes e o francês também serem amplamente faladas no país. O retrocesso em relação às minorias ignora as vantagens do multiculturalismo e isola a Argélia banhada pelo Mediterrâneo, o mesmo mar da Itália, França, Espanha. Há perto de 600 mil descendentes diretos de franceses vivendo na Argélia. As línguas dos saranianos, sem a mesma força do passado colonial francês, retornaram novamente ao limbo. Quem se importa?

Clara Favilla

Clara Favilla é jornalista. "Mais do que conhecer novos lugares, amo retornar. Reportariar é meu ofício. Vivo viajando, até pela quadra onde moro, em Brasília. Escreverei sobre viagens aqui. Serão impressões pessoais,mais do que guias. Espero que gostem, deem retorno e sugestões."

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