Turismo na Bahia: Bem-vindo a Salvador, por Pierre Pichoff

14/01/2015 10h07m. Atualizado em 15/01/2015 17h38m

CompartilheShare on Google+Tweet about this on TwitterShare on FacebookShare on RedditShare on VK

Uma capital antiga, capoeira, e um grupo crianças gritando até perder o folego “We are Carnaval / We are folia / We are the world of Carnaval / We are Bahia”. Bem-vindo a Salvador, coração do Brasil. Assim que desembarquei, minhas emoções fizeram-me logo descobrir o porquê de Salvador ser o coração do Brasil. Poderia usar apenas adjetivos de alta virtude para me expressar sobre os encantos dessa cidade linda e histórica que viu o Brasil nascer e os povos se misturarem até formarem a miscigenação dos brasileiros. Gostaria até de ter tentado escrever uma poesia sobre Salvador, talvez o gênero literário mais adequado à cidade, que faz o país todo se orgulhar de possuir uma riqueza assim.
Mas confesso que, antes de descobri-la, ouvi falar tão mal da cidade e da região Nordeste, que minha únicas reações foram a perplexidade, quase paralisia diante de tanta beleza. Na Europa, eu sobe que, no Nordeste brasileiro viviam apenas pobres coitados, atrasados, dependentes de transferência de renda e que, por causa desse povo sofrido, a presidente da República teria sido reeleita. Será? Muitas dessas criticas parecem uma doce ironia quando percebi que é exatamente essa parte do Brasil o lugar preferido dos brasileiros para passar as férias. “É assim, né….?”. Até a presidente passa férias por lá.
De fato, o Brasil tem poucos anos de vida, uns 500 só (para um europeu, quinhentos anos é um país muito jovem). E ninguém pode esquecer que foi em Salvador que a história desse país começou a ser contada. E a cidade herdou os bons e, claro, também os maus legados da época colonial. Obras religiosas riquíssimas, gastronomia maravilhosa e arquitetura deslumbrante, que se opõem à falta de um projeto adequado para o crescimento da cidade. Ao sair do Pelourinho ao hotel, o GPS nos levou para dentro de uma comunidade com ruas sem saídas e bastante escura. Um daqueles lugares que os guias turísticos recomendam veementemente evitar, ainda mais a noite. No entanto, o que vi foi um das vistas mais especulares da cidade e pessoas conversando e jogando cartas nas portas de suas casas.
Para um turista europeu, como eu, Salvador significou o paraíso, pude estar hospedado em um hotel na cidade, na praia de Itapuã, com uma vista maravilhosa sobra a Bahia dos Santos e 30 graus ensolarados. Brasileiras e praia de areia branca a perder de vista.
Minha primeira visita ao roteiro turístico de Salvador foi o Pelourinho, com a fundação Jorge Amado e a Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos. Acabamos o dia na ponta da Humaitá e sua vista fantástica do pôr do sol, um dos mais lindos segredos de Salvador…
Depois visitei o Mercado Modelo, comprei paçocas, baiana de geladeira e vidrinhos com desenhos de areia colorido, que, claro, todo brasileiro já está cansado de conhecer, mas para este europeu foi a última novidade.
Fomos ao elevador Lacerda e depois à famosa Igreja de Nosso Senhor do Bonfim. Logo comparei as fitinhas amarradas na grade da Igreja com a ponte dos cadeados em Paris. Ambas representam esperança e amor dos milhares de viajantes que talvez tenham tido uma única oportunidade de passar por esses lugares. Mas ali ficou um pedacinho de cada visitante.

Jamilly Pichoff

Jamilly Pichoff

Salvador e Paris possuem outros aspectos em comum: são capitais históricas, de arquitetura fantástica, igrejas em todos os cantos, lojas de souvenires e muitos turistas.
Mas é a convivência com os baianos que nos deixa a maior das lições – a alegria de viver se compartilha com um sorriso ou com uma dança. E compartilhar alegria, multiplica a alegria. O baiano possui dentro dele o segredo da felicidade. É a simplicidade.
Amei passear pelas ruas da cidade, cheias de atrações durante o dia e também a noite. Não foi possível selecionar um melhor momento ou um melhor lugar, a magia de Salvador se encontra no ambiente, no ar que se respira por lá.
Fui também visitar o interior da Bahia quando, de repente, me deparei na famosa Praia do Forte e suas lindas tartarugas. Fiquei encantado com esse lugar incrível. Até a autoestrada que nos leva por uns 65 km é de boa qualidade.
Mas, durante a volta, foi o fim do sonho das boas rodovias, recomendo não se aventurar nas vias secundárias, cheias de buracos e outros perigos que farão de sua viagem um espécie de rally. Mas o GPS te orienta a ir ao caminho mais curto e é por lá… Tente voltar pela mesma estrada de ida. Chama-se Estrada do Coco, se não me falha a memória, que costuma falhar.
Em alguns aspetos, a antiga capital brasileira parece uma cidade deixada pra trás. Procurei dados oficiais e descobri que há quase 3 milhões de moradores marcados pelo desemprego, violência, falta de assistência na saúde, segurança, educação, além de atividade industrial quase inexistente. Se tratará de uma outra viagem para quem decidir olhar além da praia da Itapuã. Não vamos colocar aqui os possíveis motivos para os problemas sociais e desenvolvimento dessa linda cidade, é um debate sem fim. Mas a Bahia tem algo que compensa todos os problemas, o “bem-estar baiano”.
Enquanto Paris com seus cadeados, com a melhor saúde pública no mundo, sem violência, com seus empregos e concretos parece mesmo um sonho. Mas sem a magia e simpatia dos seres humanos e essas praias desertas onde o tempo para, é melhor consertar o desenvolvimento.
A luz se põe no farol e reflete na água uma tranquilidade sem palavras. Deixando essa terra, na viagem de volta, no avião, meus pensamentos caminharam com a história do Brasil. Da colonização até a democracia, Salvador estava lá. Amor e sonho de liberdade sempre estarão lá.

Pierre Pichoff

Formado como piloto comercial de avião, Pierre Pichoff mora em Caen, na Normandia, França. Ele é o diretor de uma empresa de turismo, a "Descobrindo a Normandia", que oferece passeios personalizados sobre a história da Segunda Guerra Mundial na Normandia, além de Paris e outros roteiros na França.

1 Comentário para "Turismo na Bahia: Bem-vindo a Salvador, por Pierre Pichoff"

  • Jean 19-01-2015 (1:23 am)

    Morei em Salvador 8 anos… Não queria ter saído de lá. Meu marido foi transferido para lá, no final dos anos 70. Minha filha, com 5anos e eu, fomos muito felizes, saindo de São Paulo. Tudo que você falou é verdade. A Bahia e linda, o povo é encantador, hospitaleiro e alegre. Conheci o povo é a terra, profundamente. Viajamos pelo interior todo. Sempre uma nova surpresa! Dilma se elegeu por causa do povo do Nordeste? Definitivamente. Não pelo povo trabalhador e instruído. Pelo miserável, e pelo que descobriu que , nos últimos anos, se não trabalhar, ganha mais do que trabalhando : recebem ajuda do governo por cada filho, por desemprego, etc, etc. Estes, votaram nela, para não perder a “mamata “. Escritores, artistas, até mesmo estilistas famosos, vieram da Bahia, que é o maior e mais importante estado do Nordeste.

Comente

O autor do blog não se responsabiliza pelo comentário.