Crônica de Miriam Leitão: Uma viagem das Arábias

10/01/2015 11h14m. Atualizado em 11/01/2015 08h45m

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Crônica de Miriam Leitão

– Não vou usar véu.
– Tem que usar. Isso é uma exigência do islamismo.
– Não é a minha religião.
– Para nós o corpo da mulher tem que ser todo coberto e inclusive o cabelo.
– Aceitarei vestir saias longas, camisas de manga e fechadas até a gola, mas não aceitarei o véu.
– É uma exigência para entrar na Arábia Saudita.
– Então recuso o convite da embaixada e não vou.

Foi assim, conflituoso, o primeiro passo para eu visitar a Arábia Saudita em junho de 1981. A embaixada no Brasil convidou um grupo de jornalistas de vários veículos. No grupo, duas mulheres. Eles ficaram paralisados com aquela minha resistência porque os cabelos louros e lisos de Laura Fonseca do Estadão e os meus cabelos, que eram fartos e cacheados, seriam, como me disseram, uma provocação. Fiquei firme. Eles cederam.
A Arábia Saudita estava convidando jornalistas em vários países, numa tentativa de mudar a imagem que se tinha em relação ao país. Queriam mostrar uma face moderna. Pelo menos o grupo brasileiro não se deixou convencer dessa modernidade. O que vimos foi o suficiente para consolidarmos nossa impressão.
Cheguei com febre em Paris, a primeira escala. Ficaríamos lá uma noite e no dia seguinte iríamos para Riad. Liguei para o correspondente da Gazeta Mercantil e disse que estava lá de passagem, e no hotel.
– Primeira vez em Paris e você enfurnada no hotel? Nem pensar. Vamos andar por Paris.
Meu colega me pegou no hotel e andamos por horas a fio. A febre, a paixão pela cidade à primeira vista, aquela caminhada pela noite a dentro me faziam sentir em delírio. Como uma cidade podia ser tão linda? Agradeci o meu cicerone de madrugada quando ele me deixou na porta do hotel.
Os vinte dias seguintes eu viveria uma experiência inesquecível. No voo fui lendo dois livros. O Alcorão e o “Caminho para o Islamismo” que a embaixada havia me dado de presente. Assim fiquei sabendo das abluções diárias, as rezas viradas para Meca e a obrigatoriedade de, pelo menos uma vez na vida, o muçulmano visitar as duas cidades do profeta, onde ele nasceu e para onde migrou. As duas ficam na Arábia Saudita: Meca e Medina. Em peregrinação, a pessoa tem que se enrolar com um pano sem costuras. Por isso não estranhei os homens carregando pastas de executivos e enrolados em longos panos, diferentes da roupa usual. Assim reconhecia os peregrinos no avião à caminho de Jeddah. A certo momento da leitura do texto sagrado do Islã, li algo que me chocou. Como acontece em vários textos sagrados, o Corão é dirigido aos homens e as mulheres são tratadas com alteridade, são o outro do qual se fala. Em uma das suratas eu encontrei um versículo que dizia algo assim: “Se suas mulheres não lhe obedecerem, batei nelas”. Para mim, bastou aquela frase como ponto final do meu interesse na leitura.
Jeddah é a maior cidade do lado ocidental do país, à beira do mar vermelho e, naquele momento, ainda era a sede das embaixadas, que começavam a se mudar para a capital, Riad, na parte central do país, perto do deserto. As duas cidades me pareceram bem diferentes. Em Jeddah se vê diversidade, estrangeiros. Riad, onde passamos mais tempo, me pareceu mais opressiva. Viajamos pelo interior do país, ainda muito cheio de beduínos, vimos poços de petróleo, fomos até os grandes e modernos portos petroleiros. Ras Tanura, Dharam e Damman.
Só tivemos contato com quem eles nos permitiram, mas pedimos algumas coisas, como visitar o Ministério do Petróleo. Na entrada do Ministério, fomos simplesmente barradas, Laura e eu, fisicamente, pelos guardas, falando alto em árabe. O tradutor Abdulaziz nos explicou, em inglês, que eles precisavam consultar as autoridades se mulheres poderiam entrar porque nenhuma mulher havia entrado ali antes. Entramos depois de muitas consultas.
Eu estava particularmente interessada em saber como era a vida da mulher. Na rua, o que eu podia ver era que algumas só usavam o véu mas o rosto estava à mostra. Eram as mais livres, as palestinas. Um pouco mais contidas, as sírias. De algumas só se via os olhos, a maioria era de iranianas que acabava de viver a radicalização dos aiatolás. O mais impressionante eram as sauditas. Dava para reconhece-las. Totalmente de preto, com um véu espesso que cobria até os olhos. Andavam com homens guiando. Me explicaram que por serem do país onde estavam as cidades sagradas as vestimentas das sauditas eram mais fechadas. Só podiam sair de casa com homens da família. Só tiravam o véu uma vez para o pretendente que, então, pagaria o dote para leva-las. Cada homem poderia ter quatro, desde que dessem às quatro o mesmo padrão de vida.
– Esse costume vai acabar com o tempo. A minha geração já não quer a poligamia. Eu sou jovem, amo a minha mulher e quero ficar só com ela a vida inteira – me disse Abdulaziz, o nosso guia e tradutor.
Aproveitei a oportunidade e perguntei se poderia conversar com uma mulher. A esposa dele por exemplo. Abdulaziz ficou de consultar as autoridades e dois dias depois disse que a resposta era negativa. Não conversaríamos com mulher alguma.
Visitamos uma escola onde mulheres estudavam. Toda a melhor tecnologia da época era colocada para manter os preceitos religiosos. Os professores homens ficavam numa sala. A imagem deles era transmitida para uma tela. E elas usavam o microfone para fazerem perguntas. Assim o professor não via as alunas e elas não tinham contato com um homem estranho à família. Mostraram tudo aquilo como um avanço feminino porque, até assumir o rei Faisal, terceiro filho do rei Abdul Aziz, o fundador da Arábia Saudita, as mulheres não podiam estudar. Faisal ibn Abdul Azis al Saud governou a Arábia Saudita de 1964 a 1975, quando foi assassinado por um sobrinho. Faisal era considerado um modernizador. Permitiu que mulheres estudassem e foi dele também a decisão que pôs fim à escravidão no país.
Visitamos o primeiro castelo do rei Abdul Aziz que, nos anos 1930, unificou as várias tribos, muitas de beduínos, formando o país que até hoje tem o nome da família Saud. Por isso ela se chama Arábia Saudita. Continua sendo o país que pertence a uma família. Na visita ao palácio antigo, no meio do deserto, bem diferente dos outros suntuosos onde havíamos ido, mas bem amplo, perguntei quantas esposas, filhos e filhas tivera o rei Abdul Aziz. Me responderam:
– Ele se casou com uma mulher de cada tribo para unifica-las. Teve 36 filhos homens, quanto às filhas mulheres não sabemos o número.
Até hoje são os filhos do fundador que vêm se sucedendo no poder. O rei Abdullah, que governa atualmente, tem 90 anos e está hospitalizado. O príncipe herdeiro que esta semana leu o comunicado do rei sobre os preços do petróleo em baixa, tem 88 anos. Uma gerontocracia.
Encontramos jovens executivos, todos parentes da família, em empresas e postos importantes, alguns com cursos no exterior. As roupas brancas, de tecidos leves e elegantes que usavam, balançavam ao vento, refrescantes. As mulheres eram aquelas pessoas prisioneiras do preto espesso.
O ambiente era asfixiante e não apenas pelo calor que chegou, em determinado momento, numa visita a uma fazenda no deserto, a 50 graus. Aprendi muito naqueles 20 dias sobre tudo o que eu não quero viver. Eles foram gentis conosco, apesar de nada permitir que não estivesse no programa, mas a certeza que eu tinha quando embarquei de volta era que não se tratava de rejeição cultural ou religiosa. Eu, feminista, não toleraria viver num país assim.
Na última conversa com o representante do Ministério do Exterior um fato estranho. Ele nos entregou a passagem de volta e um envelope. Abri e eram dólares. Perguntei o que era aquilo. Eles disseram que era um presente para gastarmos em Paris. Devolvi o envelope e disse que na minha cultura aquilo era indecoroso. Meus colegas fizeram o mesmo.
No voo para Paris, houve algo curioso. Quando os comissários da Saudi Arabian Airways comunicaram que estávamos deixando o espaço aéreo dos países árabes, as mulheres começaram a tirar véus e as vestimentas árabes. Debaixo elegantes roupas ocidentais. E passaram a servir bebidas alcóolicas.
Desembarcar em Paris foi como uma lufada de ar libertador. Enchi os pulmões, deixei a mala no hotel e saí para caminhar à esmo, livre, apaixonada por aquela cidade linda. Arco do Triunfo, Champs Elisée, Rue de Rivoli, as margens do Sena e Saint Germain de Prés. Voltei ao hotel só para pegar a mala e ir para o aeroporto. Aproveitei cada minuto daquela liberdade.
Por isso, neste sábado, véspera da grande manifestação de repúdio ao atentado ao Charlie Hebdo, tudo isso me vem à memória. Eu me reconheço. #Je SuisParis. #JeSuisCharlie.

Miriam Leitão

Miriam Leitão, jornalista e escritora, escreve crônicas como colaboradora do blog.