Era uma vez em Londres… When the music died; Por Clara Favilla

10/01/2015 10h25m. Atualizado em 11/01/2015 08h51m

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A tragédia de Paris me aguça lembranças. Manhã de frio e umidade. Ainda escuro perto das dez. Nada que não fosse o esperado para um oito de dezembro, em Londres: 1980 chegava ao fim. Descemos correndo a escadaria do prédio, onde ficava o estúdio onde morávamos. Prédio todo branco e de colunas, como dezenas de outros, naquele pedaço da Inverness Terrace Street, estação de Bayswater. Poucos metros dali, o Hyde Park a nossa frente. Podíamos vê-lo de nossa janela.

À esquerda, mais adiante, o Marble Arch, o Speaker’s Corner. E mais ainda adiante, o coração da cidade, o Picadilly Circus, o Covent Garden. Nosso propósito era fazer tudo isso a pé, mais uma vez. Andar, andar, andar é o melhor a se fazer em Londres, mesmo no frio. E perto do Natal tudo na cidade é mais bonito.
Londres estava mais silenciosa e vazia que de costume. Seria um domingo? Não me lembro. Se não era, tinha aquela melancolia de domingo no ar. Até que… até que tropeçamos na primeira manchete de jornal : Lennon shot dead… Meu Deus!!! me viro pro Zé e digo: Lennon foi baleado! E ele: Foi baleado e morto. Morto a tiros.

Eu traduzira mal a manchete para me apegar à esperança. Tradução refeita, chorei. E só aí prestei atenção. Todo mundo chorava. Naquele jeito inglês de chorar, mas chorava. A moça da revistaria recebeu o pagamento, fungando.

Uma grande solidão se abateu sobre nós. E o dia foi de silêncios. Depois do almoço voltamos pra casa. Mais tarde, saímos de novo e vimos muitas faixas: John, não te esqueceremos! Yoko nosso coração está com você! Yoko, rezamos por você e John! Algumas velas acesas. Tristeza sem exageros na voz ou nos gestos ou na altura do choro, mas funda.

lennon 1

Durante a semana, compramos todas as revistas que trouxeram capa com Lennon. São as únicas que guardo até hoje, na estante, embaladas em plástico pra não pegar poeira. Junto, duas Vejas mais antigas ainda, uma da chegada do homem à lua e outra da passagem da Rainha Elizabeth pelo Brasil. Aquela que traz o Congresso estilhaçado e a manchete: “A rainha passou, façam a crise senhores”.

Lennon2

Havia, lembro-me, outras duas antigas Vejas. Uma trazia na capa a foto de um caminhão com estudantes e o título: Assim acabou o Congresso da UNE, todos presos. A outra trazia mulher jovem, sentada, com o rosto encoberto e os dizeres: Por quem chora Ana Maria? O marido (Vladimir Palmeira) é um líder foragido. Essas duas desapareceram.

Clara Favilla

Clara Favilla é jornalista. "Mais do que conhecer novos lugares, amo retornar. Reportariar é meu ofício. Vivo viajando, até pela quadra onde moro, em Brasília. Escreverei sobre viagens aqui. Serão impressões pessoais,mais do que guias. Espero que gostem, deem retorno e sugestões."

8 Comentários para "Era uma vez em Londres... When the music died; Por Clara Favilla"

  • celso chagas 10-01-2015 (7:08 pm)

    òtimo, muito bom !!!

    • Daniel Barreto 12-01-2015 (12:12 am)

      Morava nos Estados Unidos na época da morte de Lennon, Nunca tinha visto uma comoção tão grande. Na minha High School, nem teve aula, voltamos para casa sem acreditar no que tinha acontecido.

  • Raquel Ramos 10-01-2015 (7:27 pm)

    Grandes tragédias são marcantes. Eu jamais guardaria estas revistas. Lembranças tristes, já bastam as que ficam em nossa memória. Mas hoje, elas são documentos históricos. Grande abraço Raquel

  • Lena 10-01-2015 (7:52 pm)

    Ahhhh, Clara!!
    Lembro-me tão bem desse dia também!
    Que inveja de suas revistas guardadas! A chegada do homem a lua e a visita da rainha, que vi passar a duas quadras da minha casa, no colo de minha avó, também fazem parte de minhas memórias. Mas naquela época, nem imaginava o que se passava no Congresso

  • Edmilson P Souza 11-01-2015 (1:34 am)

    Olá Flávia, aquele dia, bem como o dia que o Ayrton Senna nos deixou são sem sombra de dúvidas, os dias mais tristes da minha vida. dia 08 de dez de 1980, eu trabalhava no jornal O Estado de São Paulo, era um cargo simples, Aux. de Arquivo; eu me casara em 1978(ao som de entrada da noiva Michelle e de saída Yesterday) pois tanto eu como ela éramos muito fãs dos Beatles. Pois bem, nosso 1º filho veio em 1980, ao qual dei-lhe o nome de João, já que naquela época o cartório de Cerqueira César não aceitou que eu colocasse John; Bem, eu nasci dia 08 de dezembro de 1953, naquele dia eu levara um bolinho de aniversário para cantar um parabéns junto com meus colegas logo após o expediente, mas infelizmente não cantamos os parabéns, pois meia hora antes aconteceu a tragédia com John Lennon, e comoção tomou conta de todos nós lá no Jornal, e, daquele dia em diante nunca mais comemorei meu aniversário. Enfim, são fatos que marcam nossas vidas e que eu fiz questão de deixar aqui pegando a deixa de sua crônica, OK?.

  • Francisco Evandro de Oliveira 11-01-2015 (8:51 pm)

    Seu depoimento é mais que um documentário sobre o grande Jhon Lenonn.Um absurdo ser morto por um fan e por motivos fútis, uma pessoa que pensava somente na paz e no amor entre as pessoas.

  • Rosa 11-01-2015 (11:23 pm)

    Clarinha -colocando as leituras em dia depois do passeio americano de fim de ano. Beleza encontrar esse texto. Sabe o wiantomsou beatlemaniaca de carneirinha. Sempre q vou a NY vou no Imagine no CentralPark e o Dakota em frente ; ver o lugar me sinto mais próxima . Fui outra vez no dia 8 janeiro ; 12° negativos e eu lá . Postei foto , vc viu. O bárbaro assassinato é dessas coisas que lembramos ( eu pelo menos): onde eu estava qdo mataram JonhLennon? Por quem ele era, pra quem gosta de música e de gente com atitude; assim como pela irracionalidade do fato. Bem, cheguei em casa da faculdade e meu pai me disse : mataram JonhLennon . Eu não acreditei, ele repetiu e eu chorei dois dias , ouvi todos os discos e deu aquela sensação terrível de que os Beatles não voltariam . Bjos, obrigada

  • Clara Favilla
    Clara Favilla 12-01-2015 (12:12 pm)

    Obrigada pela leitura e comentários.
    Eles me animam a escrever cada vez mais e a compartilhar minhas histórias com vocês.
    Abraços a todos

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