Vítima do estado islâmico, Omaya, “a Joana D’arc iraquiana”, também é Charlie. Por Pierre Pichoff

10/01/2015 10h26m. Atualizado em 11/01/2015 09h31m

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No Brasil quase ninguém a conhece. Mas a iraquiana Omaya Al-Jbara, considerada a mulher do ano de 2014 pelo jornal francês “Le Monde”, deixou um legado para o mundo na luta contra o terrorismo. Destemida, Omaya morreu aos 40 anos vítima do Estado Islâmico.
No momento em que o mundo se choca com o ataque covarde à revista francesa Charlie Hebdo, decidi compartilhar a vida desta mulher que não temia o terrorismo. Para ela, liberdade e honra eram sinônimos e, por esses valores, dedicou sua vida. “Nunca olhemos para trás, seguiremos em frente para defender todas as formas de liberdade”, disse Omaya antes de morrer, mas como se aconselhasse o mundo neste momento de dor.
Omaya Al-Jbara nasceu na prestigiada tribo sunita dos Jubouri, na Iraque. Ela era linda e carismática. Adorava poesia e jóias sofisticadas. Cozinhava de maneira impecável e sempre mantinha inúmeras pessoas ao seu redor por sua arte primorosa em contar histórias.
Perder a liberdade é perder a honra. Omaya deixava sempre essa ideia como pano fundo de todas as histórias que contava para os moradores da sua pequena cidade de Al-Alam, a mesma de Sadam Husseim.
Omaya morreu com uma bala no peito, em 22 de Junho de 2014. Atiradores do Estado Islâmico estavam de tocaia há vários dias à sua procura.
Ao anunciar sua morte, o primeiro ministro da Iraque, Nouri Al-Maliki, declarou que Omaya foi uma das mulheres que “atordoaram terroristas”. E, principalmente, causava-lhes medo. Ela tinha habilidade única no manejo de armas e os jihadistas acreditam que, se fossem mortos por uma mulher, encontrariam “a porta do paraíso” fechada.
“Ela se tornou uma lenda e fonte de inspiração para todas as mulheres do Iraque”, disse o ministro do ambiente, Qutaiba Al-Jubouri, “o símbolo de uma geração que nunca aceitará se curvar ao Estado Islâmico”, concluiu.
Omaya nasceu em 1974 numa família muito prestigiada. O seu pai, o cheikh Najir Hussein Al-Jbara, era o prefeito da cidade de Al-Alam, cidade famosa pela educação de alto nível e prosperidade. Desde criança, a menina nunca quis se juntar com as outras mulheres para brincar e cuidar da casa. Ela exigia os mesmos direitos que os seus 14 irmãos. Assim, conseguiu ingressar na universidade e estudar até o dia que a sua mãe caiu doente, e, de repente, seus sonhos foram temporariamente interrompidos para ajudar na criação dos irmãos.
Os problemas aumentaram com a queda de Saddam Husseim, quando o pai de Omaya, que lutava contra a Al-Qaeda, foi sequestrado e decapitado durante uma peregrinação à Meca em 2007. No mesmo ano, Omaya perdeu o irmão, também vítima do terrorismo islâmico.
Após esses fatos, Omaya colocou para fora seus instintos políticos e não parou mais de lutar contra o terrorismo e pela liberdade de seu povo até ser assassinada em 2014.
Ela retomou à faculdade e foi graduada em Direito, em 2011. Rapidamente foi considerada líder de direitos humanos, na defesa de refugiados e na luta contra a violência a mulheres. A vida seguia até que, em 2014, o grupo Daech, do estado islâmico, resolveu paralisar a insurgência comandada por Omaya na cidade de Al-Alam. Ela escondeu seu marido e filho e se transformou em um “general” de guerra. Passou a ser conhecida como “a nova Joana D’Arc”.
Na guerra que durou doze dias, ela comandou a resistência. Dava ordens aos atiradores, erguia muralhas com sacos de areias… Omaya percorria os bairros na condução de uma pick-up, usando o rádio da Polícia para chamar a população ao combate. Ela mantinha informados o Exército e o governo de Bagdá das suas operações. Mas no dia 22 de Junho de 2014, após matar 3 jihadistas, Omaya não resistiu à uma bala no peito, e morreu, de forma heróica.
Muitas famílias quiseram fugir, mas centenas de pessoas foram presas com ameaça de morte, se a cidade não se rendesse imediatamente.
Desde então, o estado islâmico estendeu o seu território e seu poder. As condições das mulheres da Iraque são desumanas. Elas são vendidas e usadas como escravas sexuais. Advogadas, professores, médicas e muitas outras foram assassinadas em Mossou, além do genocídio de Falloujah, com a morte de 150 mulheres que se recusaram a casar com os jihadistas.
O dia 7 de Janeiro de 2015 não será tão cedo esquecido. O estado islâmico ganhou mais uma batalha na França com a morte de 12 pessoas na revista Charlie Hebdo. Fica para o mundo o ensinamento de Omaya: “Nunca olhemos para trás, seguiremos em frente para defender todas as formas de liberdade”. É uma questão de honra.

Pierre Pichoff

Formado como piloto comercial de avião, Pierre Pichoff mora em Caen, na Normandia, França. Ele é o diretor de uma empresa de turismo, a "Descobrindo a Normandia", que oferece passeios personalizados sobre a história da Segunda Guerra Mundial na Normandia, além de Paris e outros roteiros na França.

1 Comentário para "Vítima do estado islâmico, Omaya, "a Joana D'arc iraquiana", também é Charlie. Por Pierre Pichoff"

  • Antonio Lacerda 10-01-2015 (7:00 pm)

    Charlie e Mike

    Eu também sou Charlie! Também partilho da dor e da indignação pelos crimes cometidos em atos terroristas por islâmicos radicais, em Paris. Todas as honras e todas as homenagens aos jornalistas da revista satírica Charlie Hebdo, aos reféns mortos no mercado judaico e aos dois policiais assassinados são justas, são importantes e são comoventes. De 07 a 09.01.15, foram dezessete pessoas mortas covardemente por extremistas ligados a grupos terroristas, e três dos terroristas mortos pela polícia francesa. Foi, como todos não se cansam de dizer, um ataque à liberdade de expressão e aos valores republicanos. Três dias de terror! Por tudo isso, eu também sou Charlie! O mundo inteiro está comovido com o terror em Paris. Haverá passeata amanhã, 11.01.15, nas ruas de Paris, com a ilustre presença de alguns dos mais importantes líderes políticos mundiais, de artistas e da população. Houve manifestações de pesar de lideres políticos nos quatro cantos do mundo, até de alguns países de maioria islâmica. A imprensa está cobrindo o assunto sob todos os ângulos, com fotos, vídeos e análises de tudo que se refere à tragédia. Uma cobertura que mobiliza redações e jornalistas aos montes. Todos os principais jornais do mundo tratam do assunto na primeira página, com letras garrafais.

    Existe um lugarzinho lá na África, ao norte da Nigéria, chamado Baga, uma cidadela pobre, miserável, imersa, como tantas outras lá na África, num mar de violência que parece não ter fim. A Nigéria é um dos mais ricos países da África, mas sua população ainda vive em pobreza extrema. E Baga não é exceção. Em 03.01.15, o grupo terrorista Boko Haram tomou a cidade e uma base militar próxima e iniciou sua maior carnificina até o presente. O grupo tenta implantar um califado na Nigéria, para “salvar” os valores da fé islâmica. De 03 a 09.01.15, foram assassinadas mais de duas mil pessoas, com crianças, mulheres e idosos em sua maioria. E a contagem de corpos não terminou, por motivo de segurança. Em Baga morava um menino chamado Mike, num casebre junto à mãe e às duas irmãs menores. Mike tinha 9 anos. O Boko Haram assassinou Mike e sua família para limpar a cidade de pessoas que não queriam aderir ao califado nascente. Mike e sua família não conheciam nenhum dos assassinos do Boko Haram. Nem desenhar Mike sabia. Em Baga, o ataque foi contra a liberdade de viver. Por tudo isso, eu sou Mike! Não houve comoção mundial pela morte das duas mil pessoas assassinadas covardemente em Baga. A imprensa deu notas curtas, e nenhum analista foi convidado para explicar o que acontece naquela região. Dos maiores lideres mundiais, até agora (10.01.15) só vi Obama manifestar-se publicamente condenando a violência na Nigéria. O assunto não foi primeira página em nenhum grande jornal ocidental. Passeata? Nem pensar!
    Algo estranho fica disso tudo. Paris: em três dias, dezessete mortos covardemente, a imprensa mundial numa cobertura gigantesca, comoção mundial, passeata com celebridades. Baga: em sete dias, duas mil pessoas mortas covardemente, a imprensa soltou duas notas de rodapé sobre o assunto, indiferença, nem o Zé da esquina foi a rua protestar.

    Eu sou Charlie! Eu sou Mike!

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