Nós que amávamos tanto os aitolás; Por Clara Favilla

08/01/2015 10h04m. Atualizado em 09/01/2015 09h41m

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Ainda sob o impacto da tragédia desta quarta-feira (7) sangrenta em Paris, lembro-me que, no início de 1979, eu e um grupo de jornalistas almoçávamos, em Londres, na casa de um diretor do Eurobras (um consórcio formado pelo Banco do Brasil, bancos japoneses e europeus para facilitar a administração da nossa dívida externa). Nós jornalistas estávamos excitadíssimos com o retorno do aitolá Khomeini ao Irã, depois de 15 anos no exílio, primeiro no Iraque e depois na França. Estávamos felizes e esperançosos com a derrocada do regime do Xá Mohammad Reza Pahlavi.

Também participava do almoço um empresário brasileiro, amigo do dono da casa, recém-chegado de Teerã. O empresário pediu nossa atenção e educadamente disse-nos, sem meias palavras, o quanto estávamos equivocados, que não tínhamos noção do que aconteceria no Irã a partir do retorno do Aitolá. Retrucamos indignados. Pior do que estava não seria. Pahlavi era um ditador sanguinário. Havia enclausurado ou exilado a oposição. Era corrupto. Era o próprio satã, como dizia o Aitolá em suas pregações na França, de onde comandava, no Irã, manifestações gigantescas contra o Xá.

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Pacientemente, o empresário nos alertou: muito pior que o Xá seria o Aiatolá, principalmente para as mulheres. E, olhando-me com firmeza disse para não ter ilusões; que, em muitos aspectos, como o da modernização do Irã, havia lideranças políticas fazendo um bom trabalho.”Há uma oposição ao Xá que precisa ser ouvida pelo Ocidente e certamente não é a dos aitolás. Eles são a treva!”, insistiu.

Depois de algumas taças de vinho, o almoço caminhou para assuntos mais amenos. Estávamos testemunhando também um dos piores invernos do século 20 na Europa. Londres estava toda branca, coisa difícil de acontecer. E nos distraímos com a neve nos jardins, com a fonte congelada e com uma piranha no aquário da sala do anfitrião.

No carnaval de 1979, já estávamos em Brasília. E o bloco dos jornalistas, o Pacotão, em sua segunda edição, saiu clamando pelo ai­a­to­lá Khomeyni: Geisel, você nos atolou / O Figueiredo tam­bém vai nosatolar / Ai­a­to­lá, ai­a­to­lá, venha nos sal­var / Que esse governo já ficou / Gagá, gagagageisel! Não me esqueço particularmente de uma cena: coleguinha de turbante carregando um enorme retrato com moldura e tudo do Aiatolá

Como éramos tolinhos!

Clara Favilla

Clara Favilla é jornalista. "Mais do que conhecer novos lugares, amo retornar. Reportariar é meu ofício. Vivo viajando, até pela quadra onde moro, em Brasília. Escreverei sobre viagens aqui. Serão impressões pessoais,mais do que guias. Espero que gostem, deem retorno e sugestões."

2 Comentários para "Nós que amávamos tanto os aitolás; Por Clara Favilla"

  • Rosenildo Ferreira 08-01-2015 (7:47 pm)

    Querida Clara, nada como um dia após o outro dia. Seu texto é brilhante, porque mostra que é preciso enxergar o mundo um pouco além das paixões partidárias de ocasião ou os arroubos juvenis. Mas, veja bem, o aiatolá acabou sendo “ajudado” em sua estupidez pela estupidez do outro lado. A guerra Irã-Iraque financiada pelos EUA para derrubar o regime (covarde e canalha, sem dúvidas!) só fez piorar a situação dos iranianos. Pior de tudo isso, sim tudo sempre pode ser pior, é que vemos no Brasil um olhar tacanho, irresponsável e nazifascistas de alguns setores que, em nome de paixões pueris do passado, aderiram a projetos totalitários, baseados na pilhagem. Mas, como o discurso é de esquerda…. parece que pode, né!? Nada como ter tempo de rodagem. Parabéns ao Matheus. o blog está cada vez melhor e mais pluralista!

  • MESTRE MOTORISTA 09-01-2015 (10:25 am)

    QUE ” ALHA” SAIBA FAZER JUSTIÇA, NO MOMENTO EM QUE VIVEMOS, O ATENTADO DA FRANÇA, COVARDE E SANGUINÁRIO DEVE SER REPUDIADO POR TODOS, POR TODOS OS POVOS, NÃO AO REGIME DOS AIATOLÁS, O TIRO SAIU PELA CULATRA, SEM APOIO A TENDÊNCIA AGORA É O ISOLAMENTO MAIOR DOIS RADICAIS ISLÂMICOS.

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