O amor ao futebol conseguiu unir novamente a Bélgica

05/01/2015 10h39m. Atualizado em 06/01/2015 14h32m

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Um país profundamente dividido por fronteiras étnicas, linguísticas, sociais e econômicas decidiu se unir pelo amor ao futebol após a Copa do Mundo realizada no Brasil, em 2014. Dividido em duas regiões discordantes, a Bélgica tem uma história marcada pela luta separatista e já bateu o recorde do período mais longo em que uma democracia ficou sem um governo eleito, 589 dias.

A Bélgica é um dos menores países da Europa, com pouco mais de 30 mil quilômetros quadrados de extensão. Ela é dividida em duas regiões principais: Flandres, que abriga 60% da população, e Valônia, que até 1950 era a parte mais rica por suas reservas de carvão. No centro do país, entre essas duas regiões, está a capital Bruxelas. Desde seu nascimento, em 1830, a Bélgica sofre com a luta interna entre Flandres e Valônia, que traz insegurança e um espírito de separação ao povo. Além das diferenças culturais, as regiões vivem conflitos frequentes pela disputa na área econômica.

Todavia, em 2010, a história começou a mudar. A equipe de futebol belga, um dos poucos símbolos de unidade nacional que restava, surgiu como uma força poderosa no esporte. Reunindo jogadores das regiões de Valônia e Flandres e de países como Marrocos e Congo, os “Red Devils”, como ficaram conhecidos os jogadores da seleção belga, se tornaram uma atração em todo o país. Na Copa do Mundo de 2014, a equipe de Marc Wilmots teve um ótimo desempenho e, além de chegar às quartas de final, conseguiu resgatar o senso de unidade que estava esquecido na Bélgica.

De acordo com o primeiro-ministro belga Elio di Rupo, a equipe teve um efeito significativo sobre o “orgulho nacional”. O estádio Rei Balduíno, em Bruxelas, sempre ficava vazio há alguns anos. Agora, a cada jogo, o público lota o espaço, com capacidade para receber 50 mil pessoas, vindas das duas regiões que formam a Bélgica.

O apoio à equipe de futebol não aconteceu por acidente. Uma campanha foi planejada para unir os belgas e fazer do futebol um instrumento de reconciliação. Durante as eliminatórias da Copa do Mundo de 2014, o lema “Faça-nos orgulhosos” ecoou em todo o país, preparando os torcedores para o campeonato. Vários desafios foram lançados aos fãs do time, como pintar o país de vermelho e prender desenhos dos jogadores por todos os lugares no Estádio. Ao cumprir as tarefas, a equipe de futebol deu recompensas aos seus fãs. Jogadores famosos como Eden Hazard e Nacer Chadli, por exemplo, ajudaram um garoto em seus afazeres domésticos e trabalhos de casa, como forma de agradecimento pelo apoio que receberam.

Independente de sua origem, a equipe de futebol conseguiu unir os belgas em uma causa comum. O crescimento do apoio ao esporte coincidiu com a redução do sentimento separatista. Uma pesquisa realizada na região de Flandres mostrou que apenas 15% dos eleitores são a favor da independência da região. Embora outros fatores tenham ajudado na mudança, o orgulho nacional trazido pelo time de futebol mudou o sentimento dos belgas em relação à unidade de seu país.

* A foto acima foi tirada pelo jornalista Thiago Vitale Jayme, autor do site de fotografia www.zethivitale.com.

Matheus Leitão

Matheus Leitão é jornalista há 15 anos. Em sua carreira, passou pelas redações do Correio Braziliense, revista Época, portal iG e Folha de S.Paulo. Matheus recebeu o Prêmio Esso por duas vezes, o Troféu Barbosa Lima Sobrinho -- além de menção honrosa no Vladimir Herzog. Entre 2011 e 2012, esteve na Universidade de Berkeley, na California, como Visiting Scholar.

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