Miriam Leitão: sábado é fim e começo, uma abertura no tempo

03/01/2015 09h26m. Atualizado em 04/01/2015 18h51m

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Gosto dos sábados. O início das manhãs de sábado lembra as possibilidades: fazer uma caminhada, ler aquele livro que nos encantou ao ser manuseado na livraria, ou que acabou de chegar do pedido online, se deixar levar pelas associações soltas de um poeta, brincar com os netos, conversar com os filhos, encontrar os amigos, ver um filme, ouvir novas músicas e não ter que tomar decisões. Elas podem ser adiadas.
Sábado parece um enclave entre os dias de trabalho e escolhas inescapáveis. Domingo será sempre o meio do caminho do fim de semana e a véspera da segunda, onde tudo, então, recomeça.
Uma longa avenida aparece à nossa frente nos sábados ao nascer do dia. Um tempo todo nosso. Claro, há os que preferem dormir mais, exatamente porque no sábado não tem que ir ao trabalho. Aos que vão trabalhar, há a vantagem do caminho mais livre, o trânsito mais fácil. Há o direito universal à preguiça no sábado, deitar no sofá e nada fazer, ou aquela chance de resgatar todos os atrasados da semana para descansar, sem culpas, no domingo. O dia de fazer planos com calma, mesmo os irrealizáveis.
Nos sábados da minha infância havia a distribuição das tarefas para deixar a casa brilhando. Varrer, lavar, espanar, encerar, escovar, arear. Muitos filhos, cada um com uma missão, no fim do dia a casa linda de limpa e minha mãe – que tinha pegado no pesado mais que todo mundo – podendo, enfim, descansar um pouco, contando uma velha história da sua infância na fazenda. Minha irmã, Beth, a mais velha, tocava piano nas tardes de sábado. Assim, musical, a família comemorava o mutirão concluído.
Em um sábado fui presa. Isso estragou o dia, pode-se dizer assim. E vários outros que se seguiram. Mas isso foi uma exceção. Era o tempo da exceção.
Eu queria muito nesta manhã de sábado: que o dia fosse longo, longo e nele eu pudesse ler todos os livros que estão na minha cabeceira, e escrever tudo o que veio à minha mente e deixei de lado durante a semana. Quero escrever uma crônica sobre o sábado e esse sentimento das possibilidades abertas e do tempo elástico que tive ao amanhecer.
Do poema de Vinícius decorei poucos versos, mas o “porque hoje é sábado” ficou como uma porta aberta avisando que, sim, tudo pode acontecer exatamente porque o dia é hoje.
Sábado é o começo ou o fim, tudo é uma questão de opinião. De religião. Coisas que não se discutem. Para mim é o encontro do fim com o começo, formando um breve remanso. E nesse tempo de ninguém, a vida é toda minha. Acordei hoje mais cedo para ver o escuro se esclarecer devagar porque tinha aqui comigo certas inquietações. Quando amanheceu completamente, o incômodo ficou para trás, pertencendo à sexta, que já se foi. Tenho o dia à frente e muito a escolher.
Hoje escreverei sobre o futuro, porque hoje é sábado. Lembrarei sem aflição o passado, porque hoje é sábado. E viverei o presente sorvendo minuto a minuto. Sem pressa. Posso também, escrever um caso inventado que não aconteceu em tempo algum. Ou aconteceu. Quem sabe? É sempre bom duvidar da ficção, ela pode ser uma verdade escondida.
Escolhi sábado para essas crônicas do blog só porque assim elas ficam com sabor de intervalo onde tudo é possível. E eu posso deixar que as palavras reinem, soberanas e livres. Na crônica de hoje não contei histórias, mas sei de muitas. Nem revelei um segredo, e ouvi alguns. Hoje eu quis apenas explicar, a quem porventura me lê, que o sábado merece ser vivido com prazer e calma. Só porque ele é assim, uma abertura no tempo, onde você pode escapar do que quiser, encontrar o que sonhou, fazer planos para depois, ou decidir por impulso. Pode até nada fazer. Festeje seu sábado, vou festejar o meu.

Miriam Leitão

Miriam Leitão, jornalista e escritora, escreve crônicas como colaboradora do blog.

2 Comentários para "Miriam Leitão: sábado é fim e começo, uma abertura no tempo"

  • marisa 04-01-2015 (10:33 am)

    Sempre fui fã de seus comentários sobre economia. Agora sou fã da poetisa.

  • Sueli Gomiero 05-01-2015 (7:41 am)

    As pessoas sempre nos surpreendendo.
    A Miriam que só fala de economia nos presenteia esse texto tão poético.

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