Ouro Fino, os viajantes e a cidade; Por Clara Favilla

31/12/2014 08h25m. Atualizado em 04/01/2015 09h59m

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Confesso que sempre tive uma certa preguiça para me debruçar sobre a história de Ouro Fino, contada com ênfase apenas no poder político das famílias descendentes de portugueses nobres ou não. Foram os paulistas os desbravadores das verdes matas do sul de Minas, rios auríferos e serras. Muitos lá permaneceram e tornaram-se os primeiros proprietários deste pedaço Brasil que compreende também outras cidades: Inconfidentes, Borda da Mata e Bueno Brandão, que já teve o poético e religioso nome de Campo Místico.

A história que aqui reconto já foi muitas vezes contadas, devo ressaltar, com melhor exatidão científica. Mas é como posso contá-la. Começa na década de 30 do século 19. Para trás é a história dos paulistas e antes deles a dos Puris, empurrados para as terras altas das Gerais pelos rivais Botocudos e pela multiplicação de fazendas no Rio e Janeiro e Espírito Santo. Com os paulistas e o início do ciclo da mineração também chegaram, no século anterior, os negros de Angola e Costa do Marfim. Não vamos ao tão remoto. O marco desta história é o ano 1823, o do nascimento de Francisco de Paiva Bueno, conhecido como Coronel Paiva. Já, então, dos Puris e aparentados só restavam vestígios na população cabocla da região. A comunidade negra havia se multiplicado e a miscigenação com brancos pobres e caboclos era forte.

Dizem os documentos disponíveis que o Coronel Paiva, nascido exatamente 100 anos antes de meu pai, Dário Favilla, era comerciante e proprietário rural e de imóveis urbanos, na jurisdição que seria elevada à categoria de município em 1880, apenas nove anos antes de seu falecimento. Foi juiz de paz e delegado de polícia. Foi o vereador mais votado, na primeiras eleições municipais de Ouro Fino. E, como tal, foi presidente da Câmara. Não cumpriu integralmente o segundo mandato, que iria de 07 de janeiro de 1887 a 01 de março de 1890. Morreu em 1889, um ano depois da Abolição da Escravatura e no mesmo ano da proclamação da República.

Sentia falta desta contextualização sempre que lia, aqui e ali, trechos esparsos da História de Ouro Fino centrada nas figuras de seus principais clãs políticos. Quando Ouro Fino foi elevado à condição de município, ainda éramos um Império conduzido por Dom Pedro II. O título de coronel de Francisco de Paiva Bueno deveu-se ao fato de ter integrado a Guarda Nacional, milícia civil que vigorou de 1831, quando Dom Pedro II era ainda príncipe regente (só viria a ser coroado imperador em 1844), a 1922, ano em que foi oficialmente desmobilizada.

Bem, prossigamos. O Coronel Paiva casou-se aos 21 anos com Francisca de Paula Sanches, da qual era parente. Francisca vinha das linhagens Sanches Brandão e Bueno da Silva. Desta última, o representante mais conhecido é Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera. Francisco e Francisca eram Bueno, parentes do bandeirante. O casal teve nove filhos que deixaram de assinar Sanches. Estava fundado, assim, o clã Paiva Bueno Brandão.

Dos nove filhos de Francisco e Francisca, dois constam da história da chamada República Velha: Maria Isabel de Paiva Bueno Brandão e Júlio Bueno Brandão (deixou de usar o Paiva). Maria Isabel casou-se com o primo Francisco Silviano de Almeida Brandão, que ocupou a presidência de Minas Gerais de 1898 a 1902. Eleito vice do presidente Rodrigue Alves, faleceu antes da posse em setembro de 1902. Júlio Bueno Brandão, nascido em 1858, foi presidente de Minas Gerais de 1910 a 1914, deputado e senador varias vezes. Faleceu no Rio de janeiro em 1931, aos 73 anos.

Júlio Bueno Brandão, filho do Coronel Paiva, foi uma das lideranças políticas apoiadoras da mudança do regime monárquico para o republicano. Quando a República foi proclamada tinha 31 anos. O pai com 75 anos passou apenas um sob o novo regime. Escravidão foi abolida e a República proclamada, Ouro Fino não era mais só habitado por descendentes de portugueses, caboclos, negros e mulatos. Já havia famílias italianas por lá. Há relatos, que meu bisavô Anibal Favilla “perdeu-se” alguns dias da mulher e filhos para celebrar intensamente com a comunidade afro-descendente a Abolição. Deve ter comemorado também a Proclamação da República.

Meu bisavô paterno, era de família de posses da região de Lucca, Toscana, um dos berços da Renascença. Mudou-se para o Brasil porque se desentendeu com o pai ao casar-se com uma moça pobre, analfabeta e muito esperta, Cesira (Cecília) Palmini. Tão esperta que por três ou quatro vezes (não se bem ao certo), quando morria alguém da família Favilla, pegava o trem em Ouro Fino e o navio em Santos, para reclamar o quinhão que lhe pertencia na herança. Annibal e Cecília chegaram à Ouro Fino depois de alguns anos em São Paulo. Meu avô Dante Favilla está registrado no cartório do Brás. As informações é de que teria chegado aos dois anos ao Brasil, já registrado na Itália. O segundo registro era a forma de providenciar sem burocracia a naturalização imediata da prole.

Meus bisavós maternos, Ferdinando Marcílio e Marietta Ceccon vieram da região do Vêneto, de uma cidadezinha perto de Verona, já proclamada a República. Chegaram como imigrantes, já casados. Depois de cumprirem a quarentena em Santos foram direto trabalhar na Fazenda Córrego da Onça, terras hoje sob a juridição de Inconfidentes. Minha avó Venerina Marcílio nasceu lá em 11 de agosto de 1899. Antes, fizeram um pit stop em Santa Rita do Sapucaí para que Marietta desse à luz às gêmeas Rita e Ambrósia.

Mas deixemos de digressões, mesmo que sejam importantes por contextualizar famílias de sobrenome não português, na História de Ouro Fino. No dia 28 de setembro de 1906, o presidente de Minas Gerais, João Pinheiro, vinte e dois dia após a posse, assinou a Lei 439 que permitiu uma radical reforma de ensino consistente com os ideais de modernidade previstos no lema Ordem e Progresso da nascente República. No mesmo ano, um grupo de cidadãos de Ouro Fino organizou a Liga de Instrução para viabilizar a construção de um Grupo Escolar. Integrava a liga, o presidente e tesoureiro da Câmara Municipal, Nicolino Rossi.

Criada a Liga de Instrução, o senador e vice-presidente de Minas Gerais, Júlio Bueno Brandão, doou a antiga residência de seus falecidos pais, Francisco Paiva e Francisca Sanches Bueno, para que fosse demolida e, no terreno, construído o Grupo Escolar que foi batizado de Coronel Paiva. As famílias italianas também começam a acontecer na História de Ouro Fino na lista dos dez primeiros matriculados no Grupo Escolar, como também de seu corpo docente. Entre os alunos: Atílio, Natali e Umberto Guidi. Entre os professores: José Pennachi.

Era março de 1909. O Grupo Escolar Coronel Paiva estava inaugurado e em funcionamento com mais de 400 alunos. O Brasil moderno começava a nascer também no Sul de Minas com a contribuição dos imigrantes italianos. O desenho do Brasil antigo, litorâneo ou mais profundo, foi feito pelo braço forte dos clãs portugueses, pelo sangue indígena, a dor e o suor dos africanos aqui desterrados. O novo Brasil começa a ser feito, a partir desse legado, com gente do mundo inteiro, até do longínquo Japão. Antes de qualquer farol, marco, capela ou cidade houve o caminho. E não há caminho sem os que ousaram dar os primeiros passos.

Clara Favilla

Clara Favilla é jornalista. "Mais do que conhecer novos lugares, amo retornar. Reportariar é meu ofício. Vivo viajando, até pela quadra onde moro, em Brasília. Escreverei sobre viagens aqui. Serão impressões pessoais,mais do que guias. Espero que gostem, deem retorno e sugestões."

1 Comentário para "Ouro Fino, os viajantes e a cidade; Por Clara Favilla"

  • Willian Marcílio 31-12-2014 (5:29 pm)

    Parabéns Clara, amei seu artigo…se você tinha uma certa preguiça em escrever sobre Ouro Fino, eu tinha essa preguiça para ler….mas seu artigo me atraiu e foi com muito prazer que fiquei sabendo muito mais sobre minha cidade……grande abraço, um super ano de 2015.
    bjos
    Willian

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