O mundo em 2014: surpresas, tensão e mudanças; Por Sérgio Abranches

28/12/2014 08h38m. Atualizado em 31/12/2014 07h44m

CompartilheShare on Google+Tweet about this on TwitterShare on FacebookShare on RedditShare on VK

O ano de 2014 fechou com a mais inesperada das mudanças na geopolítica das Américas: o restabelecimento de relações diplomáticas entre Estados Unidos e Cuba. As negociações foram conduzidas em sigilo, com a mediação do papa e do Vaticano. A geopolítica global foi marcada pela anexacão da Crimeia pela Rússia e o conflito com a Ucrânia, revivendo a política de grandes potências. O ultrapassado recurso ao “hard power” ficou novamente à frente do “soft power” e do “smart power”. (O uso de expressões em inglês é uma homenagem ao ultrapassado personagem que assumirá o ministério da Ciência e Tecnologia no Brasil, um dos exemplares remanescentes do pensamento típico dos inícios da Guerra Fria.) A ação de hackers ligados à Coreia do Norte, com apoio logístico chinês, contra a Sony, causou espanto e revolta nos Estados Unidos e levou o presidente Obama a caracterizá-la como cibervandalismo. O inusitado episódio fechou um ano no qual Washington fez de tudo para que o mundo esquecesse que a Agência de Segurança Nacional (NSA) invadiu a privacidade de pessoas e governantes, criando a figura do hacker estatal global. Esse ato de “hackerismo estatal” foi revelado, em 2013, por Edward Snowden – que continua asilado na Rússia, perseguido como traidor pelo EUA – e por reportagens investigativas, entre as quais se destacaram as de Glen Greenwald para o The Guardian.

Foi um ano tenso nas relações entre EUA e União Europeia com a Rússia. E a tensão se projeta para 2015. Putin, que continua com pretensões hegemônicas em relação à Ucrânia, aprovou nova diretriz de segurança nacional que considera a OTAN como uma ameaça à segurança. Segundo a nova doutrina, a OTAN está aumentando sua força de intervenção militar e globalizando suas ações, em desrespeito à legislação internacional. É um argumento adicional para vetar a entrada da Ucrânia na OTAN, aprovada em lei pelo parlamento ucraniano na véspera do Natal pela quase unanimidade dos votos. Na UE, vários governos defendem a entrada da Ucrânia na OTAN. No EUA, o presidente Obama assinou no último dia 18, a Lei de Apoio à Liberdade da Ucrânia, aprovado pelo Congresso, que prevê a adoção de novas sanções e medidas em resposta à ação russa. Tudo cheira a Guerra Fria mas não é. O contexto geopolítico e ideológico é muito diferente, assim como os riscos derivados dessas situações de tensão.

A emergência do autodenominado Estado Islâmico, surpreendeu o mundo como a maior ameaça de violência religiosa, por causa de suas ações ultraradicais e brutais. Ninguém havia previsto a destreza na guerra de guerrilhas que mostrou derrotando forças em número muito superior, como na captura de Mosul, no seu avanço para estabelecer o “Califado”, em uma ampla faixa do Iraque e do Irã, que vai de Falluja a Raqqa (capital do “Califado”) a Mosul. Veja o mapa abaixo.

mapa-Estado-Islâmico

O EI, ao contrário da Al Qaeda, tem porta-vozes que se comunicam em inglês fluente, usa com habilidade as redes e mídias sociais e tem um séquito globalizado que proclama sua fidelidade ao “Princípe dos Fiéis” e “Califa dos Muçulmanos”, o líder Abu Bakr Al-Baghdadi Al-Husseini Al-Qurashi. Ora, chamado Abu Al-Baghdadi, ora Abu Al-Qurashi. Na versão de sua biografia apresentada nas mosques da região ocupada, ele é dado como descendente de Al-Husseini, da tribo do profeta. De acordo com Jürgen Todenhoefer, escritor alemão que obteve permissão para passar 10 dias no “Califado”, o EI está sendo subestimado. Pelo que observou, o influxo de novos adeptos cresce diariamente. Pode se mostrar um Tsunami de violência e retaliação. Ele diz que o EI não pode ser derrotado pelas armas e aposta mais no trabalho de contenção dos Sunitas moderados O Estado Islâmico, ou “Califado” é tão funcional, diz ele, quanto os outros regimes totalitários da região. Controvertido documentário do site Vice News, mostra a mesma coisa.

Na África, a face humana do terror ganhou o nome de Boko Haram, que sequestrou mais de 260 meninas de uma escola na Nigéria, e já matou centenas de pessoas em seus ataques. Fora a barbárie humana, a epidemia de Ebola, mostrou outra face do terror, matando mais de seis mil pessoas na África Ocidental. Como que não se trata de um virus de contágio forte, a epidemia revela a fragilidade de grande parte da população africana.

No Norte da África, o ano foi de colapso dos governos constituídos após a “Primavera Árabe”. A Líbia voltou a ser palco de uma guerra civil, com os ataques dos jihadistas. No Egito, o golpe militar que derrubou o governo controlado por Muhammad Morsi, da Fraternidade Muçulmana, em 2013, foi substituído por um governo autoritário, sob liderança do líder golpista Abdel Fattah el-Sisi, eleito presidente em pleito controverso. A Tunísia é o único caso ainda de sucesso saído dos levantes no Norte da África e no Oriente Médio. Na mais democrática das eleições da região, Beji Caid Essebsi foi eleito presidente com quase 56% dos votos.

No Japão, o primeiro-ministro Shinzu Abe venceu por ampla maioria as eleições de 14 de dezembro, conquistando dois terços das cadeiras no parlamento. A reeleição fortalece seu mandato para promover reformas econômicas e tentar repor o Japão na trilha do crescimento, perdida há muitos anos. A principal mudança no front externo foi a nomeação de Gen Nakatani, um especialista ultraconservador em segurança nacional. Abe prometeu propor ao novo parlamento, no início da sessão legislativa em janeiro, uma profunda reforma da legislação de segurança nacional. Nakatani é favorável a mudar o perfil de defesa do Japão, que considera muito modesto diante dos desafios geopolíticos e de segurança nacional que o país já enfrenta. A nomeação reforça, também, a postura mais nacionalista assumida pelo governo japonês.

Na China, o presidente Xi Jinping consolidou seu poder, iniciou mudanças importantes na política, na economia, no setor financeiro e no meio ambiente. Na sua cruzada para reformar a burocracia partidária e combater a corrupção, ele bate de frente com os três mais poderosos grupos de interesses da China, a polícia, os militares e as empresas estatais. Xi também está movendo a China para uma política mais nacionalista. Essa virada nacionalista do Japão e da China terá importantes consequências para a geopolítica e a economia da região.

No capítulo das tentativas de estabelecer um mínimo de governança global, entrou em vigor o Tratado sobre Comércio de Armas, aprovado na Assembléia Geral da ONU, em abril de 2013. Trata-se do mais importante acordo sobre armas acertado multilateralmente e legalmente compulsório para os seus signatários, desde o tratado que baniu os testes nucleares, em 1996. Por outro lado, em Lima, no Peru, mais uma Reunião das Partes da Convenção do Clima (COP), terminou de forma decepcionante. Em 2015, para cumprir o que os países aprovaram em Durban, na África do Sul, em 2011, os signatários da Convenção do Clima deverão aprovar um novo e abrangente acordo, que substituirá o Protocolo de Quioto a partir de 2020.

Sérgio Abranches

Sérgio Abranches é cientista político, comentarista da CBN e colaborador do blog.

1 Comentário para "O mundo em 2014: surpresas, tensão e mudanças; Por Sérgio Abranches"

  • cheapest fifa 60 31-12-2014 (3:34 am)

    Great post. I used to be checking constantly this weblog and I’m inspired! Extremely useful info specially the final section :) I deal with such info a lot. I was looking for this particular info for a long time. Thank you and best of luck. |

Deixe uma resposta para cheapest fifa 60 Cancelar comentário

O autor do blog não se responsabiliza pelo comentário.